Ligações de telemarketing respondem por 60% dos contatos telefônicos no país

Apesar das diversas medidas adotadas nos últimos anos para frear o abuso das chamadas de telemarketing no Brasil, a prática ainda representa a maioria dos contatos telefônicos recebidos pelos brasileiros.

Segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), 60% das ligações feitas no país continuam sendo desse tipo, com destaque para as chamadas automáticas, conhecidas como robocalls.

Em abril de 2025, a agência registrou a impressionante marca de 10 bilhões de chamadas de telemarketing em apenas um mês, mesmo com uma queda de 40% no volume em relação ao mesmo período do ano passado.

Os números revelam a persistência e a evolução das estratégias utilizadas pelas empresas — muitas vezes ilegais — que tentam burlar os sistemas de bloqueio utilizando tecnologia de troca de número automático.

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O cenário das ligações de telemarketing no Brasil

Mulher trabalhando no telemarketing, com fone de ouvido, segurando um papel
Imagem: fizkes / shutterstock.com

Números continuam altos apesar da queda

De acordo com a Anatel, embora tenha havido uma redução significativa de chamadas em 2025 — cerca de 40% a menos em comparação com 2024 —, a quantidade absoluta de ligações continua na casa dos bilhões.

Destaques do levantamento:

  • 10 bilhões de ligações de telemarketing registradas em abril de 2025
  • 60% do total de chamadas telefônicas realizadas no país
  • A maioria das ligações são robocalls, feitas por sistemas automatizados
  • Técnicas para driblar bloqueios incluem o uso de números randômicos e não fixos

Chamadas automatizadas: o que são e como funcionam

As chamadas automáticas, ou robocalls, são geradas por sistemas que disparam centenas de ligações simultaneamente, com gravações de voz oferecendo produtos, serviços ou solicitando respostas automáticas.

Essa estratégia permite às empresas realizar milhões de contatos por dia a um custo muito baixo.

No entanto, esse modelo tem sido cada vez mais questionado por autoridades reguladoras, consumidores e entidades de defesa do consumidor.

Tentativas de controle e limitações

O “Não me perturbe” e outras iniciativas

O principal instrumento para tentar coibir esse tipo de prática é o sistema “Não me perturbe”, uma iniciativa lançada pela Anatel em parceria com operadoras, permitindo que o consumidor cadastre seus números para não receber ligações de telemarketing.

Apesar disso, muitos usuários relatam que as chamadas continuam, mesmo após o registro no sistema.

Por que isso acontece?

  • Empresas utilizam números diferentes a cada ligação, dificultando o bloqueio.
  • Empresas não cadastradas no sistema ou que atuam na informalidade ignoram as regras.
  • Algumas gravações são feitas por empresas de fora do Brasil, fora do alcance da legislação nacional.

O código 0303: avanço com limitações

A Anatel também implementou em 2022 o código 0303, de uso obrigatório para ligações de telemarketing. A ideia era facilitar a identificação desse tipo de ligação, permitindo ao usuário bloquear diretamente esse número em seu aparelho.

Entretanto, apenas parte das ligações passa a usar o código. Empresas que atuam irregularmente ou com recursos tecnológicos mais avançados disfarçam os números, apresentando prefixos comuns e dificultando o reconhecimento automático.

Impactos das ligações indesejadas na vida do consumidor

Irritação, insegurança e perda de produtividade

Para o consumidor, o excesso de ligações representa não apenas um incômodo, mas também uma fonte de estresse e insegurança. Segundo levantamento da Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), 72% dos brasileiros dizem sentir irritação diária com ligações de números desconhecidos.

Além disso, há outros problemas associados:

  • Perda de tempo com chamadas constantes
  • Risco de golpes e fraudes, já que muitas ligações tentam extrair dados do usuário
  • Queda de produtividade para quem usa o telefone no ambiente de trabalho
  • Dificuldade de identificar chamadas importantes, como do banco ou plano de saúde

Telemarketing e golpes: onde termina a propaganda e começa o crime?

Nos últimos anos, tem crescido a preocupação com a utilização de robocalls como método de aplicação de golpes. Chamadas falsas com propostas de renegociação de dívidas, falsas promoções bancárias ou mensagens de voz fraudulentas têm sido cada vez mais frequentes.

A Polícia Federal e o Procon de vários estados investigam empresas de fachada que utilizam robôs para aplicar golpes, escondendo-se atrás da estrutura do telemarketing.

O que dizem as operadoras e empresas de call center

Posicionamento do setor

Entidades que representam empresas de call center afirmam que a maioria das ligações respeita as regras e que a prática do telemarketing é fundamental para o setor comercial e de serviços.

Entretanto, reconhecem que há empresas que abusam da tecnologia para realizar chamadas em massa, muitas vezes sem o consentimento dos consumidores.

O Sindicato Paulista das Empresas de Telemarketing divulgou nota afirmando que apoia medidas como o código 0303 e o “Não me perturbe”, mas cobra mais rigor contra práticas ilegais e regulamentação específica para robocalls.

Como se proteger de ligações indesejadas

Dicas para o consumidor

Embora o controle total ainda seja difícil, alguns passos podem ajudar o usuário a reduzir a incidência de ligações:

1. Cadastre-se no “Não me perturbe”

Acesse www.naomeperturbe.com.br e cadastre seus números para não receber chamadas de operadoras de telecomunicações.

2. Bloqueie números no celular

Utilize os recursos nativos do Android e iOS para bloquear chamadas indesejadas, ou aplicativos especializados como:

  • Truecaller
  • Hiya
  • Whoscall

3. Denuncie ao Procon e Anatel

Relate empresas que insistem em ligar, mesmo após os bloqueios, aos órgãos de defesa do consumidor.

4. Ative o modo “Não perturbe” do telefone

Nos horários mais sensíveis, como durante o trabalho ou à noite, o recurso pode impedir chamadas desconhecidas.

Medidas legislativas em discussão

Projeto de lei quer banir robocalls agressivas

Está em tramitação na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2284/2024, que prevê:

  • Multas de até R$ 1 milhão para empresas que desrespeitarem o “Não me perturbe”
  • Proibição de robocalls em massa sem consentimento prévio
  • Criação de um sistema de autenticação obrigatória de chamadas comerciais

Se aprovado, o texto pode representar um marco regulatório mais rigoroso contra abusos no setor de telemarketing.

Telemarketing: ferramenta útil ou problema crônico?

O papel do telemarketing na economia

Apesar das críticas, o telemarketing ainda é uma ferramenta legítima e amplamente utilizada por empresas para vender produtos, oferecer serviços e realizar cobranças.

Estima-se que o setor de call centers empregue mais de 1 milhão de pessoas no Brasil, com forte presença em cidades como São Paulo, Salvador, Recife e Belo Horizonte.

Por isso, especialistas alertam que é necessário encontrar um equilíbrio entre o uso responsável do canal e o combate ao abuso tecnológico e à prática ilegal.

Considerações finais

Mesmo com avanços como o código 0303, o sistema “Não me perturbe” e o bloqueio de números via apps e operadoras, as ligações de telemarketing ainda representam a maioria dos contatos telefônicos no Brasil.

Em 2025, a cada dez ligações, seis são desse tipo, muitas vezes disparadas por robôs que burlam os sistemas de proteção.

A expectativa de consumidores e autoridades é que a regulamentação continue evoluindo para garantir mais segurança, respeito e tranquilidade no uso das redes de telefonia.

Enquanto isso, a recomendação para o usuário é manter-se informado, denunciar abusos e utilizar todas as ferramentas disponíveis para minimizar os impactos das ligações indesejadas.