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Zumbido de minas de Bitcoin testa lealdade de redutos pró-Trump nos EUA

Mineração de Bitcoin gera ruído incômodo e divide redutos conservadores nos EUA. Lealdade a Trump é posta à prova.

Tainara FerreiraPor Tainara Ferreira6 min de leitura
Bitcoin

Em Dresden, uma vila com menos de 300 habitantes no interior do Estado de Nova York, o som relaxante da natureza — o canto de pássaros e o farfalhar de folhas — foi substituído, nos últimos anos, por um barulho constante e metálico.

Não se trata de tráfego ou construção: o som vem de uma usina de energia revivida para um novo propósito — minerar Bitcoin.

A instalação da Greenidge Generation, que antes operava com carvão, agora funciona com gás natural e hospeda milhares de computadores trabalhando incessantemente para minerar criptomoedas. Junto com o calor gerado por esses equipamentos, vêm os ventiladores industriais responsáveis pelo som descrito por moradores como um “zumbido mecânico interminável”.

“É como se um avião estivesse parado no seu quintal o dia inteiro”, resume Lori Fishline, moradora local.

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Ruído, Política e Criptomoedas: Um coquetel explosivo

Ironia das ironias, muitas das comunidades mais afetadas pela expansão da mineração de Bitcoin são redutos tradicionais do Partido Republicano — o mesmo que, sob a liderança de Donald Trump, abraçou abertamente a indústria cripto.

Trump, que já chamou o Bitcoin de “fraude” em 2019, mudou radicalmente sua postura desde então. Em junho de 2024, declarou que deseja fazer dos Estados Unidos a “capital mundial da mineração de criptomoedas”, incentivando empresas do setor a se instalarem em solo americano.

Essa mudança política, no entanto, tem gerado tensões inesperadas dentro de sua própria base eleitoral.

“Votei em Trump, mas agora tenho dúvidas. Este barulho constante mudou a vida aqui”, desabafa Ellen Campbell, moradora às margens do Lago Seneca.

O som do Bitcoin: Um barulho que não se cala

A principal fonte de revolta dos moradores não é apenas o uso intensivo de energia ou os potenciais impactos ambientais da mineração, mas sim o barulho incessante.

Instalações como a Greenidge utilizam sistemas de resfriamento para impedir o superaquecimento dos computadores, e esses ventiladores industriais são responsáveis pelo ruído contínuo que ecoa por vários quilômetros.

“Antes, sentávamos à beira do lago e ouvíamos o som da água. Agora, ouvimos o som de lucros sendo minerados”, ironiza Campbell.

A explosão da mineração de Bitcoin nos EUA

Mineração de Bitcoin
Imagem: Acervo do Unsplash (Creative Commons)

Desde que a China baniu a mineração de Bitcoin em 2021, os Estados Unidos rapidamente se tornaram o maior polo global da atividade. Estimativas recentes apontam que até 40% de todo o Bitcoin no mundo hoje é minerado nos EUA, segundo dados do Centro de Finanças Alternativas da Universidade de Cambridge.

Com eletricidade mais barata em áreas rurais e menos regulamentações em alguns estados, a mineração encontrou nos EUA um novo paraíso.

Hoje, existem pelo menos 137 minas de Bitcoin espalhadas por 21 estados americanos, e o número está em crescimento. A Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA) calcula que a mineração já consome até 2,3% da eletricidade do país — o equivalente ao gasto de milhões de residências.

Ruído, reações e restrições locais

A cerca de 160 km de Dresden, em Niagara Falls, o barulho das mineradoras foi tão intenso que rivalizou com o som das próprias cataratas.

Em resposta, o prefeito local, Robert Restaino, impôs uma moratória contra novas operações de mineração em dezembro de 2021. No ano seguinte, introduziu limites rigorosos de ruído, restringindo emissões sonoras a 40–50 decibéis em áreas residenciais.

“Nada que já vimos antes se compara à poluição sonora causada por essas instalações”, afirmou Restaino.

Texas: Barreira sonora gigante para conter mineração

Em Granbury, Texas, outra comunidade majoritariamente conservadora foi forçada a erguer uma barreira acústica de mais de 7 metros de altura para isolar uma operação de mineração. Os moradores alegaram que o barulho provocava insônia, enxaquecas e perda de qualidade de vida.

Dresden e o Litígio com o Estado de Nova York

A Greenidge Generation está atualmente envolvida em uma disputa judicial com autoridades ambientais do Estado de Nova York, que questionam a legalidade da operação da usina sob regulamentos que anteriormente permitiam a queima de carvão.

“O clima mudou. E não falo só do tempo, mas do ambiente social e político em nossa comunidade”, afirma Abi Buddington, líder local contra a expansão da mineração.

Enquanto o caso está em julgamento, a usina continua operando — e minerando. Segundo informações públicas, são gerados entre 40 e 120 Bitcoins por mês, o que, com os preços atuais, pode representar milhões de dólares em receita mensal.

Os bastidores empresariais da família Trump

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Imagem: Joseph Sohm / shutterstock

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A guinada pró-criptomoedas de Donald Trump não veio do nada. Nos bastidores, seus filhos Eric e Donald Jr. estão envolvidos na American Bitcoin, uma empresa que pretende abrir capital na Nasdaq e se tornar uma das maiores mineradoras do mundo.

Além disso, a família criou a World Liberty Financial, voltada para soluções cripto. Trump também lançou sua própria criptomoeda, $TRUMP, que premia seus apoiadores mais fiéis com jantares exclusivos — como o que ocorreu em 22 de maio de 2025 com 220 compradores de destaque.

Impacto ambiental: O elefante na sala

Embora a Greenidge afirme operar com gás natural — considerado mais limpo que o carvão — ambientalistas locais alertam que ainda há emissões significativas de carbono e impactos negativos no ecossistema local.

Além disso, especialistas questionam se é justificável consumir tanta energia apenas para validar transações financeiras e obter recompensas em criptomoedas.

“Estamos queimando combustíveis fósseis para gerar uma moeda digital que não é usada localmente. Isso é racional?”, questiona Buddington.

O futuro da mineração de Bitcoin nos EUA: Avanço ou retrocesso?

A oposição crescente à mineração em redutos conservadores representa um desafio político significativo para Donald Trump. Sua proposta de tornar os EUA uma superpotência cripto pode colidir com os valores de comunidades que priorizam paz, natureza e qualidade de vida.

“O Partido Republicano sempre se apresentou como defensor da vida rural americana. Agora, está defendendo o barulho e a poluição em nome do lucro digital?”, critica um morador que preferiu não se identificar.

A próxima frente de batalha: Políticas estaduais

Enquanto o governo federal acena positivamente para a mineração, estados como Nova York estão dispostos a lutar contra os efeitos colaterais do setor. Leis ambientais mais rígidas, limites de ruído e moratórias municipais são apenas o começo de uma tendência que pode crescer à medida que mais comunidades sejam impactadas.

Considerações finais: O preço do Bitcoin é mais do que financeiro

O caso de Dresden não é isolado. À medida que a mineração de Bitcoin se expande em território norte-americano, as fraturas sociais, ambientais e políticas se tornam mais evidentes.

A promessa de desenvolvimento econômico trazida pela indústria cripto pode vir acompanhada de custos elevados — não apenas no consumo de energia, mas na qualidade de vida das comunidades locais.

O grande desafio será equilibrar inovação e sustentabilidade, crescimento econômico e bem-estar social — uma equação que nem mesmo os mineradores mais eficientes conseguiram resolver até agora.

Tainara Ferreira

Autor

Tainara Ferreira

Tainara Ferreira atua como redatora no portal Seu Crédito Digital, contribuindo com pautas que facilitam o entendimento de políticas públicas, programas sociais, economia do dia a dia e direitos dos cidadãos. Com olhar atento aos temas que impactam diretamente a vida da população brasileira, tem como missão traduzir informações complexas em conteúdos claros, úteis e acessíveis.

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