Lula oficializa decreto que regula a lei da reciprocidade comercial no Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva oficializou nesta terça-feira (15) a assinatura do decreto nº 12.551/25, que regulamenta a chamada lei da reciprocidade comercial. Publicada no Diário Oficial da União, a medida confere ao Brasil instrumentos para retaliar países ou blocos econômicos que imponham barreiras unilaterais às exportações brasileiras.
O ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, confirmou a assinatura do decreto durante entrevista coletiva no Palácio do Planalto. A norma regulamenta a Lei nº 15.122/25, sancionada em abril, e estabelece os mecanismos legais e institucionais para sua aplicação imediata.
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Entenda o que é a lei da reciprocidade comercial

O que diz a lei 15.122/25?
Aprovada pelo Congresso Nacional em março e sancionada por Lula em abril, a Lei nº 15.122/25 foi criada como resposta direta à intensificação da guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump. A lei autoriza o governo brasileiro a adotar contramedidas comerciais em defesa da competitividade nacional e da soberania do país.
De acordo com o texto da norma, o Brasil poderá aplicar restrições a importações de bens e serviços estrangeiros em caso de:
- Barreiras unilaterais que prejudiquem produtos brasileiros;
- Medidas que afetem a competitividade internacional brasileira;
- Ações que interfiram em decisões soberanas do Brasil.
Como será feita a aplicação da lei?
O artigo 3º da nova legislação confere à Camex (Câmara de Comércio Exterior), órgão vinculado ao Executivo, a competência para determinar essas restrições. No entanto, as medidas só podem ser aplicadas após esgotadas as tentativas de negociação diplomática.
O decreto 12.551/25 detalha os procedimentos operacionais e as competências de cada instância envolvida, incluindo a criação de comitês interministeriais e a escuta do setor produtivo.
A resposta brasileira ao tarifaço de Trump
O que motivou o decreto agora?
Embora o decreto não cite diretamente nenhum país, sua publicação ocorre poucos dias após o anúncio de uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras aos Estados Unidos. A medida foi comunicada oficialmente pelo presidente Donald Trump ao presidente Lula por meio de uma carta enviada em 9 de julho.
No documento, Trump expressa insatisfação com o Supremo Tribunal Federal brasileiro e acusa o órgão de censurar plataformas digitais norte-americanas. Ele também menciona desequilíbrios comerciais e barreiras do Brasil a produtos dos EUA como justificativas para a tarifa.
Impacto direto nas exportações brasileiras
A sobretaxa atinge em cheio setores estratégicos para o Brasil. O país é o terceiro maior exportador mundial de aço e alumínio para os Estados Unidos, setores que já haviam sido taxados em 25% anteriormente. Agora, a nova tarifa abrange todos os produtos, o que pode gerar perdas bilionárias em exportações e empregos.
Além disso, Trump ameaça abrir uma investigação formal com base na seção 301 do Código Comercial dos EUA — o mesmo instrumento jurídico utilizado durante a guerra comercial com a China no governo anterior.
Governo cria comitê para monitorar impactos e articular reações
Composição do grupo
Para lidar especificamente com as novas tarifas norte-americanas, o governo brasileiro instituiu um grupo interministerial de trabalho que reunirá representantes dos ministérios da Fazenda, Relações Exteriores, Desenvolvimento, Agricultura, Indústria e Comércio.
Também participarão representantes da indústria, do agronegócio e da Camex. A coordenação do grupo ficará sob responsabilidade do vice-presidente Geraldo Alckmin.
Primeiras ações
A primeira reunião do comitê está marcada para o dia 15 de julho e terá como objetivo avaliar os impactos diretos da tarifa de 50% e propor medidas de curto e médio prazo. Entre as possibilidades analisadas estão:
- Adoção imediata de medidas de reciprocidade previstas na nova lei;
- Revisão de barreiras técnicas impostas pelo Brasil a produtos norte-americanos;
- Solicitação de consultas formais na Organização Mundial do Comércio (OMC).
A tensão política entre Lula e Trump
Condicionantes para revisão da tarifa
Um embate que vai além da economia
A carta enviada por Donald Trump a Lula foi considerada polêmica também do ponto de vista diplomático. Nela, o ex-presidente dos EUA faz críticas severas ao STF e ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, classificando-o como uma “vergonha internacional”.
Além disso, Trump sugere que as decisões do Supremo brasileiro estariam interferindo na liberdade de expressão e prejudicando empresas norte-americanas — o que teria motivado a imposição da tarifa de retaliação.
Na mesma correspondência, Trump afirma que a tarifa poderá ser revista caso o Brasil elimine suas barreiras comerciais e abra mais o mercado interno a produtos norte-americanos. Ele ainda sugere que empresas brasileiras instaladas nos Estados Unidos poderiam ser poupadas da sobretaxa.
Especialistas consideram que a carta insere o Brasil num jogo geopolítico mais amplo e que a reciprocidade prevista na nova lei brasileira é uma ferramenta importante de equilíbrio nas relações comerciais e políticas internacionais.
Reações do setor produtivo e do Congresso
Indústria apoia decreto e cobra agilidade
Entidades como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) emitiram notas em apoio à regulamentação da lei da reciprocidade. Para o setor produtivo, o decreto chega em boa hora e demonstra disposição do governo brasileiro em proteger seus interesses.
Segundo nota da CNI, “é fundamental que o Brasil disponha de mecanismos ágeis para responder a medidas unilaterais que comprometam nossa competitividade”.
Parlamentares pedem firmeza diplomática
Líderes da base governista e da oposição se manifestaram no Congresso, pedindo firmeza nas negociações com os Estados Unidos. Para a senadora Leila Barros (PDT-DF), “o Brasil não pode se curvar diante de ameaças comerciais com motivações políticas”.
Já o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) alertou para os riscos de escalada nas tensões comerciais e pediu atuação prudente do Itamaraty.
Brasil entra em novo ciclo de defesa comercial ativa

A regulamentação da lei da reciprocidade marca uma mudança importante na postura brasileira diante de medidas protecionistas internacionais. Com o decreto, o Brasil se junta a outros países que já utilizam ferramentas de retaliação para preservar seus interesses no comércio global.
Especialistas avaliam que, embora tardia, a iniciativa coloca o país em condição de igualdade com parceiros que usam barreiras comerciais como instrumentos de pressão geopolítica.
Além disso, o decreto sinaliza ao mercado que o governo brasileiro está atento aos riscos da dependência externa e disposto a defender a soberania econômica do país.
Conclusão
A regulamentação da lei da reciprocidade comercial representa um passo decisivo do governo brasileiro na defesa de seus interesses econômicos diante de um cenário internacional cada vez mais instável. Ao criar mecanismos legais para reagir a barreiras unilaterais, o Brasil busca preservar sua competitividade, proteger setores estratégicos e afirmar sua soberania nas relações comerciais globais. A resposta ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos marca o início de uma nova postura: mais ativa, estratégica e alinhada com práticas adotadas por outras potências econômicas.