A Netflix, uma das maiores empresas de streaming do mundo, admitiu oficialmente o uso de inteligência artificial (IA) generativa em uma de suas produções originais.
A declaração foi dada por Ted Sarandos, copresidente-executivo da plataforma, durante a divulgação dos resultados financeiros do segundo trimestre de 2025. A série em questão é “O Eternauta”, uma adaptação argentina baseada em uma das histórias em quadrinhos mais influentes da América Latina.
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O anúncio da Netflix reacendeu um dos debates mais polêmicos da atualidade: o impacto da IA no setor criativo e no mercado de trabalho audiovisual.
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Fala de Sarandos: tecnologia como aliada da criatividade

Durante a conferência, Ted Sarandos foi direto ao comentar sobre o uso da tecnologia na série. Ele não apenas confirmou a aplicação de IA nos efeitos especiais, como também defendeu abertamente a prática:
“Continuamos convencidos de que a IA representa uma oportunidade incrível para ajudar criadores a produzir filmes e séries melhores, não apenas mais baratos”, declarou.
Segundo o executivo da Netflix, a IA foi utilizada para acelerar processos de produção, especialmente em cenas complexas de efeitos visuais.
Um dos exemplos citados foi a cena em que um prédio desaba em Buenos Aires, que, graças à tecnologia, foi concluída dez vezes mais rápido do que em métodos tradicionais, com uma equipe reduzida e mantendo a qualidade final.
IA generativa: ferramenta de apoio ou substituição?
O que é IA generativa?
A IA generativa é um tipo de inteligência artificial capaz de criar conteúdo original, como imagens, textos, vídeos e músicas, a partir de dados e padrões pré-existentes. No audiovisual, seu uso pode variar desde roteiros, planejamento de cenas, até efeitos visuais e sons.
Perigo para empregos?
A questão que mais preocupa sindicatos e profissionais do setor é a possível substituição de trabalhadores humanos por sistemas automatizados. Em sua fala, Sarandos tentou amenizar esse receio:
“As pessoas não perderão necessariamente seus empregos, mas devem aprender a lidar com as novas tecnologias.”
Ele afirmou que os criadores ficaram entusiasmados com o resultado e reforçou que a IA não elimina a mão de obra humana, mas oferece novas formas de ampliar a criatividade e a eficiência na produção de conteúdo.
“O Eternauta”: da resistência política à ficção científica em alta tecnologia
Um clássico latino-americano revisitado
A série “O Eternauta” é uma adaptação da obra homônima do autor argentino Héctor Germán Oesterheld, publicada originalmente em 1957. A história acompanha Juan Salvo, um homem comum que tenta sobreviver a uma nevasca letal em Buenos Aires após um evento apocalíptico.
Por trás da trama de ficção científica, há um forte componente político. A HQ se tornou um símbolo de resistência à opressão. O autor e suas filhas foram vítimas da ditadura militar argentina nos anos 1970, e desapareceram sem deixar rastros.
Série na Netflix
A versão lançada pela Netflix conta com seis episódios, é protagonizada pelo renomado ator Ricardo Darín e foi elogiada pela crítica por sua fidelidade à essência da obra original, ainda que com toques modernos. A cena do desabamento do prédio, feita com IA, é um dos pontos altos da produção.
Greve dos roteiristas e a sombra da automação
Um alerta que começou em Hollywood
O uso de IA no setor criativo já causou impacto anteriormente. Em 2023, roteiristas e atores de Hollywood entraram em greve justamente por temer que a tecnologia substituísse suas funções.
O Sindicato dos Roteiristas dos EUA (WGA) e o SAG-AFTRA (dos atores) exigiram proteções contratuais contra o uso indiscriminado da IA. Na época, a tecnologia ainda estava em fase embrionária, mas o alerta estava dado. Hoje, com exemplos práticos como o da Netflix, o debate ganha nova força e urgência.
Quais são os limites éticos?
O uso da IA traz questões éticas importantes:
- Quem é o verdadeiro autor de uma obra feita com IA?
- É justo que empresas economizem milhões enquanto artistas perdem espaço?
- O que garante que uma produção com IA não será usada para manipulação ou falsificação?
IA no audiovisual: avanço inevitável ou risco calculado?
Benefícios práticos
Entre as vantagens mais evidentes da IA na produção audiovisual, estão:
- Redução de custos;
- Velocidade na produção;
- Visualizações prévias realistas;
- Aprimoramento de efeitos especiais;
- Assistência na criação de roteiros, trilhas sonoras e até atuações digitais.
Desafios e perigos
No entanto, há uma série de riscos associados ao uso intensivo da tecnologia:
- Substituição de profissionais criativos;
- Redução da diversidade de narrativas;
- Dependência de algoritmos;
- Falsificações realistas (deepfakes);
- Desvalorização do trabalho humano.
Público percebe a diferença?
Uma das perguntas mais relevantes para o mercado é: o espectador nota quando há IA envolvida? No caso de “O Eternauta”, segundo Sarandos, a recepção foi positiva, e muitos sequer perceberam a presença da tecnologia.
Porém, à medida que a IA for mais usada, o estilo narrativo e visual poderá mudar significativamente, o que pode alienar parte do público mais tradicional ou valorizar produções mais “artesanais”.
Caminhos possíveis: coexistência ou conflito?

A declaração da Netflix indica que o futuro do audiovisual será híbrido, unindo criatividade humana e eficiência tecnológica. No entanto, esse futuro ainda é incerto e depende de decisões éticas, jurídicas e de mercado.
As empresas precisarão estabelecer limites claros, enquanto os profissionais devem buscar atualização constante para não serem excluídos do novo ecossistema criativo.
Conclusão
A admissão da Netflix de que utilizou IA generativa em “O Eternauta” não é apenas uma revelação técnica. É um marco simbólico da transformação acelerada do setor audiovisual, que exige reflexão sobre o futuro do trabalho, da arte e da criatividade.
Resta saber se essa tecnologia será usada para potencializar talentos humanos ou para substituí-los por algoritmos frios e calculistas. No fim das contas, o verdadeiro impacto será decidido tanto pelos criadores quanto pelo público.
Imagem: marianasilvestre / shutterstock.com



