Mounjaro e Ozempic: Anvisa determina retenção da receita médica para uso
O Brasil enfrenta uma epidemia silenciosa: 59% da população está acima do peso, segundo a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha. Esse dado alarmante acende um sinal vermelho para os órgãos de saúde pública, uma vez que o sobrepeso e a obesidade estão associados a uma série de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e até alguns tipos de câncer.
Diante desse cenário, cresce também o interesse da população por alternativas rápidas e menos invasivas para o emagrecimento. Entre elas, ganham destaque medicamentos como o Ozempic (semaglutida) e o Mounjaro (tirzepatida), inicialmente desenvolvidos para o tratamento de diabetes tipo 2, mas amplamente utilizados para perda de peso.
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Ozempic e Mounjaro: o que são esses medicamentos?
Semaglutida e tirzepatida: mecanismos que reduzem o apetite
O Ozempic tem como princípio ativo a semaglutida, uma substância que simula o hormônio GLP-1 (peptídeo-1 semelhante ao glucagon), responsável por regular os níveis de açúcar no sangue e reduzir o apetite. Já o Mounjaro, que ainda é relativamente novo no mercado, atua de forma dupla, simulando tanto o GLP-1 quanto o GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose), ampliando os efeitos de saciedade e controle da glicemia.
Ambos os medicamentos são aplicados por injeção subcutânea semanal e, segundo estudos clínicos, demonstram resultados significativos na perda de peso, especialmente quando aliados a uma dieta equilibrada e exercícios físicos.
Crescimento de uso fora da indicação original
Embora tenham sido aprovados pela Anvisa para tratamento de diabetes, tanto o Ozempic quanto o Mounjaro vêm sendo amplamente utilizados para fins estéticos e emagrecimento. Esse uso “off label” – quando o remédio é prescrito fora das indicações da bula – preocupa especialistas.
A nova exigência da Anvisa para conter o uso indiscriminado
Receita médica e retenção obrigatória
Em junho de 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou que os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, como Ozempic e Mounjaro, só poderão ser vendidos mediante prescrição médica com retenção da receita. A medida visa coibir a automedicação e o uso desenfreado sem acompanhamento profissional.
A resolução foi publicada após o crescimento acentuado da procura por esses medicamentos, impulsionada principalmente por celebridades, redes sociais e promessas de perda rápida de peso. O uso sem supervisão, no entanto, pode provocar efeitos colaterais sérios, como náuseas, vômitos, pancreatite, hipoglicemia e perda excessiva de massa magra.
Venda online será monitorada
A Anvisa também anunciou que irá monitorar com mais rigor os canais de venda online, especialmente sites e marketplaces que oferecem o produto sem a exigência da prescrição. Farmácias e drogarias que descumprirem a norma poderão sofrer sanções administrativas e até perder o alvará de funcionamento.
A medicalização do emagrecimento: entre riscos e benefícios
Pressão estética e promessas de solução rápida
Para muitos brasileiros, o uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro representa uma “solução mágica” para os desafios da balança. No entanto, especialistas alertam que a medicalização do emagrecimento pode reforçar expectativas irreais e trazer riscos à saúde física e mental.
O emagrecimento sustentável depende de mudanças duradouras nos hábitos alimentares, prática regular de atividade física e acompanhamento multidisciplinar. Medicamentos podem ser coadjuvantes importantes em casos específicos, mas não devem substituir um plano de tratamento completo.
Uso em pessoas sem diabetes exige critério
A semaglutida e a tirzepatida não são isentas de riscos, especialmente para pessoas que não apresentam resistência à insulina ou diabetes tipo 2. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o uso desses fármacos em pacientes apenas com sobrepeso deve ser cuidadosamente avaliado, com base no histórico clínico, exames e orientações de profissionais capacitados.
Impacto no mercado e no acesso de diabéticos
Escassez nas farmácias e aumento de preços
O aumento expressivo da demanda por Ozempic e Mounjaro provocou desabastecimento em diversas regiões do Brasil. Diabéticos que necessitam do medicamento para controle glicêmico enfrentam dificuldades para adquirir o produto, além do encarecimento dos preços, que em alguns casos dobrou em poucos meses.
Uma caneta de Ozempic, por exemplo, que antes custava em média R$ 500, já ultrapassa os R$ 800 em algumas farmácias. O Mounjaro, por sua vez, tem preço ainda mais elevado e também registra falta em pontos de venda.
Consequências para o sistema público de saúde
O Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não oferece esses medicamentos de forma ampla. No entanto, o desvio do foco terapêutico e o uso em massa fora da indicação original podem pressionar ainda mais o sistema público, tanto por eventuais complicações derivadas do uso inadequado quanto por criar novas demandas médicas não previstas.
O papel das redes sociais na popularização
Influenciadores e médicos nas redes impulsionam a tendência
Vídeos de “antes e depois”, depoimentos de influenciadores digitais e dicas de uso se multiplicam nas redes sociais. O TikTok, Instagram e YouTube concentram milhares de postagens sobre o uso de Ozempic e Mounjaro para emagrecer.
Alguns profissionais de saúde, inclusive, adotam as plataformas digitais para divulgar o uso dos medicamentos, o que contribui para a normalização de sua prescrição estética. A falta de regulação e fiscalização nesse ambiente digital é um desafio crescente para as autoridades.
Riscos da desinformação online
A disseminação de informações incompletas ou enganosas nas redes pode levar ao uso indevido dos remédios. Há relatos de pessoas que compram canetas falsificadas, compartilham fórmulas manipuladas e seguem protocolos sem nenhum respaldo médico.
A Anvisa alerta que não há garantias de segurança ou eficácia em medicamentos adquiridos fora do circuito regulado, especialmente aqueles vendidos em redes sociais ou grupos de aplicativos de mensagens.
Caminhos para um emagrecimento seguro e consciente

Educação em saúde e políticas públicas
Especialistas defendem que o combate à obesidade exige ações estruturais, como políticas públicas de incentivo à alimentação saudável, campanhas educativas, promoção da atividade física nas escolas e maior acesso a profissionais de saúde.
Regulação mais rígida e vigilância sanitária
As novas normas da Anvisa representam um passo importante para conter abusos no uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro. No entanto, a eficácia dessas medidas depende da fiscalização rigorosa e da conscientização dos consumidores.
O que dizem os profissionais de saúde
Segundo a endocrinologista Luciana Giordano, de São Paulo, “a semaglutida e a tirzepatida são avanços terapêuticos importantes, mas não são indicadas para todas as pessoas com sobrepeso. O uso indiscriminado pode trazer riscos graves, inclusive psicológicos, relacionados à dependência do medicamento como solução única.”
Conclusão
O crescimento da obesidade no Brasil reflete uma urgência de saúde pública que vai além da balança. A popularização de medicamentos como Ozempic e Mounjaro expõe não apenas o desespero por soluções rápidas, mas também os desafios éticos, sanitários e sociais do uso medicamentoso para fins estéticos. Com a nova regulamentação da Anvisa, reforça-se a importância do acompanhamento médico e da informação de qualidade. Mais do que seguir modismos, é essencial que o cuidado com o corpo venha aliado à responsabilidade com a própria saúde.