‘Manual do golpe’: professor explicava como enganar o INSS em sala de aula
A Polícia Federal (PF) desmantelou mais uma sofisticada organização criminosa responsável por fraudes milionárias contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Desta vez, o mentor da operação foi identificado como um professor que ensinava, em sala de aula, como burlar o sistema previdenciário brasileiro.
Conhecido como o “Rei do Benefício”, o acusado não apenas aplicava os golpes, como também repassava o conhecimento a comparsas, criando uma espécie de “manual do golpe”.
A operação da PF, batizada de Operação Fraus, revelou um rombo de R$ 30 milhões aos cofres públicos ao longo de mais de uma década de atuação fraudulenta.
O esquema, que operava principalmente no estado do Rio de Janeiro, teve impacto nacional e envolvia o uso da plataforma “Meu INSS” para cadastrar benefícios falsos.
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Estrutura do esquema criminoso
Uma rede organizada e conectada
As investigações apontam que a fraude não se restringia a ações isoladas. O grupo era altamente articulado, com divisão de tarefas e uso de tecnologia para enganar o sistema previdenciário. A organização contava com:
- Servidores públicos que acessavam dados confidenciais de contribuintes;
- Gerentes bancários que facilitavam a abertura de contas fraudulentas;
- Intermediários que realizavam os cadastros fictícios no sistema Meu INSS;
- E o próprio professor, que além de participar dos crimes, ensinava detalhadamente como executá-los.
Cadastros e contas falsas
A PF identificou que, apenas nos últimos seis meses, o grupo criminoso realizou 415 requerimentos falsos de benefícios. Isso gerou um prejuízo direto de R$ 1,6 milhão nesse curto período. O golpe envolvia simulações de aposentadorias, pensões por morte, auxílios-doença e outros benefícios.
Em muitos casos, os criminosos criavam identidades fictícias ou manipulavam dados de pessoas reais, especialmente idosos, para requerer benefícios.
Os valores eram então desviados para contas bancárias abertas com a conivência de gerentes, que cobravam uma espécie de “taxa de comissão” pelo serviço ilícito.
“Sala de aula do crime”: o papel do professor
Ensino sistemático da fraude
Segundo os investigadores, o líder do esquema utilizava seu conhecimento em legislação previdenciária para ministrar “aulas” sobre como driblar o sistema do INSS. Ele ensinava técnicas como:
- Alteração de documentos para simular tempo de contribuição;
- Uso de procurações falsas;
- Criação de perfis fraudulentos no aplicativo Meu INSS;
- Apresentação de atestados médicos e laudos falsificados.
Esse conteúdo era repassado a outros criminosos de forma sistemática, como se fosse um curso informal sobre fraudes previdenciárias. O professor se tornava assim uma espécie de “consultor criminal”, cobrando pelo conhecimento e participando da divisão dos lucros.
Operação Fraus: o cerco da Polícia Federal
Locais de ação
A Operação Fraus teve como foco diversas cidades do Rio de Janeiro, entre elas:
- Armação dos Búzios;
- Cabo Frio;
- São Gonçalo;
- Casimiro de Abreu.
Foram cumpridos diversos mandados de busca e apreensão, com foco em documentos, equipamentos eletrônicos e registros bancários. A PF também contou com o apoio do Ministério da Previdência Social e da Coordenação-Geral de Inteligência Previdenciária e Trabalhista (CGINT).
Crimes identificados
Os suspeitos devem responder por uma série de crimes, entre eles:
- Estelionato previdenciário;
- Corrupção ativa;
- Falsidade ideológica;
- Associação criminosa;
- Lavagem de dinheiro.
A depender do desenrolar das investigações, novas acusações podem surgir, especialmente com o cruzamento de dados entre os sistemas bancários e o INSS.
Outras operações expõem dimensão da fraude no INSS
Operações “Destinatário” e “Sem Desconto”
A ação mais recente não é um caso isolado. A PF já realizou, nos últimos anos, diversas outras operações que revelam a fragilidade do sistema frente a organizações criminosas. Entre elas, destacam-se:
Operação “Destinatário”
Essa operação expôs um esquema de reativação indevida de benefícios, especialmente pensões e aposentadorias cessadas por óbito. Estimativas apontam um prejuízo superior a R$ 3 bilhões.
Operação “Sem Desconto”
Focada em identificar transferências ilícitas de benefícios para contas de terceiros, a operação descobriu uma rede que desviava recursos sem o conhecimento dos beneficiários. O total de desvios identificados chegou a R$ 6,3 bilhões.
Impactos e respostas institucionais
Fragilidade do sistema Meu INSS
O uso indevido da plataforma Meu INSS evidencia lacunas na segurança e na verificação de identidade digital. Com apenas alguns dados pessoais e documentos falsos, criminosos conseguiam simular situações legítimas, enganando até mesmo os mecanismos automatizados de análise do INSS.
Medidas anunciadas
Com o aumento dos casos, o governo federal estuda a implementação de:
- Verificação biométrica obrigatória para saques e cadastros;
- Ampliação do cruzamento de dados entre INSS, Receita Federal e TSE;
- Monitoramento em tempo real de movimentações suspeitas nas contas bancárias dos beneficiários.
O Ministério da Previdência sinalizou que revisões sistemáticas dos benefícios concedidos nos últimos dez anos devem ser realizadas, com foco especial nas regiões com maior incidência de fraudes.
Como o cidadão pode se proteger
Dicas para aposentados e beneficiários
A população também pode agir para evitar ser vítima ou cúmplice involuntário de fraudes. Algumas ações recomendadas são:
- Verificar periodicamente o extrato de pagamento no Meu INSS;
- Evitar fornecer documentos pessoais a terceiros;
- Desconfiar de promessas de facilitação para conseguir benefícios;
- Denunciar tentativas de golpe à Ouvidoria do INSS ou pelo 135.
Além disso, o INSS mantém canais de comunicação para checagem de informações e atualização cadastral, o que ajuda a evitar que dados pessoais sejam utilizados sem consentimento.
Conclusão: um alerta sobre a indústria da fraude previdenciária
O caso do “professor do golpe” não é apenas mais um escândalo envolvendo o INSS. Ele revela uma estrutura criminosa organizada, com capacidade de infiltração em instituições públicas e privadas, e que se aproveita das fragilidades do sistema para enriquecer ilegalmente.
A atuação das autoridades, embora contundente, ainda precisa ser acompanhada de reformas tecnológicas, maior controle institucional e educação previdenciária para a população.
Do contrário, novos “manuais do golpe” continuarão sendo escritos, ameaçando a sustentabilidade de um dos principais pilares da seguridade social brasileira.
Imagem: Freepik / Edição: Seu Crédito Digital