A recente queda de 0,5% na produção industrial em maio já acende um alerta sobre o impacto do ciclo de alta dos juros promovido pelo Banco Central no desempenho econômico nacional. Embora a comparação anual ainda apresente crescimento de 3,3%, economistas apontam uma desaceleração gradual da atividade produtiva, sobretudo nos segmentos mais sensíveis às condições financeiras.
Produção industrial recua com impacto maior nos setores mais vulneráveis
Produção industrial cai 0,5% em maio; setores mais sensíveis aos juros são os mais impactados em 2025.
Com isso, o ano de 2025 se apresenta como um desafio para o setor industrial, que deve sofrer perdas em sua força de expansão e passar por uma composição diferente em seus principais setores.
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Panorama da queda na produção: quais setores foram mais afetados?

Dos 25 segmentos industriais analisados pelo IBGE, 13 registraram queda em maio, demonstrando a amplitude da retração. Os bens de capital e os bens de consumo duráveis foram os mais impactados, com recuos expressivos de -2,1% e -2,9%, respectivamente.
Entre os destaques negativos, estão setores tradicionais como veículos automotores (-3,9%), móveis (-2,6%), derivados do petróleo (-1,8%), bebidas (-1,8%), vestuário (-1,7%) e alimentos (-0,8%). Esses números refletem uma combinação de fatores, incluindo o custo elevado do crédito e a redução dos investimentos, que afetam diretamente a capacidade produtiva.
Crescimento ainda presente: pontos positivos no cenário industrial
Apesar do resultado mensal negativo, a indústria brasileira mantém um desempenho positivo em termos interanuais. A produção em maio cresceu 3,3% na comparação com o mesmo mês do ano passado, e a média móvel trimestral indica uma leve alta de 0,2%, sinalizando que a desaceleração é gradual e não abrupta.
Setores como veículos, máquinas e equipamentos, química, extrativa e metalurgia tiveram avanços expressivos no acumulado do ano, contribuindo para um crescimento industrial geral de 1,8% em 2025 até o momento. Destaca-se também o setor extrativo, que cresceu 0,8%, impulsionado pela extração recorde de petróleo, 10,9% maior em relação a maio do ano anterior.
Produtos farmacêuticos e de borracha e plástico também registraram desempenhos positivos, com variações de 3% e 1,6%, respectivamente, indicando alguma resiliência em nichos específicos da indústria.
Impacto dos juros altos: a indústria de transformação na berlinda
Segundo o economista Luis Otávio Leal, sócio da G5 Partners, a alta dos juros tem efeito progressivo e mais severo sobre a indústria de transformação, que depende fortemente de investimentos e financiamentos. Em 2024, o crescimento da indústria foi quase todo puxado pelo segmento de transformação, mas em 2025 o protagonismo deve mudar para a indústria extrativa.
A política monetária contracionista do Banco Central, com juros elevados, pressiona a indústria de transformação, criando um ambiente mais desafiador para a expansão. Leal prevê que o segundo trimestre deve apresentar uma variação próxima de zero no PIB industrial, reforçando a expectativa de desaceleração para os próximos meses.
Projeções para 2025: crescimento modesto e desafios à frente
A expectativa dos especialistas é que o crescimento da produção industrial brasileira em 2025 fique entre 0,5% e 2%, dependendo do órgão e da metodologia utilizada.
- O Inter projeta avanço de 1,2%, porém com perda de fôlego ao longo do ano, devido à intensificação das condições financeiras restritivas.
- O PicPay acredita em um crescimento mais robusto, de 2%, sustentado por uma balança comercial sólida e estímulos governamentais para a economia.
- O C6 Bank prevê um aumento modesto de 0,5% para a indústria, com o PIB nacional crescendo cerca de 2%.
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Claudia Moreno, do C6 Bank, destaca que o setor industrial deve perder ritmo em 2025, consequência natural do ciclo de juros mais elevados que afetam investimentos e consumo. A projeção para 2026 indica uma possível expansão de 1%, podendo ser maior caso a demanda doméstica e investimentos em capacidade produtiva se fortaleçam.
Os setores mais vulneráveis e o impacto na economia

A queda nos bens de capital e consumo durável é particularmente preocupante, pois esses segmentos são altamente sensíveis às condições de crédito e refletem o nível de investimentos futuros. Veículos automotores e móveis, que registraram os maiores recuos, são bons termômetros da confiança do consumidor e das empresas.
A retração nos derivados de petróleo, bebidas e vestuário também indica um enfraquecimento do consumo doméstico e possivelmente pressões inflacionárias que impactam o custo dos insumos e produtos finais.
O papel da indústria extrativa e petróleo em meio ao cenário adverso
Enquanto a indústria de transformação desacelera, o setor extrativo ganha relevância. A extração recorde de petróleo e o crescimento em segmentos como químicos, metalurgia e produtos farmacêuticos sugerem que esses setores têm potencial para compensar parcialmente as perdas.
Essa mudança de foco na composição da indústria pode alterar o perfil do crescimento econômico brasileiro, exigindo adaptação das políticas públicas e estratégias empresariais.
