Montadoras enviam recado a Lula: demissões podem ocorrer com pacote pró-China

As quatro maiores montadoras que operam no Brasil — Volkswagen, Toyota, General Motors e Stellantis — manifestaram profunda preocupação com o impacto de uma medida em análise pelo governo federal que visa incentivar a importação de veículos no sistema SKD (Semi Knocked Down).

Por meio de uma carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 15 de junho de 2025, as empresas alertam para os riscos de demissões em massa e redução dos investimentos no setor automotivo brasileiro, mas até o momento não obtiveram resposta.

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Sistema SKD e a polêmica da produção estrangeira

Montadoras durante a fabricação de carros com robôs na linhas de produção
Montadoras- durante a fabricação de carros -com robôs na linhas de produção

O sistema SKD é um modelo de produção no qual as peças e componentes dos veículos são fabricados integralmente no exterior e enviados desmontados para montagem final no país de destino.

No Brasil, a adoção desse modelo em larga escala é vista com reservas pelas montadoras tradicionais, pois reduz drasticamente a participação da indústria local, impactando diretamente a geração de empregos e a cadeia de fornecedores nacionais.

O incentivo às montadoras chinesas

Segundo apurado, o governo Lula, sob coordenação do ministro da Casa Civil, Rui Costa, planeja editar uma norma que beneficiaria especialmente as montadoras chinesas, como a BYD, cuja operação na Bahia — estado governado por Rui Costa até recentemente — estaria diretamente favorecida. Essa medida reduziria impostos de importação para kits SKD e CKD (Completely Knocked Down), de 18% e 20% para níveis entre 5% e 10%, no caso de carros elétricos e híbridos.

Impactos econômicos e sociais previstos

Na carta encaminhada ao Palácio do Planalto, os presidentes das quatro montadoras brasileiras destacam que o pacote poderá resultar em uma redução de investimentos de cerca de R$ 60 bilhões do total anunciado, que já somava R$ 180 bilhões para o período de cinco anos. Além disso, as demissões podem chegar a 15 mil trabalhadores, somando 5 mil cortes diretos e 10 mil vagas que deixariam de ser abertas.

Efeito multiplicador na cadeia produtiva

A carta ressalta que os efeitos negativos vão muito além das fábricas das montadoras. Para cada emprego perdido diretamente nessas empresas, outros 10 podem ser impactados na rede de fornecedores de autopeças e componentes, o que pode resultar em uma perda total de até 50 mil empregos em toda a cadeia automotiva.

“Essa prática deletéria pode disseminar-se em toda a indústria, afetando diretamente a demanda de autopeças e de mão de obra”, afirmam os executivos na correspondência.

Reivindicações das montadoras

Os líderes da Volkswagen, Toyota, Stellantis e General Motors pedem que a política industrial brasileira privilegie a produção local, eliminando privilégios que beneficiem a importação de veículos desmontados ou fabricados integralmente no exterior com subsídios fiscais.

Carta sem resposta do governo

Apesar do teor crítico e do potencial impacto da medida, até o momento não houve retorno oficial do presidente Lula, do ministro Rui Costa, nem do vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, aos pleitos enviados pelas montadoras.

Reação da indústria de autopeças

Na esteira da carta das montadoras, as entidades Abipeças (Associação Brasileira da Indústria de Autopeças) e Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) também enviaram correspondência ao governo no dia 28 de julho de 2025, manifestando veemente oposição à proposta de redução das alíquotas para importação de veículos SKD e CKD.

Consequências para o setor de autopeças

As associações alertam que a medida acarretaria uma “concorrência inusitada” com a indústria nacional, resultando em renúncia fiscal injustificada e queda na produção local, o que inviabilizaria investimentos futuros e aumentaria o desemprego.

“A combinação nefasta desses fatores irá, inquestionavelmente, provocar queda de produção e perda de empregos para a indústria brasileira de autopeças, além de inevitável revisão dos investimentos anunciados por montadoras e por nosso setor”, aponta o documento enviado ao governo.

Próximos passos no governo

O Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), que reúne representantes de 11 ministérios, agendou reunião extraordinária para 30 de julho de 2025 para deliberar sobre os pedidos da BYD referentes à redução dos impostos para os kits SKD e CKD. O encontro será decisivo para definir os rumos da política industrial automotiva para os próximos anos.

Imagem: Jenson / shutterstock.com