O Brasil convive há décadas com profundas desigualdades regionais, mas poucos estudos conseguem traduzir esse cenário de forma tão objetiva quanto o Índice de Progresso Social (IPS) 2025. Elaborado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o levantamento analisou 57 indicadores ligados à saúde, educação, saneamento, segurança, direitos individuais e meio ambiente, oferecendo um retrato direto das condições de vida da população em cada município brasileiro.
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IPS 2025 revela os municípios com piores indicadores sociais do Brasil e expõe falhas históricas do poder público.
A pontuação do IPS varia de 0 a 100 e considera exclusivamente resultados concretos percebidos no cotidiano das pessoas. Diferentemente de outros rankings, o índice não avalia promessas de campanha, volume de investimentos públicos ou crescimento econômico isolado. O foco está nos efeitos reais das políticas públicas — ou da ausência delas — sobre a qualidade de vida da população.
Segundo o Imazon, o IPS funciona como um verdadeiro “mapa de urgências”, ao identificar regiões onde a presença do Estado é frágil e onde políticas emergenciais precisam ser priorizadas. O estudo também reforça uma constatação importante: desenvolvimento econômico, por si só, não garante bem-estar social. Municípios pequenos, com gestão eficiente, podem apresentar indicadores melhores do que cidades mais ricas, mas mal administradas.
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Como funciona o Índice de Progresso Social
O IPS é construído a partir de três grandes dimensões que refletem diferentes aspectos da vida em sociedade. Cada uma delas é composta por indicadores específicos que ajudam a medir o grau de desenvolvimento social dos municípios.
Necessidades humanas básicas
Essa dimensão avalia se a população tem acesso ao mínimo necessário para viver com dignidade. Entram nesse grupo indicadores como acesso à água potável, saneamento básico, moradia adequada, segurança pessoal e alimentação.
Fundamentos do bem-estar
Aqui são considerados fatores que permitem às pessoas melhorar suas condições de vida ao longo do tempo. Educação básica, acesso à informação, saúde preventiva e qualidade ambiental fazem parte dessa análise.
Oportunidades
A terceira dimensão mede se os cidadãos têm chances reais de desenvolver seu potencial. Direitos individuais, inclusão social, acesso ao ensino superior e liberdade de escolha são alguns dos pontos avaliados.
A combinação dessas três frentes permite uma leitura ampla e objetiva da realidade social brasileira.
Municípios com os piores índices do Brasil em 2025
O ranking de 2025 evidencia que a maior parte dos municípios com piores pontuações está concentrada na Amazônia Legal, especialmente nos estados de Roraima e Pará. Nessas regiões, fatores como isolamento geográfico, conflitos fundiários, degradação ambiental e ausência histórica do poder público se combinam, agravando a exclusão social.
Uiramutã (RR)
Localizado no extremo norte do país, na fronteira com a Venezuela, Uiramutã ocupa a última posição do ranking nacional. O município enfrenta isolamento geográfico severo, o que dificulta o acesso a serviços básicos.
A economia local é baseada majoritariamente na subsistência, com poucas oportunidades de geração de renda. A população convive com carência extrema de serviços essenciais, como saúde, educação e saneamento, o que impacta diretamente a qualidade de vida.
Alto Alegre (RR)
Na segunda colocação entre os piores índices, Alto Alegre apresenta déficits profundos em saúde e saneamento básico. O município também é marcado por conflitos em áreas indígenas, pressão ambiental constante e dificuldades históricas na oferta de serviços públicos.
Esses fatores contribuem para um cenário de instabilidade social e baixo desenvolvimento humano.
Trairão (PA)
Trairão aparece em terceiro lugar no ranking negativo. O município é marcado por criminalidade rural e crimes ambientais, especialmente ligados à exploração ilegal de madeira.
Além disso, a população enfrenta fornecimento instável de energia elétrica, infraestrutura urbana limitada e dificuldades de acesso a serviços públicos, o que compromete o bem-estar coletivo.
Bannach (PA)
Com uma das menores populações do Brasil, Bannach ocupa a quarta posição entre os municípios com pior desempenho no IPS 2025. A cidade sofre com a ausência quase total de investimentos básicos.
Os serviços de saúde e educação são considerados extremamente precários ou, em alguns casos, praticamente inexistentes, o que limita qualquer perspectiva de desenvolvimento social.
Jacareacanga (PA)
Na quinta colocação está Jacareacanga, fortemente impactada pela presença de garimpos ilegais. A atividade provoca degradação ambiental intensa e alimenta episódios frequentes de violência.
Os serviços públicos disponíveis são insuficientes para atender às necessidades básicas da população, agravando a sensação de abandono institucional.
Cumaru do Norte (PA)
Cumaru do Norte aparece em sexto lugar no ranking. O município enfrenta disputas por terra, irregularidades fundiárias e uma economia pouco diversificada.
A forte dependência da pecuária limita o desenvolvimento local e contribui para desigualdades sociais persistentes.
Pacajá (PA)
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Em sétimo lugar, Pacajá convive com altos índices de violência urbana e rural. A falta de saneamento básico, a estrutura educacional insuficiente e a grande incidência de crimes ambientais formam um cenário de múltiplas vulnerabilidades.
Uruará (PA)
Uruará ocupa a oitava posição entre os piores índices. O município registra altas taxas de desmatamento, conflitos fundiários frequentes e escassez de serviços básicos.
Além disso, há dificuldades significativas para impulsionar a economia agrícola de forma sustentável, o que afeta a geração de renda.
Portel (PA)
Na nona colocação está Portel, município de difícil acesso, fortemente dependente do transporte fluvial. A precariedade nos serviços de saúde e educação se soma à baixa oferta de oportunidades econômicas.
O isolamento geográfico contribui para o encarecimento de serviços e limita o acesso da população a políticas públicas.
Bonfim (RR)
Fechando a lista, Bonfim enfrenta fragilidade econômica, infraestrutura urbana deficiente e forte dependência de repasses federais.
Localizada na fronteira com a Guiana, a cidade também sofre com limitações no acesso a serviços públicos essenciais, o que compromete o desenvolvimento social.
Desigualdade territorial como desafio estrutural
O IPS 2025 reforça que a desigualdade no Brasil não é apenas social ou econômica, mas profundamente territorial. Regiões inteiras permanecem à margem do desenvolvimento, enquanto outras avançam de forma mais consistente.
Segundo o Imazon, a ausência do Estado nessas áreas caminha lado a lado com violência, degradação ambiental e exclusão social. Sem políticas públicas contínuas e integradas, o ciclo de precariedade tende a se perpetuar.
A importância de políticas públicas de longo prazo
O relatório destaca a necessidade de ações estruturais, especialmente na Amazônia Legal. Investimentos pontuais não são suficientes para reverter décadas de abandono. É fundamental apostar em políticas públicas de longo prazo, que integrem saúde, educação, infraestrutura, proteção ambiental e desenvolvimento econômico sustentável.
O IPS 2025 não apenas expõe os problemas, mas oferece um diagnóstico claro para orientar decisões governamentais e sociais. O desafio agora é transformar esse retrato em ações concretas que reduzam desigualdades e ampliem oportunidades em todo o território nacional.
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Imagem: Reprodução
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