Presidente da Nestlé alerta: mercado de café já sinaliza queda de preços
O mercado global do café, após meses de alta impulsionada por fatores climáticos e especulação financeira, começa a dar sinais de estabilização e possível queda nos preços.
A avaliação é do presidente da Nestlé no Brasil, Marcelo Melchior, que vê um cenário mais favorável para a matéria-prima nos próximos meses, impulsionado por uma oferta mais robusta e menos pressão de fundos especulativos.
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Expectativa de estabilização no setor cafeeiro
Durante entrevista à agência Reuters, Melchior afirmou que há uma clara tendência de redução dos preços no mercado internacional de café. Essa mudança se dá em meio ao início da colheita no Brasil, maior produtor mundial, e a uma safra promissora no Vietnã, o segundo maior fornecedor global da commodity.
“A tendência do mercado é de redução do preço da matéria-prima, mas temos que ver se não vai ter geada”, ponderou Melchior, fazendo referência a eventos climáticos que podem prejudicar a safra.
Embora o clima tenha causado estragos importantes em anos recentes — como as geadas severas de 2021 e secas prolongadas —, por ora não há alertas de novos riscos que comprometam significativamente a produção em 2025.
Fim da especulação: fundos deixam o mercado
Outro ponto que colabora para a expectativa de queda nos preços é a saída dos fundos especulativos que operavam no mercado futuro de café. Segundo o presidente da Nestlé, muitos investidores que atuavam apenas em operações financeiras estão se retirando, o que reduz a pressão artificial sobre os preços da commodity.
“Teve muita gente que entrou no mercado para comprar futuro. Esses fundos já se retiraram ou estão se retirando do mercado, e agora ficam somente quem está interessado na matéria-prima”, explicou.
Esse movimento de saída dos especuladores é um indicativo de retorno à normalidade, com preços mais alinhados à realidade da oferta e demanda físicas.
Cotações internacionais já recuam
As bolsas de commodities refletem essa nova realidade. A cotação do café arábica na ICE (Bolsa de Nova York), principal referência internacional, caiu cerca de 25% desde o pico de fevereiro, quando ultrapassou os US$ 4,25 por libra-peso. No caso do café robusta, negociado na bolsa de Londres, os preços estão próximos de uma mínima de dez meses, com perdas superiores a 30% em relação ao recorde anterior, aproximando-se de US$ 4.000 por tonelada.
Essas quedas já afetam diretamente os preços pagos aos produtores brasileiros. No entanto, esse movimento ainda não foi repassado integralmente ao consumidor final.
Consumidor brasileiro ainda paga caro nas gôndolas
Apesar da tendência de queda no mercado internacional, os consumidores brasileiros continuam sentindo no bolso os efeitos da inflação acumulada no setor de café. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o café moído registrou aumento de 82,24% nos últimos 12 meses, mesmo com o cenário externo já em desaceleração.
Em maio, o produto voltou a subir nas prateleiras dos supermercados, contrariando o movimento global e reforçando o descompasso entre os preços da matéria-prima e os valores praticados no varejo.
Indústria e varejo ainda não repassaram as quedas
Segundo especialistas da cadeia cafeeira, esse atraso no repasse dos custos ao consumidor se deve à cadeia de produção e logística, que ainda opera com estoques comprados a preços mais altos. Além disso, o setor ainda lida com incertezas sobre o clima e a capacidade de resposta das indústrias à queda nos custos.
Impacto no consumo interno
Essa inflação contínua teve efeito direto no comportamento do consumidor brasileiro. Segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), o consumo interno da bebida caiu mais de 5% no primeiro quadrimestre de 2025.
O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de café, atrás apenas dos Estados Unidos. Uma retração no mercado interno preocupa tanto o setor industrial quanto os produtores rurais, já que a demanda doméstica é um dos principais pilares da sustentabilidade econômica da cadeia.
Nestlé prevê investimentos robustos no país
Apesar das incertezas no curto prazo, a Nestlé mantém planos ambiciosos para o mercado brasileiro. A empresa anunciou um ciclo de investimentos de R$ 7 bilhões até 2028, com foco em expansão da produção, modernização de fábricas e desenvolvimento de novos produtos.
Segundo Melchior, o Brasil segue sendo um mercado estratégico para a multinacional suíça, tanto pelo consumo interno quanto pela exportação de produtos baseados em café. A empresa também aposta em inovação e sustentabilidade como diferenciais para crescer em um cenário competitivo.
O que esperar nos próximos meses
Safras promissoras
Com o início da colheita no Brasil e a perspectiva de uma boa safra no Vietnã, a expectativa é que os preços do café continuem em trajetória de queda ou estabilização.
Repasse ao consumidor
A principal dúvida agora recai sobre o tempo necessário para que os consumidores vejam alívio nos preços das gôndolas. O ritmo desse repasse dependerá da recomposição dos estoques industriais e da dinâmica de custos logísticos e operacionais.
Clima segue como fator-chave
Mesmo com previsões positivas, o clima ainda representa um risco. Geadas ou secas inesperadas podem impactar o cenário rapidamente, o que exige cautela por parte da indústria e dos produtores.
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