O segundo trimestre de 2025 marcou um momento de virada para a Méliuz, empresa de tecnologia sediada em Belo Horizonte e avaliada em quase R$ 700 milhões. Depois de registrar um prejuízo de R$ 60 milhões no mesmo período de 2024, a companhia surpreendeu o mercado ao anunciar um lucro líquido de R$ 7,6 milhões.
Empresa de Belo Horizonte lucra milhões com Bitcoin: Estratégia visionária ou risco elevado?
A Méliuz reverteu um prejuízo milionário e lucrou R$ 7,6 milhões no 2º trimestre de 2025, impulsionada por valorização de bitcoin. Entenda a estratégia.
O detalhe mais chamativo do balanço? Um salto de R$ 30 milhões na valorização de seus investimentos em bitcoin (BTC), resultado de um rendimento impressionante de 908% apenas entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano.
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Historicamente, alocar parte da tesouraria corporativa em bitcoin não era uma prática comum no mercado brasileiro. Mas, segundo Paula Zogbi, estrategista-chefe da fintech Nomad, essa realidade começa a mudar, sobretudo entre empresas de tecnologia e do setor financeiro.
Empresas como Mercado Livre, Tesla e MicroStrategy já se tornaram referência global nesse tipo de operação. Agora, a Méliuz se junta a um seleto grupo nacional que aposta nas criptomoedas como forma de diversificação e potencial ganho de capital.
Um mercado que já movimenta bilhões
Segundo Zogbi, hoje mais de 950 mil bitcoins estão alocados em tesourarias de empresas ao redor do mundo, representando mais de US$ 110 bilhões em valor de mercado.
A expectativa é que esse número cresça à medida que a regulamentação avance e instrumentos como ETFs de bitcoin se tornem mais acessíveis para investidores institucionais.
Lucro Operacional x Lucro com Cripto: Entendendo o Caso Méliuz

O papel da valorização do bitcoin no resultado
O professor de Finanças do Ibmec-SP, Cristiano Corrêa, destaca que a melhora no balanço da Méliuz não significa, necessariamente, um avanço operacional significativo.
“Não é porque a empresa lançou um novo negócio ou otimizou operações. Esse lucro é um reflexo direto da valorização do ativo”, explica Corrêa.
Quando o bitcoin sobe, o valor contabilizado desses ativos também aumenta, impactando diretamente o resultado financeiro. É uma relação contábil legítima, mas que depende fortemente de um fator externo: a cotação de mercado do BTC.
O lado brilhante: Potenciais vantagens de manter Bitcoin na tesouraria
Diversificação do caixa
Para empresas com excedente de caixa, alocar parte dos recursos em bitcoin pode ser uma forma de diversificar investimentos, reduzindo a exposição exclusiva a instrumentos tradicionais como CDBs, títulos públicos ou aplicações de baixo rendimento.
Potencial de valorização
O bitcoin é, historicamente, um dos ativos que mais se valorizaram na última década. Empresas que entraram cedo, como a MicroStrategy, viram seus balanços serem impulsionados por lucros expressivos.
Marketing e posicionamento
Adotar bitcoin como ativo estratégico também pode ter um efeito positivo sobre a imagem da marca, associando-a a inovação e modernidade, o que pode atrair investidores e clientes ligados ao universo digital.
O lado sombrio: Riscos e volatilidade do Bitcoin para empresas
Oscilações bruscas de preço
Apesar do momento positivo, o bitcoin continua sendo extremamente volátil. Mudanças de dois dígitos em poucos dias não são incomuns e podem transformar um trimestre lucrativo em prejuízo rapidamente.
Risco de custódia
O armazenamento seguro de grandes quantidades de bitcoin exige soluções de custódia robustas. Ataques cibernéticos, roubos e falhas humanas podem resultar em perdas irreversíveis.
Risco regulatório
A regulamentação das criptomoedas ainda está em evolução no Brasil e no mundo. Alterações nas regras podem impactar a tributação, a forma de contabilizar e até a permissão para determinadas operações corporativas.
Ausência de lastro
Diferente de moedas fiduciárias ou ativos atrelados a commodities, o bitcoin não possui um lastro físico ou governamental. Seu preço depende exclusivamente da dinâmica entre oferta e demanda.
Estratégia correta para empresas que querem apostar em Bitcoin
Definir percentual máximo de exposição
Especialistas recomendam que a alocação em criptomoedas seja limitada a uma fração do caixa da empresa, geralmente entre 1% e 5%, dependendo do apetite ao risco.
Planejamento de compra e venda
Não basta comprar e esperar. É necessário ter critérios claros de entrada e saída, além de mecanismos de proteção como stop-loss para limitar perdas.
Escolha criteriosa da custódia
Optar por instituições financeiras confiáveis, com histórico sólido de segurança, é fundamental para minimizar riscos operacionais.
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Uso de hedge
Operações com derivativos podem ajudar a proteger a posição da empresa contra oscilações bruscas de preço, embora aumentem a complexidade e os custos.
O caso Méliuz no contexto internacional
MicroStrategy: O pioneiro corporativo
A empresa de software americana transformou sua estratégia de tesouraria para acumular bilhões em bitcoin, tornando-se uma referência mundial no assunto.
Tesla: O exemplo de alta visibilidade
Quando Elon Musk anunciou que a Tesla havia comprado bitcoin e aceitaria o ativo como pagamento, o mercado global reagiu imediatamente, impulsionando o preço do BTC.
Mercado Livre: A ponte latino-americana
O gigante do e-commerce latino-americano também incluiu bitcoin em seu balanço, sinalizando confiança no potencial de longo prazo das criptomoedas.
Méliuz e o futuro: O que esperar?
Impacto no preço das ações
Se o bitcoin continuar valorizando, é provável que os resultados financeiros da Méliuz sigam beneficiados. Contudo, quedas acentuadas no ativo podem ter o efeito inverso.
Possível efeito dominó no Brasil
O caso da Méliuz pode inspirar outras empresas brasileiras, especialmente startups e fintechs, a considerar criptomoedas como parte de sua estratégia de tesouraria.
Sustentabilidade da estratégia
O desafio será manter o equilíbrio entre ganhos financeiros vindos de ativos voláteis e o crescimento operacional orgânico da companhia.
Conclusão: Uma aposta calculada ou um jogo de alto risco?

O movimento da Méliuz representa uma aposta ousada e, até certo ponto, visionária. A empresa conseguiu transformar um prejuízo milionário em lucro, impulsionada pela valorização expressiva do bitcoin.
Entretanto, como ressaltam os especialistas, essa estratégia está longe de ser isenta de riscos. A volatilidade, o cenário regulatório incerto e os desafios de segurança são obstáculos que não podem ser ignorados.
Se a tendência de adoção corporativa continuar crescendo, o Brasil poderá ver mais empresas seguindo esse caminho — mas sempre com a consciência de que, no mundo cripto, o céu pode ser o limite, mas o chão também está logo ali.
