Lula apresenta plano fiscal a líderes partidários para equilibrar contas e conter crise política

Em meio à maior crise política e econômica desde o início de seu mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentará neste domingo (8) um conjunto de medidas fiscais aos líderes partidários do Congresso Nacional. O plano, batizado informalmente de “cardápio fiscal” por integrantes do governo, visa zerar o déficit público e recuperar a confiança do mercado.

O movimento ocorre após duas semanas de desgaste intenso provocado pelo recuo em relação ao aumento do IOF, anunciado sem prévia articulação com o Congresso, o que gerou forte reação de parlamentares.

Nova estratégia: negociação antes do anúncio

Inflação
Imagem: Reprodução/Miguel Schincariol/AFP

A principal mudança de postura do governo está na ordem dos processos: a partir de agora, a apresentação das medidas ocorrerá primeiro aos presidentes da Câmara e do Senado, para só então serem anunciadas ao público.

Segundo o jornalista José Roberto de Toledo, colunista do UOL e apresentador do podcast A Hora, o objetivo é:

  • Evitar atropelos como o ocorrido com o IOF
  • Construir apoio político prévio
  • Reduzir resistências no Centrão e entre líderes setoriais
  • Viabilizar a aprovação das propostas ainda em 2025

Medidas incluem corte de isenções fiscais e mudanças estruturais

O centro do pacote elaborado pela equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está na redução dos chamados “gastos tributários”, ou seja, isenções e benefícios concedidos a setores específicos da economia.

Principais alvos do corte de isenções:

  • Zona Franca de Manaus: considerada custosa e de baixo retorno, com impacto estimado em bilhões por ano
  • Setor do agronegócio: responsável por mais de R$ 80 bilhões anuais em isenções, segundo dados do Tesouro Nacional
  • Benefícios corporativos não essenciais: como regimes especiais de tributação para setores de serviços

O governo precisa encontrar ao menos R$ 50 bilhões para atingir o centro da meta fiscal e evitar o estouro das contas públicas.

Tipos de medidas em análise:

  • Mudanças na estrutura de impostos, que exigem aprovação ainda este ano para valer a partir de 2026
  • Aumentos pontuais de alíquota, que podem ter efeito imediato, mas geram maior resistência política
  • Emendas constitucionais, necessárias para alterações mais amplas, o que exige 308 votos na Câmara e 49 no Senado

Objetivo: viabilizar corte de juros e melhorar indicadores econômicos

A meta final do governo é garantir equilíbrio fiscal para que o Banco Central possa iniciar uma nova rodada de cortes na taxa de juros. Isso permitiria:

  • Estímulo ao consumo e ao crédito
  • Melhora nos indicadores de inflação e crescimento
  • Aumento na arrecadação sem aumento direto de impostos

Fernando Haddad tem defendido que, sem uma sinalização clara de responsabilidade fiscal, não há espaço para medidas de estímulo nem para recuperação da popularidade do governo.

Popularidade em queda pressiona articulação política

A estratégia ocorre em um momento delicado para Lula. Segundo pesquisa Quaest, o presidente atinge o maior índice de desaprovação desde o início de seu mandato: 57%. O saldo positivo permanece apenas em:

  • Eleitores acima de 60 anos
  • Nordestinos
  • População com renda de até dois salários mínimos
  • Pessoas com menor escolaridade

Segundo a colunista Thais Bilenky, também do UOL, isso cria um “caldo político adverso” que dificulta a articulação no Congresso.

Alcolumbre e Hugo Motta são peças-chave da nova fase

Para contornar o desgaste e evitar mais derrotas legislativas, o governo aposta na aproximação com duas figuras centrais do Congresso:

  • Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado
  • Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados

Ambos são vistos como pragmáticos e fundamentais para o avanço de projetos estruturais. A estratégia é apresentar um plano coeso, com impacto a partir de 2026, sem surpresas e com envolvimento direto do Legislativo desde o início.

Impactos esperados a curto e médio prazo

Bolsa Família dinheiro esquecido
Imagem: Marcello Casal Júnior/Agência Brasil

O governo acredita que, se aprovado, o pacote terá efeitos progressivos:

No curto prazo:

  • Redução da instabilidade política
  • Sinalização de comprometimento fiscal ao mercado
  • Alívio na pressão sobre o câmbio e inflação

No médio prazo:

  • Melhora gradual da percepção de risco do Brasil
  • Redução na taxa de juros
  • Aumento da capacidade de investimento público

A aposta política é que esses efeitos melhorem a imagem do governo em 2026, ano eleitoral em que Lula pretende fortalecer sua base e defender a manutenção do projeto político.

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