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De cúmplice a vítima: Mirelis quebra o silêncio e rompe com o “Faraó do Bitcoin”

Mirelis Yoseline Dias Zerpa, ex-cônjuge de Glaidson Acácio dos Santos — amplamente conhecido como o “Faraó do Bitcoin” — rompeu politicamente com o ex-parceiro. De acordo com as declarações oficiais de sua defesa, ela foi “vítima de uma relação abusiva” e não mantém nenhum vínculo com o empresário desde muito antes da deflagração da Operação Kryptos.

A estratégia jurídica mudou e agora ela busca apresentar-se como meramente técnica na operação da GAS Consultoria, contestando acusações de comando e reivindicando a possibilidade de responder em liberdade.

Desde que foi extraditada dos Estados Unidos ao Brasil, Mirelis está detida no Complexo Penitenciário de Bangu, no Rio de Janeiro. Ela é ré em ação penal marcada por acusação de crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e operação de instituição financeira sem autorização. Sua defesa protocolou pedido de Habeas Corpus junto à 3ª Vara Federal Criminal do Rio.

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Desfazer aliança para advogar isoladamente

Ciro Chagas, advogado de Mirelis, afirma que o casal judicialmente não possui mais qualquer relação afetiva ou pessoal desde antes do processo penal começar. O ex-relacionamento, segundo a defesa, não influencia mais as estratégias judiciais.

Alegação de violência psicológica e dependência financeira

A defesa sustenta que Mirelis sofreu uma relação abusiva de longa duração, e que o término do casamento ocorreu antes de Glaidson e demais da GAS serem oficialmente denunciados. Essa nova percepção justifica liberdade de atuação da defesa em separado.

Habeas Corpus como vetor da nova defesa

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Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

Argumentos para responder ao processo em liberdade

A petição sustenta que Mirelis sempre cooperou com as investigações, compareceu aos atos judiciais e não representa risco à ordem processual. Portanto, seria possível responder ao processo em liberdade, sem prejudicar o andamento das ações.

Irregularidades na extradição

A defesa questiona o processo de extradição da Venezuela para o Brasil, alegando que Mirelis não possui cidadania brasileira nem visto de residência. O pedido será avaliado em contextos de tratados internacionais e garantias fundamentais.

Tese: Mirelis não comandava a GAS Consultoria

Funcionária técnica sem poder decisório

A defesa defende que Mirelis operava como técnica na coordenação de carteiras de investimentos, mas não exercia decisão administrativa ou comando central nas supostas fraudes. A responsabilidade operacional teria sido exclusiva de Glaidson.

Confirmação em depoimento da CPI

Em audiência na CPI das Pirâmides Financeiras, Glaidson admitiu ser o único responsável pelas escolhas estratégicas da GAS, corroborando a tese da defesa de que Mirelis não exercia liderança.

Acusações e contexto da Operação Kryptos

O esquema da GAS Consultoria

A GAS Consultoria operou sob o comando de Glaidson entre 2015 e 2021, prometendo retornos mensais fixos de aproximadamente 10% e movimentando cerca de R$ 38 bilhões de investidores. A operação foi classificada como pirâmide financeira pelo Ministério Público Federal e pela CVM.

Relevância da cidadania de Mirelis

Mirelis é venezuelana e foi presa nos EUA em 2024, em cooperação entre a Polícia Federal brasileira e autoridades norte-americanas. Sua detenção ocorreu por permanência ilegal nos EUA e pela existência de mandado de prisão brasileiro. Posteriormente, ela foi deportada ao Brasil.

Controle das carteiras e movimentações financeiras sob investigação

Defesa nega acesso a saldos expressivos

A defesa afirma que Mirelis não possui controle ou acesso atual às carteiras de blockchain com valores significativos da GAS, contrariando suspeitas de envolvimento direto com movimentações de bilhões em criptomoedas.

Supostos saques destinados a clientes

Em depoimentos anteriores, a defesa afirmou que aproximadamente R$ 1 bilhão foi movimentado por Mirelis para pagamento de credores da GAS, com a alegação de tentativa de legítima liquidação de obrigações.

Defesa técnica versus narrativa de golpe

Arbitragem legítima ou fraude organizada?

A defesa alega que o modelo original da GAS permitia operações de arbitragem e trades legítimos no mercado de criptomoedas, sem caráter criminoso. Classificam como precipitadas acusações sem análise técnica aprofundada, entre os réus.

Ausência de prejuízo imediato em massa

De acordo com a defesa, a estrutura da operação e os resultados com clientes não evidenciam dano imediato em massa, como se esperaria em um esquema fraudulento clássico.

Contexto judicial e administrativa

Bloqueios judiciais e falência da GAS

A GAS Consultoria teve sua falência decretada em maio de 2025 e bens bloqueados judicialmente até R$ 17 bilhões visando ressarcir investidores lesados em ações coletivas.

Acusação da CVM

Em processo sancionador, a CVM acusou Glaidson e Mirelis pela operação irregular de instituição financeira, emissão de valores mobiliários sem registro e participação em organização criminosa. Os envolvidos movimentaram bilhões entre 2015 e 2021.

Relações passadas e denúncia pública

Origem da relação e conflito religioso

O relacionamento entre Glaidson e Mirelis começou em 2012, na Venezuela. Segundo relato de Mirelis, o casal sofreu preconceito racial dentro da Igreja Universal, o que teria motivado o afastamento da instituição religiosa.

Acusações contra a Igreja

Em vídeos públicos, Mirelis alegou que a Universal e seu dirigente Edir Macedo teriam atuado para sabotar sua prosperidade, além de tentar desacreditar sua trajetória pessoal e a da GAS.

Próximas etapas do processo e prazo estimado

Data de julgamento ainda indefinida

A defesa informa que ainda não há data definida para o julgamento em primeira instância, mas acredita que a sentença poderá ser proferida ainda neste ano.

Desdobramentos potenciais

Dependendo da decisão sobre o habeas corpus e da condução do processo técnico, o caso poderá evoluir para recursos mais amplos, inclusive com questionamentos sobre sua própria extradição e soberania de jurisdições internacionais.

Considerações finais

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Reprodução: Seu Crédito Digital/Freepik

A nova estratégia de defesa de Mirelis Zerpa ­— romper completamente com Glaidson e se apresentar como coadjuvante técnico — representa um divisor de águas no caso da GAS Consultoria.

Ao buscar habeas corpus e contestar a narrativa da pirâmide clássica, a defesa aposta em demonstrar que ela não exercia comando decisório e que, apesar de envolvida tecnicamente, jamais participou de fraudes organizadas.

O processo ainda está em curso e será decisivo na definição dos papeis de liderança dentro do esquema. Com a possibilidade de responder em liberdade e a reorientação da narrativa em torno de abuso e falta de autoridade, o caso de Mirelis mostra como dinâmicas pessoais e jurídicas podem exigir estratégias independentes mesmo dentro do mesmo processo penal.