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Kraft Heinz quer desfazer fusão que criou empresa após 10 anos

A Kraft Heinz, uma das maiores fabricantes de alimentos do mundo, está em processo de reestruturação e considera desmembrar-se em duas companhias distintas, segundo informações divulgadas pelo Wall Street Journal.

A medida, que ainda está em discussão no conselho da empresa, pode marcar o fim da fusão histórica ocorrida há uma década entre a Kraft Foods e a Heinz, arquitetada por Warren Buffett e os brasileiros da 3G Capital.

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A estratégia por trás da separação

Anúncio da marca Heinz com tomate e molho em uma tábua
Reprodução: Heinz/Facebook

Mudança de foco: de alimentos processados para condimentos

Segundo o WSJ, a Kraft Heinz pretende transferir a maior parte de suas marcas tradicionais de alimentos para uma nova empresa e manter no portfólio principal apenas os produtos com maior potencial de crescimento, como molhos, pastas e condimentos. A ideia é focar em categorias que têm apresentado maior rentabilidade e aderência entre os consumidores, especialmente temperos, molhos picantes e produtos mais versáteis para o uso diário.

Com essa reestruturação, a expectativa da administração é clara: aumentar o valor de mercado da companhia. Atualmente avaliada em cerca de US$ 32 bilhões, a Kraft Heinz acredita que a nova estrutura pode gerar mais valor para os acionistas. A nova empresa, que seria criada a partir da cisão, pode ser avaliada em até US$ 20 bilhões, segundo projeções internas. Somadas, as duas entidades poderiam ultrapassar com folga o valor atual do conglomerado.

Impacto imediato no mercado

A notícia de uma possível cisão provocou uma reação positiva no mercado. As ações da Kraft Heinz subiram 2,5% após a reportagem, fechando a US$ 27,14 na última sessão. No entanto, esse movimento de alta é modesto diante do desempenho acumulado desde a fusão: a empresa perdeu mais de 60% de seu valor de mercado na última década — cerca de US$ 57 bilhões.

Crise de identidade: por que a fusão não deu certo

Os bastidores da megafusão de 2015

A fusão entre a Kraft e a Heinz foi concluída em 2015, apenas dois anos depois da aquisição da Heinz por Buffett e a 3G Capital. À época, o negócio foi considerado uma das maiores movimentações do setor de alimentos e consolidou uma das empresas mais influentes do ramo.

O plano inicial era claro: unir forças para cortar custos, melhorar margens e aproveitar sinergias operacionais. No entanto, a estratégia não se concretizou conforme o esperado. As tentativas de enxugamento de custos afetaram a inovação e a competitividade das marcas, e a companhia passou a perder espaço no mercado diante da ascensão de marcas menores e de nicho, mais alinhadas às tendências de alimentação saudável e sustentável.

Mudança no comportamento do consumidor

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Imagem: Divulgação

O principal problema enfrentado pela Kraft Heinz está relacionado às mudanças no comportamento do consumidor. Ao longo da última década, o público passou a buscar alimentos mais naturais, com menos conservantes e ingredientes artificiais. Marcas tradicionais de alimentos processados, carro-chefe da Kraft Heinz, perderam apelo.

A divisão de comidas embaladas desacelerou de forma acentuada, enquanto concorrentes menores, com apelo orgânico e sustentável, avançaram sobre o mercado. Além disso, a inflação e a queda no poder de compra levaram muitos consumidores a buscar alternativas mais baratas, pressionando ainda mais os lucros da empresa.

Warren Buffett e a 3G Capital: caminhos distintos

3G Capital fora do jogo

A 3G Capital, que inicialmente desempenhou papel estratégico na gestão e estruturação da fusão, vem reduzindo sua participação na Kraft Heinz ao longo dos anos. No final de 2023, o grupo brasileiro já havia se retirado completamente do capital da companhia.

Buffett permanece como acionista, mas sem influência direta

Warren Buffett, por meio da Berkshire Hathaway, continua sendo o maior acionista individual da Kraft Heinz, com 28% das ações. No entanto, sua participação tem caráter majoritariamente financeiro, já que ele não possui mais assentos no conselho da empresa e não interfere diretamente nas decisões estratégicas.

Rumo ao futuro: o que esperar da nova estrutura

Um possível anúncio nas próximas semanas

De acordo com o Wall Street Journal, um anúncio oficial pode ser feito nas próximas semanas. A Kraft Heinz ainda avalia quais marcas serão atribuídas a cada uma das novas empresas e analisa as melhores formas de estruturar a cisão para evitar impactos negativos no mercado e nas operações.

A principal prioridade da companhia é garantir que a empresa focada em condimentos e molhos tenha capacidade de inovação e crescimento, enquanto a divisão de alimentos tradicionais possa encontrar novos caminhos sob outra estrutura corporativa.

Riscos e oportunidades

Ainda que a cisão represente uma tentativa de recuperar valor perdido, ela também carrega riscos. O mercado alimentício continua em transformação, e a competição com marcas mais ágeis e adaptadas às novas demandas do consumidor se intensifica.

Além disso, o desafio de reorganizar cadeias de produção, canais de distribuição e ativos estratégicos pode gerar instabilidades no curto prazo. No entanto, especialistas apontam que, se bem executada, a separação pode permitir maior foco, agilidade e rentabilidade para cada negócio.

Imagem: Bloomberg