Como a nova taxa das blusinhas está transformando o closet dos brasileiros
Queda nas importações e alta nas vendas locais: entenda como a nova taxa das blusinhas está transformando o varejo de moda no Brasil.
Por Juliana Peixoto
Desde agosto de 2024, quando entrou em vigor a nova política tributária conhecida como Remessa Conforme, o mercado de moda brasileiro passou por uma reconfiguração significativa. A medida, que estabelece uma taxação de 20% para compras internacionais de até US$ 50, antes isentas de impostos federais, teve como objetivo nivelar a concorrência entre varejistas locais e plataformas estrangeiras, sobretudo asiáticas.
Os efeitos são visíveis. Dados recentes do BTG Pactual revelam uma expressiva queda no volume e no faturamento de empresas como Shein e Shopee, ao mesmo tempo em que marcas nacionais como Renner, Riachuelo (Guararapes) e C&A viram seus lucros e valor de mercado dispararem.
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Queda nas importações e desaceleração nas plataformas asiáticas
Imagem: Venn-Photo/Shutterstock
Impacto imediato da Remessa Conforme
Segundo levantamento do BTG Pactual, logo no primeiro mês de vigência da nova taxa, em agosto de 2024, o volume de itens importados caiu 40%. A tendência de queda se manteve, e em junho de 2025, as plataformas estrangeiras venderam 12,7 milhões de produtos a consumidores brasileiros — 29% menos do que em junho de 2024 e 3% abaixo do registrado em maio de 2025.
Em termos de receita, o cenário também é negativo para as estrangeiras. No último mês avaliado, essas empresas arrecadaram R$ 1,29 bilhão, valor 2% inferior ao do mês anterior e 18% menor do que em julho de 2024, quando a arrecadação chegou a R$ 1,58 bilhão, ainda sem a nova taxa em vigor.
Aumento do ICMS agrava desvantagem competitiva
A pressão tributária sobre as empresas estrangeiras aumentou ainda mais em abril de 2025, com a decisão do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz) de elevar a alíquota do ICMS de 17% para 20% sobre produtos importados até US$ 50. Isso comprometeu ainda mais a competitividade das plataformas asiáticas.
Em janeiro de 2024, por exemplo, a Shein Brasil praticava preços 40% mais baixos que os das varejistas nacionais. Em junho de 2025, essa diferença caiu para apenas 10%, diminuindo drasticamente a atratividade da plataforma perante os consumidores.
Varejistas brasileiras colhem os frutos
Crescimento de receita e valorização das ações
Enquanto as plataformas asiáticas perderam espaço, o varejo de moda brasileiro vive um novo ciclo de valorização. A Renner, por exemplo, encerrou o primeiro trimestre de 2025 com alta de 12% na receita líquida, somando R$ 2,7 bilhões, e salto de 58,7% no lucro líquido, que atingiu R$ 221 milhões.
A C&A também apresentou bons resultados, com crescimento de 10,9% na receita líquida, totalizando R$ 1,612 bilhão, e a Guararapes, controladora da Riachuelo, avançou 10,6%, alcançando R$ 2,2 bilhões no mesmo período.
Na B3, o desempenho das ações dessas companhias impressiona:
Renner: valorização de 55,5% em 2025
C&A: alta de 143,5%
Guararapes: crescimento de 42,1%
Valoração de mercado
O impacto positivo também é percebido no valor de mercado dessas empresas:
Renner: R$ 19,7 bilhões
C&A: R$ 5,6 bilhões
Guararapes: R$ 4 bilhões
Com preços mais equilibrados em relação aos importados e uma presença consolidada no Brasil, essas redes conseguiram reconquistar o consumidor e se fortalecer no mercado.
Transformações no comportamento do consumidor
Imagem: Freepik
Fim do “boom das blusinhas”
A facilidade de importar roupas baratas de sites estrangeiros dominou o comportamento de consumo entre 2020 e 2023. No entanto, com o novo cenário tributário, essa tendência perdeu força. Consumidores passaram a perceber que, em muitos casos, o preço final dos produtos estrangeiros deixou de ser tão vantajoso quanto parecia, especialmente após a inclusão dos impostos e possíveis taxas alfandegárias.
Além disso, as marcas nacionais investiram em novas coleções, digitalização e logística, estreitando a distância entre o preço e a experiência de compra. O resultado foi o retorno de parte do público que havia migrado para o e-commerce internacional.
Reação das plataformas estrangeiras
Aposta nos marketplaces locais
Mesmo com o recuo nas vendas, empresas como Shein e Shopee vêm adotando estratégias para mitigar perdas. A principal delas é o fortalecimento dos seus marketplaces locais, incentivando a entrada de sellers brasileiros.
De acordo com o BTG, essa movimentação é semelhante àquela observada em 2022 e 2023, quando a Shopee expandiu significativamente sua base de vendedores nacionais. Agora, a Shein tenta replicar esse modelo, o que pode ajudá-la a recuperar parte do mercado perdido sem depender exclusivamente da importação direta.
Perspectivas para o segundo semestre de 2025
A expectativa é que o desempenho positivo das varejistas brasileiras continue, especialmente com a proximidade de datas estratégicas para o setor, como o Dia das Crianças, Black Friday e Natal. O mercado antecipa que a vantagem tributária e a estabilidade cambial devem beneficiar ainda mais as empresas nacionais, sobretudo aquelas com forte presença no digital e estrutura logística eficiente.
A medida, inicialmente criticada por consumidores acostumados a comprar barato no exterior, mostra agora um impacto positivo na economia nacional, promovendo geração de empregos, arrecadação e fortalecimento do varejo.
Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.