Taxas de juros avançam com resultado econômico robusto, mas pressão internacional freia ganhos
Os juros futuros avançaram no pregão mais recente, impulsionados por uma sequência de indicadores que apontam para uma atividade econômica mais robusta do que o esperado no segundo trimestre. Os dados da Pnad Contínua, combinados com números de crédito e emprego, reforçaram a percepção de um mercado de trabalho aquecido e de uma demanda interna ainda firme.
Destaques:
Juros futuros sobem com atividade aquecida e incertezas fiscais. Mercado reavalia chances de corte na Selic ainda em 2025. Confira os detalhes.
Apesar da surpresa positiva com os dados, o cenário não foi suficiente para alterar significativamente as apostas do mercado em relação à reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de junho. Ainda assim, houve um movimento claro de redução nas expectativas de corte da taxa Selic no segundo semestre.
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Abertura e fechamento dos DIs
As taxas dos principais contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) subiram:
- DI jan/26: 14,755% (ante 14,726%)
- DI jan/27: 14,04% (ante 13,92%)
- DI jan/29: 13,52% (ante 13,46%)
A maior alta ocorreu nos vencimentos intermediários, enquanto a ponta longa foi amenizada pelo recuo dos rendimentos dos Treasuries norte-americanos e pela leve desvalorização do dólar frente ao real.
Atividade econômica surpreende e desafia cortes na Selic
Primeiro trimestre forte e segundo sem desaceleração
De acordo com Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, o conjunto de indicadores divulgado nos últimos dias reforça a percepção de que a desaceleração da atividade econômica pode ser mais gradual. “Sabíamos que o primeiro trimestre seria impulsionado pelo agro, mas já esperávamos um segundo trimestre mais fraco. No entanto, os dados estão surpreendendo para cima”, disse.
Desemprego atinge mínima histórica
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) revelou uma taxa de desemprego de 6,6% no trimestre encerrado em abril, ante 7,0% no trimestre anterior. O número representa o menor nível histórico para esse período do ano.
Segundo a XP Investimentos, dados ajustados sazonalmente apontam o desemprego em apenas 6%, o que configura uma mínima histórica geral. Além disso, o rendimento médio real dos trabalhadores registrou crescimento pelo sétimo mês consecutivo.
Mercado de trabalho aquecido
Vladimir Caramaschi, sócio-fundador da consultoria +Ideas, ressalta que a combinação dos dados da Pnad e do Caged confirma a resiliência do mercado de trabalho. Para ele, isso reduz a probabilidade de novos cortes na Selic no curto prazo.
“A política monetária já está em patamar restritivo. Diante disso, o Banco Central pode preferir manter a Selic inalterada por um período mais prolongado, em vez de voltar a subir os juros”, analisou.
Crédito cresce e confiança empresarial melhora
Concessão de crédito surpreende
Na nota mensal de crédito, o Banco Central informou que as concessões de crédito livre cresceram 2,7% em abril, superando projeções e reforçando a narrativa de um consumo interno aquecido, ainda que sob juros altos.
Indicadores de confiança sobem
Paralelamente, os indicadores de confiança da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostraram:
- Comércio: avanço de 1,2 ponto
- Serviços: alta de 1,5 ponto
Ambos os setores demonstram recuperação da confiança entre empresários, o que contribui para a manutenção do dinamismo econômico.
Copom sob pressão: manter ou não manter a Selic?
Probabilidade de corte diminui
A curva de juros mostrou um recuo na precificação de cortes na Selic para o fim do ano. Na sexta-feira anterior, o mercado projetava até 22 pontos-base de redução em dezembro. No entanto, esse número caiu para 11 pontos-base após os novos dados.
Nova alta ainda é pouco provável
Para a próxima reunião do Copom, marcada para junho, a probabilidade de um novo aperto monetário de 0,25 ponto percentual se mantém em torno de 30%, conforme os contratos futuros negociados na B3.
Ponta longa sente menos o impacto
Influência internacional ajuda a conter alta
Os vértices mais longos da curva de juros tiveram uma resposta mais contida. Apesar das tensões fiscais internas, o cenário externo ajudou a limitar os avanços:
- Rendimentos dos Treasuries: queda nas taxas após reversão no apetite ao risco
- Dólar: leve enfraquecimento contribuiu para estabilidade na ponta longa
A decisão de uma corte federal nos EUA de suspender um aumento de tarifas proposto por Donald Trump inicialmente gerou euforia nos mercados. No entanto, a avaliação posterior de que o cenário ainda é incerto fez com que os investidores adotassem postura mais cautelosa.
IOF: impasse fiscal segue como ponto de tensão
Congresso pressiona governo por alternativa
O cenário fiscal continua sendo um fator de incerteza relevante para os agentes econômicos. A proposta do governo de aumentar o IOF para compensar a reoneração da folha enfrenta resistências no Congresso.
Hugo Motta, presidente da Câmara, declarou que o Legislativo está dando um prazo de dez dias para o Executivo apresentar uma alternativa ao aumento do imposto. Segundo ele, o próprio presidente Lula deveria se envolver na negociação.
Medida pode ser derrubada pelo Legislativo
Motta ainda afirmou que o Congresso poderá sustar a medida caso não haja acordo. “O cenário está claro: se não houver mudança, o Legislativo vai reagir”, disse. Segundo ele, não há preocupação com corte de emendas e a Câmara dará sua “contribuição”.
Tesouro tem demanda firme em leilão
Leilão é absorvido integralmente
Em meio a esse ambiente de incerteza, o Tesouro Nacional realizou um leilão significativo de títulos prefixados, que foi absorvido integralmente:
- Letras do Tesouro Nacional (LTN): 20 milhões
- Notas do Tesouro Nacional – série F (NTN-F): 3 milhões
O sucesso do leilão indica que, apesar do risco fiscal, a demanda por títulos soberanos segue firme — uma demonstração de confiança relativa do mercado na condução da política fiscal e monetária.
Conclusão: dados aquecem a economia e adiam alívio monetário
O conjunto de dados econômicos divulgados recentemente injetou otimismo com o desempenho da economia brasileira, mas também trouxe dúvidas sobre a trajetória futura da política monetária. O cenário de atividade aquecida torna mais difícil a justificativa para cortes na Selic, ao passo que os riscos fiscais continuam no radar.
Com o mercado de trabalho forte, crescimento do crédito e avanço da confiança empresarial, o Banco Central pode se ver forçado a manter a taxa básica de juros em patamar elevado por mais tempo. A curva de juros já reflete essa expectativa, com os DIs precificando menor chance de cortes em 2025.
Ainda assim, o contexto internacional — em especial o comportamento dos Treasuries e do dólar — seguirá como contrapeso às pressões locais, influenciando principalmente a ponta longa da curva.
