Expansão fiscal será chave para definir juros em 2026, dizem especialistas
A economia brasileira atravessa um momento delicado em relação à condução da política monetária e fiscal para os próximos anos.
Em 2026, o cenário econômico do país deverá ser fortemente influenciado pelo ritmo de expansão fiscal, com consequências diretas para a taxa básica de juros, a inflação, e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
Especialistas alertam para uma possível desaceleração na redução dos juros caso o governo amplie os gastos, especialmente em ano eleitoral, pressionando os preços e dificultando o controle inflacionário.
Este artigo analisa os principais fatores que podem impactar os juros em 2026, com base em estudos recentes de consultorias econômicas e análises de economistas renomados.
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Definição e contexto da política fiscal expansionista
A expansão fiscal refere-se ao aumento dos gastos públicos, que pode ocorrer através de maiores investimentos do governo, ampliação de programas sociais ou reajustes acima da inflação, como o aumento do salário mínimo. Esse aumento de gastos tende a injetar mais dinheiro na economia, elevando a demanda por bens e serviços.
Efeito da expansão fiscal sobre a inflação
Com mais dinheiro circulando, a demanda por produtos cresce, o que pode levar ao aumento dos preços — ou seja, à inflação. Em um cenário com inflação pressionada, o Banco Central geralmente eleva a taxa de juros para conter o consumo e os preços.
Relação entre inflação, juros e crescimento econômico
Altos juros tornam o crédito mais caro, o que desestimula o consumo e os investimentos, impactando negativamente o crescimento econômico. Por outro lado, juros baixos podem estimular o crescimento, mas, se houver expansão fiscal descontrolada, podem causar inflação elevada.
Projeções para a Selic e PIB em 2026
Cenários traçados pela consultoria Outpod
Segundo estudo da consultoria Outpod, coordenada pelo economista Carlos Honorato, o futuro da Selic em 2026 está diretamente ligado ao ritmo da expansão fiscal:
- Cenário otimista: A Selic pode cair para 9,5%, com crescimento do PIB entre 2% e 2,4%.
- Cenário base: Selic em torno de 10,5% a 11%, PIB entre 1% e 2%.
- Cenário pessimista: Juros acima de 12%, PIB próximo de 1% e risco de recessão em 2027.
| Variável | Pessimista | Base | Otimista |
|---|---|---|---|
| Inflação | 6% a 6,5% | 5% a 5,5% | 4,5% a 4,8% |
| PIB | 1% | 1% a 2% | 2% a 2,4% |
| Selic | >12% | 10,5% a 11% | 9,5% |
| Câmbio (R$) | >6,50 | 5,50 a 6 | 5,50 |
| Probabilidade | 20% | 40% | 40% |
Implicações para o mercado e consumidor
A velocidade do corte da Selic poderá ser mais lenta, principalmente se houver aumento dos gastos públicos devido à disputa eleitoral. Para o consumidor, isso significa juros mais altos no crédito e possíveis aumentos nos preços de produtos e serviços.
Impactos da política fiscal expansionista em 2026
Pressão sobre a inflação e taxa de juros
O crescimento dos gastos públicos, especialmente programas sociais e reajustes salariais, tende a manter a inflação em patamares elevados. Economistas como Rafaela Vitoria, do banco Inter, afirmam que isso limita o espaço para cortes significativos da Selic.
Dívida pública e sustentabilidade fiscal
A dívida bruta brasileira está em trajetória crescente, estimada em cerca de 84% do PIB, podendo atingir 85% em cenários com gastos maiores. Sem medidas para controle dos gastos, o Brasil corre o risco de comprometer a credibilidade fiscal, tornando mais caro o financiamento da dívida.
Banco Central, política monetária e o cenário eleitoral
Influência da nova diretoria do Banco Central
Em 2026, o governo poderá nomear novos diretores para o Banco Central, o que pode alterar o comando do Copom. Isso traz incertezas sobre a continuidade da atual política monetária, embora especialistas como Jeferson Bittencourt acreditem que o BC deve manter seu plano diante das condições fiscais e econômicas.
O “plano de voo” do BC e restrições fiscais
O Banco Central deve ser cauteloso na redução dos juros, especialmente se o gasto público aumentar além do previsto. O equilíbrio entre controlar a inflação e apoiar o crescimento será o maior desafio.
Fatores externos e seus efeitos sobre os juros e inflação
Tarifas dos EUA e desvalorização do real
As tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre exportações brasileiras reduzem a competitividade do país e pressionam o câmbio, levando à desvalorização do real. Isso encarece insumos importados e pressiona ainda mais a inflação.
Desafios para o Banco Central diante dos choques externos
O BC terá que equilibrar os efeitos da expansão fiscal interna com os choques externos, como tarifas e câmbio desfavorável, que podem demandar juros elevados por mais tempo.
Impactos da expansão fiscal para além de 2026
Riscos para a estabilidade econômica de longo prazo
O estudo da Outpod alerta para um possível ressurgimento inflacionário persistente entre 2030 e 2037, caso não haja correções fiscais significativas. Isso poderia levar a ciclos prolongados de aperto monetário, prejudicando o crescimento sustentável.
Taxas reais de juros e investimentos de longo prazo
Com as taxas reais para prazos longos acima de 7%, o custo do financiamento para investimentos aumenta, dificultando o crescimento econômico e a melhora da infraestrutura nacional.
Conclusão
A condução da política fiscal e monetária em 2026 será decisiva para o futuro da economia brasileira. A expansão fiscal, especialmente em ano eleitoral, pode pressionar a inflação e limitar o ritmo de corte da Selic, resultando em juros elevados e crescimento econômico moderado ou até recessão.
O desafio será equilibrar o estímulo à economia com a sustentabilidade fiscal, garantindo a estabilidade de preços e o ambiente favorável para investimentos de longo prazo.
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