Em meio a uma crescente pressão fiscal e uma crise política provocada por denúncias de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o governo federal acelera a adoção de medidas para controlar os gastos públicos com benefícios assistenciais. A mais recente iniciativa mira diretamente nas decisões judiciais que, diariamente, garantem o acesso a auxílios sociais por meio de liminares.
CNJ deve decidir nos próximos dias sobre redução de pagamentos do BPC via Justiça, diz Fazenda
Governo aposta em resolução do CNJ para frear liminares do INSS e divulga calendário de restituição por descontos indevidos.
A expectativa da equipe econômica é que, já na próxima semana, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprove uma resolução que unifica os critérios de concessão de benefícios sociais entre o Judiciário e o Executivo. A medida é vista como uma tentativa de frear o avanço da chamada “indústria de liminares”, expressão usada com frequência pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
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O foco da nova resolução do CNJ
O Grupo de Trabalho criado no início de 2025 pela presidência do CNJ finalizou suas análises e recomenda a adoção de regras mais rígidas por parte do Poder Judiciário ao julgar ações relacionadas ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), entre outros benefícios assistenciais.
A ideia central é fazer com que os tribunais passem a utilizar os mesmos critérios técnicos e socioeconômicos que o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) já aplica na análise administrativa dos pedidos de benefício.
Como a medida pode afetar os beneficiários?
Se aprovada, a resolução do CNJ servirá como um parâmetro nacional para os tribunais, orientando os juízes a respeitarem as mesmas exigências de renda per capita, laudos médicos, perícias e demais requisitos que os cidadãos precisam cumprir ao solicitar o benefício junto ao INSS.
Especialistas acreditam que a medida pode provocar uma redução significativa no volume de novas liminares concedidas, o que representa, na prática, uma economia imediata para os cofres públicos.
O INSS no centro da crise
O INSS volta a ser protagonista de um dos maiores embates entre o Executivo e o Judiciário. Atualmente, o instituto é o maior litigante individual do país, acumulando mais de 4,2 milhões de processos judiciais.
Grande parte dessas ações tem como objetivo justamente o reconhecimento do direito a benefícios que foram negados administrativamente.
Segundo dados do próprio Judiciário, o ritmo de concessão de liminares em favor de beneficiários cresceu exponencialmente após a pandemia, agravando o déficit fiscal do governo federal.
Fraudes em descontos associativos ampliam a crise

Paralelamente ao debate sobre as liminares, o governo também tenta conter os danos provocados pela recente descoberta de um esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias e pensões, conhecidos como fraudes associativas no INSS.
A operação, que resultou no afastamento do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, trouxe à tona um esquema que pode ter lesado milhões de beneficiários entre 2019 e 2024, com desvios superiores a R$ 6,3 bilhões, segundo estimativas da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal.
Calendário de restituição será anunciado
Para tentar estancar a crise e dar uma resposta rápida à população, o governo confirmou que o INSS apresentará na próxima semana um calendário de restituição para os aposentados e pensionistas que foram vítimas dos descontos indevidos.
A devolução será feita em lotes quinzenais, com prioridade para os segurados que já haviam formalizado reclamações antes da investigação ganhar repercussão nacional.
Quem será restituído primeiro?
O critério de prioridade será o seguinte:
- Primeiro lote: Beneficiários que abriram reclamação junto ao INSS e cujos prazos para contestação das entidades já expiraram.
- Segundos lotes: Casos em que ainda há prazo para resposta das entidades, mas com indícios de irregularidade.
- Demais casos: Beneficiários que não abriram reclamação, mas que, segundo auditorias internas, foram vítimas de descontos sem autorização.
O governo pretende realizar os pagamentos fora da folha regular de benefícios, para agilizar o processo e evitar atrasos. A expectativa é que os primeiros ressarcimentos aconteçam ainda em julho de 2025.
Estratégia política para conter desgaste
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A ofensiva envolvendo o CNJ e o cronograma de restituição são vistas dentro do governo como tentativas claras de reverter a queda de popularidade do presidente Lula e minimizar os impactos políticos da crise.
Nas últimas semanas, a oposição no Congresso Nacional tem intensificado as críticas à gestão previdenciária, usando a crise no INSS como ponto central de discursos em plenário e nas redes sociais.
Além disso, especialistas apontam que a percepção pública de descontrole nos gastos com benefícios sociais pode afetar a confiança na condução da política fiscal, prejudicando ainda mais o ambiente político e econômico.
Impactos econômicos das decisões judiciais sobre benefícios
O aumento expressivo nas concessões judiciais de benefícios, principalmente do BPC, vem sendo apontado pela equipe econômica como um dos fatores que dificultam o cumprimento da meta fiscal.
O governo argumenta que, além do gasto direto com os novos benefícios, o volume de ações judiciais gera:
- Custos adicionais com pagamento de atrasados
- Honorários advocatícios
- Custos processuais
- Desgaste operacional no INSS
Segundo estimativas da Fazenda, o impacto financeiro das liminares supera R$ 10 bilhões por ano, valor que, se controlado, poderia ajudar a reduzir o déficit primário.
Próximos passos: decisão do CNJ e implementação das restituições

A reunião do plenário do CNJ que analisará a nova resolução está marcada para a próxima terça-feira (25/06/2025). Caso aprovada, a medida passará a ter efeito imediato, servindo como orientação oficial para todos os tribunais do país.
Ao mesmo tempo, o INSS trabalha para concluir a apuração dos casos de descontos indevidos e liberar o calendário detalhado das restituições, o que deve ocorrer até o final da próxima semana.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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