O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (21) pelo Banco Central revelou mudanças discretas, mas relevantes, nas projeções dos principais indicadores econômicos do Brasil até 2028. A pesquisa semanal com economistas de mais de cem instituições financeiras mostra uma leve queda nas estimativas para a inflação e o Produto Interno Bruto (PIB), enquanto as previsões para a taxa Selic e o dólar permaneceram praticamente estáveis.
A atualização das expectativas acontece em meio a um cenário ainda desafiador, com juros altos, desaceleração do consumo e pressões cambiais internas e externas. Mesmo com ajustes tímidos, os dados reforçam a percepção de que a economia brasileira deve seguir em ritmo moderado nos próximos anos.
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Inflação deve permanecer dentro do intervalo da meta em 2025

Projeções atualizadas para a inflação (IPCA)
- 2025: de 5,17% para 5,10%
- 2026: de 4,50% para 4,45%
- 2027: mantida em 4,00%
- 2028: de 3,81% para 3,80%
A principal novidade do boletim desta semana é o recuo nas estimativas de inflação para 2025 e 2026. A projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2025 caiu de 5,17% para 5,10%, o que coloca o indicador dentro do intervalo de tolerância da meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que vai de 1,5% a 4,5%.
Para 2026, a expectativa também foi ajustada para baixo, de 4,50% para 4,45%. Para os anos seguintes, a previsão permanece em 4% para 2027 e caiu levemente de 3,81% para 3,80% em 2028.
Esse movimento indica uma leve melhora na percepção do mercado em relação ao controle da inflação nos próximos anos. No entanto, o fato de a estimativa de 2025 ainda estar acima da meta central de 3% sugere cautela por parte dos analistas.
PIB segue com projeções tímidas e levemente revisadas
Projeções do PIB
- 2025: mantida em 2,23%
- 2026: de 1,89% para 1,88%
- 2027: mantida em 2,00%
- 2028: mantida em 2,00%
No que diz respeito ao crescimento econômico, o relatório mostra poucas alterações. A projeção para o PIB de 2026 recuou de 1,89% para 1,88%. Para 2025, a expectativa segue em 2,23%, enquanto as de 2027 e 2028 permanecem em 2%.
Apesar da ligeira revisão, os dados indicam um cenário de crescimento modesto e sem grandes impulsos, especialmente após a desaceleração global e os desafios fiscais enfrentados pelo Brasil.
Selic deve continuar em dois dígitos até 2028
Projeções para a taxa Selic
- 2025: mantida em 15,00%
- 2026: mantida em 12,50%
- 2027: mantida em 10,50%
- 2028: mantida em 10,00%
Outro ponto que chama atenção no Boletim Focus é a manutenção das expectativas para a taxa básica de juros (Selic). Segundo os economistas consultados, a Selic deve encerrar 2025 em 15%, valor que permanece inalterado em relação às semanas anteriores.
Para os anos seguintes, as estimativas indicam uma trajetória de redução gradual, mas ainda em patamar elevado: 12,50% em 2026, 10,50% em 2027 e 10% em 2028. A previsão reflete o compromisso das autoridades monetárias com o controle inflacionário, mesmo diante dos custos de manter juros altos por longos períodos.
Esse cenário mantém o Brasil com uma das maiores taxas de juros reais do mundo, o que afeta diretamente o crédito, o consumo e os investimentos.
Dólar deve permanecer acima de R$ 5,65 até 2028
Projeções para o câmbio
- 2025: mantido em R$ 5,65
- 2026: mantido em R$ 5,70
- 2027: de R$ 5,71 para R$ 5,70
- 2028: de R$ 5,76 para R$ 5,70
No câmbio, as expectativas seguem praticamente estáveis. A previsão é que o dólar fique em R$ 5,65 ao final de 2025, valor mantido há semanas. Para os anos seguintes, a estimativa segue em R$ 5,70, refletindo um cenário de pressão cambial persistente.
Apenas uma pequena correção foi feita nas previsões para 2027 e 2028, que recuaram de R$ 5,71 e R$ 5,76 para R$ 5,70.
Esse comportamento sugere que o mercado não espera uma valorização significativa do real no médio prazo, diante da combinação de fatores como instabilidade política, déficit fiscal e incertezas globais.
Contexto global e desafios domésticos pesam nas previsões
Os ajustes nas projeções do Focus devem ser lidos dentro de um contexto global marcado por desaceleração econômica em grandes potências, inflação persistente nos EUA e incertezas geopolíticas. Internamente, o governo federal tenta equilibrar as contas públicas com medidas de aumento de arrecadação e controle de gastos, em meio a resistências políticas.
Além disso, a política monetária do Banco Central se mantém conservadora, refletindo a preocupação com a inflação e as expectativas do mercado. Com a taxa Selic em níveis altos, o crescimento do crédito e o consumo das famílias tendem a ficar limitados, o que impacta o ritmo da atividade econômica.
Expectativas para os próximos meses

A manutenção ou não dessas projeções dependerá, em grande parte, da capacidade do governo em entregar um ambiente fiscal mais estável e previsível. O avanço das reformas tributária e administrativa, bem como a melhora da confiança dos investidores, serão fatores determinantes.
Outro ponto de atenção é a política monetária dos Estados Unidos. Se o Federal Reserve (Fed) decidir manter os juros elevados por mais tempo, o real pode sofrer ainda mais pressão, o que afetaria as estimativas de câmbio e inflação.
Conclusão: cenário moderado, mas sob risco
Apesar dos ajustes modestos no Boletim Focus, as projeções continuam sinalizando uma economia em compasso de espera. A inflação segue em tendência de queda, mas ainda acima da meta para 2025. O crescimento econômico permanece baixo, e os juros continuam altos, limitando a capacidade de expansão do país.
Em um ambiente de incerteza fiscal e política, o mercado parece adotar uma postura conservadora, à espera de sinais mais concretos de equilíbrio nas contas públicas e melhora do ambiente de negócios. Até lá, as estimativas do Focus devem seguir com ajustes pontuais, mas sem grandes revisões otimistas.




