O ex-ministro da Previdência Social, Carlos Lupi (PDT), afirmou na segunda-feira (08) que o crime organizado conseguiu se infiltrar no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) “de fora para dentro”, contando com a ajuda de funcionários internos desde 2016. A declaração foi dada durante depoimento na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes de R$ 6,3 bilhões contra aposentados.
Segundo Lupi, ele desconhecia a existência de adesões em bloco, que incluíram milhões de beneficiários sem autorização, um dos principais pontos investigados atualmente pela CPMI.
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O ex-ministro relatou que, em maio de 2023, o INSS e a Polícia Federal realizaram uma reunião para apurar denúncias de fraudes previdenciárias. Lupi destacou que casos semelhantes já haviam sido levantados em anos anteriores, mas não prosperaram.
“Em 2016, a Polícia Federal recebeu denúncias de pessoas que trabalhavam dentro do INSS, abriu investigação e simplesmente arquivou o caso por decisão judicial”, afirmou.
Ele mencionou que, em 2020, novas acusações surgiram, mas novamente não avançaram devido a decisões da própria PF.
Crescimento dos descontos indevidos
A investigação ganhou força após a operação Sem Desconto, em abril de 2024, que revelou descontos indevidos em aposentadorias por meio de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs). Segundo auditoria da Controladoria Geral da União (CGU), os descontos ilegais afetaram cerca de 7 milhões de beneficiários, aumentando de R$ 387 milhões em 2015 para R$ 3,4 bilhões em 2024.
Lupi enfatizou a organização do crime:
“Infelizmente, o crime organizado tem esse nome por causa disso: eles se organizam”, disse ao relator Alfredo Gaspar (União-AL).
Adesões em bloco sem autorização
O ex-ministro também se posicionou a favor do fim dos descontos em folha, incluindo empréstimos consignados, que envolvem cerca de 16 milhões de contas e bilhões de reais. Ele elogiou o projeto que proíbe descontos associativos e ressaltou que não tinha conhecimento das adesões em massa que afetaram milhões de beneficiários.
Quando questionado sobre dados da CGU que indicam 39 operações com mais de 50 mil aposentados cada – sendo que 97,6% não autorizaram os descontos –, Lupi afirmou:
“Se eu tivesse sabido disso lá atrás, eu garanto ao senhor que não teria a continuidade do que ocorreu.”
Segundo ele, a real dimensão das fraudes só foi percebida após a operação da Polícia Federal em maio de 2025. Medidas corretivas começaram em março de 2023, após reuniões entre INSS e PF.
“Naquele momento, tínhamos apenas denúncias menores vindas da ouvidoria. Só depois, com a investigação da Polícia Federal, foi possível entender a dimensão do problema. Talvez minha maior falha tenha sido não dar dimensão ao tamanho do rombo que era isso”, admitiu.
Defesa de Lupi: ausência de má-fé
Imagem: rafastockbr / shutterstock.com
O relator da CPMI, Alfredo Gaspar, questionou Lupi sobre possíveis padrões em sua carreira, citando sua saída de dois ministérios em meio a escândalos – o do Trabalho (2007-2010) e o da Previdência (2023-2025 – por suposta omissão deliberada.
Lupi rejeitou a acusação:
“Não estou aqui para ser julgado. Errar é humano e posso ter errado muitas vezes, mas minhas falhas e defeitos jamais são de má-fé.”
Depoimentos de figuras-chave no esquema
A CPMI convocou peças centrais no esquema de descontos ilegais. Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, prestará depoimento em 15 de setembro. O empresário Maurício Camisotti, também investigado, será ouvido em 18 de setembro.
Lupi afirmou desconhecer ambos os investigados e garantiu que, ao tomar conhecimento das denúncias, conferiu sua agenda para verificar possíveis contatos prévios.
“Não conhecia o ‘Careca’ e assim que soube das denúncias, confirmei em minha agenda se houve qualquer encontro”, declarou.
Impactos e próximos passos
O depoimento de Lupi reforça a urgência em aprimorar mecanismos de fiscalização dentro do INSS, especialmente no controle de adesões em bloco e empréstimos consignados. Com bilhões de reais afetados e milhões de beneficiários prejudicados, a CPMI segue ouvindo testemunhas e aprofundando a investigação sobre a atuação do crime organizado no instituto.
A expectativa é que, com as próximas oitivas, seja possível detalhar a extensão das fraudes e identificar medidas para prevenir que novos esquemas se repitam, protegendo aposentados e pensionistas de abusos financeiros.
Imagem: Criada por IA / Edição Seu Crédito Digital
Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.