A Justiça Federal de São Paulo determinou, na última terça-feira (24), que todas as plataformas de apostas online passem a incluir alertas visíveis sobre o uso de recursos de programas sociais, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC). A medida, que deverá ser implementada em até 45 dias, busca conter o uso indevido de verbas públicas voltadas à assistência social e aumentar a conscientização sobre os riscos do jogo para populações vulneráveis.
A decisão, assinada pelo juiz Gabriel Hillen Albernaz Andrade, atende a uma ação civil pública movida pela Educafro e pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (CDCA). Caso as empresas descumpram a ordem judicial, será aplicada uma multa diária de R$ 500 mil.
Clique no botao abaixo para liberar o conteudo completo gratuitamente.
Leia mais:
Google autoriza apps de apostas na Play Store e amplia opções para usuários

Entenda o conteúdo da decisão judicial
Quais são as exigências impostas às plataformas?
A decisão obriga as empresas operadoras de apostas esportivas online e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) — entidade que representa boa parte do setor no país — a exibir alertas explícitos nas plataformas e materiais publicitários, com mensagens claras sobre o uso indevido de benefícios sociais no jogo.
Esses alertas deverão:
- Apontar os riscos do uso do Bolsa Família e do BPC em apostas;
- Instruir os usuários a não comprometerem recursos essenciais;
- Ser exibidos de forma permanente e destacada, nos sites, aplicativos e campanhas de marketing.
Qual o prazo para cumprimento da decisão?
As empresas terão um prazo máximo de 45 dias para se adequar. O texto judicial determina que os alertas estejam visíveis ao usuário antes da realização das apostas, de modo que não sejam passíveis de omissão. Caso não cumpram a decisão dentro do prazo, as empresas estarão sujeitas a uma multa diária de R$ 500 mil.
Pedido de bloqueio de acesso por beneficiários foi negado
Rejeição ao compartilhamento de dados do CadÚnico
As entidades autoras da ação solicitaram ainda que o governo federal compartilhasse dados de beneficiários do Bolsa Família e do BPC com as plataformas de apostas, permitindo assim o bloqueio de cadastros dessas pessoas nos sites.
No entanto, o juiz negou o pedido, argumentando que a medida poderia violar o direito à privacidade e proteção de dados pessoais, conforme previsto na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Também ponderou que não cabe ao Judiciário forçar o governo a fornecer informações sensíveis para empresas privadas, mesmo que o objetivo seja a prevenção de danos sociais.
Apostas ainda são legalmente acessíveis a beneficiários
Com a decisão, o uso de recursos do Bolsa Família e BPC não está proibido pelas plataformas de apostas, mas a obrigação de informar sobre os riscos foi considerada uma medida equilibrada e eficaz do ponto de vista legal e social.
Segundo a Justiça, qualquer proibição mais severa precisaria ser regulamentada por lei federal, uma vez que não existe hoje norma específica que restrinja o acesso de beneficiários de programas sociais às apostas online.
Campanhas publicitárias para população de baixa renda seguem permitidas
Pedido de suspensão de publicidade foi considerado excessivo
Outro pedido negado pela Justiça foi a suspensão de campanhas publicitárias das plataformas voltadas à população de baixa renda. As entidades alegavam que essas ações de marketing induziam o uso irresponsável do dinheiro público em apostas.
O juiz rejeitou o pedido, avaliando que não havia provas suficientes de que tais campanhas ferissem a legislação vigente. Ele afirmou que as plataformas já estão sujeitas às regras contra publicidade enganosa ou abusiva, e que proibir a comunicação com determinado público seria uma restrição excessiva ao direito à informação.
Impacto para o setor de apostas no Brasil
Regulação em andamento no Congresso
A decisão ocorre em um momento em que o mercado de apostas esportivas online passa por um processo de regulamentação mais rigoroso no Brasil. O Congresso Nacional analisa propostas que visam:
- Fixar alíquotas de tributação para operadoras e apostadores;
- Estabelecer critérios mínimos de transparência e proteção ao consumidor;
- Limitar o alcance de publicidade e patrocínios por casas de apostas.
O setor, que movimenta bilhões de reais anualmente, tem enfrentado pressões sociais e políticas crescentes, especialmente após o avanço de denúncias de manipulação de resultados, vício em jogos e uso indevido de benefícios sociais.
Posicionamento do IBJR
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), citado na decisão judicial, declarou em nota que vai cumprir a determinação da Justiça e que já vinha discutindo medidas de autorregulação para aumentar a segurança dos usuários.
“Nosso compromisso é com o jogo responsável, a integridade e a prevenção de riscos sociais. Vamos trabalhar para aplicar as adaptações exigidas no prazo estipulado”, informou o IBJR.
Banco Central: não há base legal para impedir o uso de benefícios em apostas

Declaração de Gabriel Galípolo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou em abril que a instituição não possui respaldo legal para impedir o uso de recursos do Bolsa Família ou do BPC em apostas online. Segundo ele, as transferências são livres, e caberia ao Congresso criar leis específicas para regulamentar eventuais bloqueios.
Essa declaração ajudou a embasar a decisão judicial, que optou por não impor restrições diretas ao acesso de beneficiários às plataformas, concentrando-se em ações de informação e prevenção.
Por que a decisão é relevante para a sociedade
Proteção de grupos vulneráveis
A medida judicial atende a uma demanda crescente por proteção aos beneficiários de programas sociais, especialmente diante de:
- Crescimento das apostas online no Brasil;
- Falta de educação financeira em grande parte da população;
- Relatos de famílias que perderam parte do auxílio em jogos.
A decisão reconhece que, embora as apostas sejam legalmente permitidas, o uso de recursos públicos de assistência nesses sistemas pode ter efeitos devastadores, como o endividamento de famílias vulneráveis e a interrupção do acesso a itens básicos, como alimentação e medicamentos.
Papel da informação e educação
O juiz destaca que o alerta explícito sobre o uso de benefícios é uma forma de prevenção proporcional e respeitosa da liberdade individual. Ele considera que a informação pode proteger sem restringir, e que ações mais invasivas só devem ocorrer quando respaldadas por legislação clara.
O que acontece agora
Empresas devem agir imediatamente
As plataformas de apostas e o IBJR deverão:
- Implementar alertas visíveis nas páginas de cadastro, apostas e check-out;
- Atualizar campanhas publicitárias e materiais de divulgação para incluir a nova informação;
- Enviar comprovação do cumprimento à Justiça dentro do prazo de 45 dias.
A fiscalização do cumprimento caberá ao Ministério da Justiça e ao Procon, além de estar sujeita à denúncia por parte dos usuários e das entidades civis.
Caso pode abrir precedentes

Especialistas em direito do consumidor avaliam que a decisão da Justiça Federal de São Paulo pode abrir precedentes para outras ações semelhantes, inclusive com foco em outros públicos vulneráveis, como crianças, adolescentes e pessoas com histórico de vício.
O caso também reforça o debate sobre a necessidade de educação digital e financeira para lidar com o avanço da tecnologia nas relações de consumo.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

