Seu Crédito Digital
O Seu Crédito Digital é um portal de conteúdo em finanças, com atualizações sobre crédito, cartões de crédito, bancos e fintechs.

Oms pede aumento de 50% em impostos sobre açúcar, álcool e tabaco

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma proposta ambiciosa chamada “3 by 35”, que prevê o aumento de 50% nos preços reais de produtos como açúcar, álcool e tabaco até 2035. O objetivo é combater doenças crônicas e gerar recursos para que os países possam investir em seus sistemas de saúde, sobretudo em um contexto de escassez orçamentária global.

A medida foi anunciada durante a conferência das Nações Unidas sobre financiamento para o desenvolvimento, em Sevilha, na Espanha. Com essa política, a OMS pretende reduzir significativamente o consumo de produtos considerados nocivos à saúde e salvar milhões de vidas nas próximas décadas.

Leia mais:

OMS ordenou que governos precisam se preparar para lockdown contra Mpox?

Por que aumentar os impostos desses produtos

Impacto na saúde pública

O consumo excessivo de açúcar, bebidas alcoólicas e produtos derivados do tabaco é uma das principais causas de doenças não transmissíveis, como diabetes, hipertensão, cirrose hepática e câncer. Segundo estimativas da própria OMS, esse tipo de consumo leva à morte de mais de 8 milhões de pessoas por ano em todo o mundo.

Elevar os impostos sobre esses itens é uma estratégia comprovada para reduzir seu consumo. Países que adotaram medidas similares, como México, África do Sul e Filipinas, observaram quedas expressivas na venda de bebidas adoçadas e cigarros.

Arrecadação sustentável

A elevação da tributação não tem apenas um efeito corretivo, mas também arrecadatório. Com a medida, espera-se gerar mais de 1 trilhão de dólares globalmente até 2035, montante que poderia ser reinvestido em sistemas de saúde pública, prevenção e educação. Para países em desenvolvimento, isso representa uma alternativa viável à dependência de ajuda externa.

O que diz a proposta da OMS

A estratégia “3 by 35” não impõe um modelo único, mas orienta os países a estruturarem suas políticas fiscais para atingir o aumento real de 50% nos preços dos produtos-alvo. Isso pode ser feito por meio de impostos sobre valor agregado, tributos específicos por volume ou pela combinação de ambos.

A OMS também recomenda que os países adotem políticas complementares, como advertências sanitárias nas embalagens, campanhas educativas e restrições à publicidade desses produtos.

Produtos alvo da tributação

Açúcar

O foco da OMS está nas bebidas açucaradas e produtos ultraprocessados. Embora existam dificuldades técnicas para definir com precisão os limites de açúcar que tornam um produto passível de tributação, o objetivo é desestimular o consumo cotidiano de refrigerantes, sucos industrializados e alimentos com alto teor glicêmico.

Álcool

As bebidas alcoólicas também estão no centro da proposta. A OMS destaca que o consumo abusivo de álcool é responsável por mais de 3 milhões de mortes anuais e que políticas de preços são especialmente eficazes para reduzir o consumo entre jovens e populações vulneráveis.

Tabaco

No caso do tabaco, a política é ainda mais consolidada. Estudos mostram que aumentos de 10% nos preços do cigarro levam a uma redução de 4% no consumo nos países de alta renda e até 5% nos de baixa renda. A proposta da OMS visa ampliar esses efeitos com medidas mais ousadas.

Exemplo de países que já aplicaram a estratégia

glass filled with liquid cubes sugar 1
Imagem: Freepik

Diversos países adotaram impostos sobre produtos nocivos com resultados animadores:

  • México: implantou um imposto sobre bebidas açucaradas e observou queda de mais de 7% no consumo em apenas um ano.
  • Filipinas: destinou os recursos arrecadados com o imposto do tabaco para financiar a saúde pública.
  • Reino Unido: a taxa sobre refrigerantes reduziu o teor de açúcar das bebidas produzidas localmente.

Esses casos ajudam a reforçar a tese de que políticas fiscais bem estruturadas geram impacto direto na saúde coletiva.

Obstáculos e resistência

Indústria

É esperado que setores da indústria de alimentos, bebidas e tabaco se oponham à medida. Em diversos países, a pressão desses setores impediu ou suavizou iniciativas semelhantes. Argumentos como perda de empregos, impacto no comércio e aumento do mercado ilegal são frequentemente usados para barrar essas propostas.

Política interna

Nos parlamentos nacionais, propostas de aumento de impostos raramente são populares. Governos precisarão equilibrar a necessidade de arrecadação com as pressões políticas e sociais. Para viabilizar a estratégia, será necessário engajamento técnico e comunicação pública eficaz sobre os benefícios da medida.

Medidas complementares

A OMS recomenda que os governos:

  • Vinculem os recursos arrecadados à saúde pública, educação e programas de prevenção
  • Aumentem a fiscalização sobre produtos ilegais e contrabando
  • Invistam em campanhas de esclarecimento sobre os danos desses produtos
  • Estabeleçam rótulos de advertência mais visíveis nas embalagens

A ideia é que o aumento dos preços não atue isoladamente, mas como parte de um pacote mais amplo de medidas.

Possíveis efeitos no Brasil

O Brasil já possui tributos sobre cigarros e bebidas alcoólicas, mas não possui uma política clara de taxação de produtos ultraprocessados e bebidas adoçadas. A adesão às recomendações da OMS exigiria reformulações na estrutura tributária e forte coordenação entre os Ministérios da Fazenda e da Saúde.

Por outro lado, o país poderia se beneficiar da arrecadação extra para enfrentar desafios como o subfinanciamento do SUS e os crescentes custos com doenças crônicas.

Conclusão

A proposta da OMS de aumentar em 50% os preços de açúcar, álcool e tabaco por meio de impostos é uma das mais ambiciosas já apresentadas no cenário da saúde pública global. A medida tem potencial de salvar milhões de vidas, reduzir o peso das doenças crônicas nos sistemas de saúde e criar uma nova fonte de arrecadação sustentável para os governos.

A resistência é previsível, mas os benefícios são inegáveis. A decisão agora está nas mãos dos países, que precisarão decidir se estão dispostos a enfrentar os desafios políticos em troca de ganhos concretos para suas populações.