Taxa dos EUA sobre café brasileiro preocupa produtores no Sul de Minas

Produtores de café em Minas Gerais vivem um momento de grande incerteza. Além da já forte oscilação nos preços do grão, a recente decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, incluindo o café, acendeu um alerta no setor exportador. O decreto, assinado pelo presidente Donald Trump em 30 de julho, entra em vigor no próximo dia 6 de agosto, impactando diretamente a principal pauta agrícola do Brasil.

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A reação do setor exportador ao tarifão dos EUA

Café
Imagem: Canva

Cecafé defende negociação diplomática

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) não demorou para se manifestar. Em vídeo divulgado por meio de suas redes sociais, o diretor-geral Marcos Matos afirmou que o Brasil é insubstituível no fornecimento de café para os Estados Unidos, detendo cerca de 33% do mercado americano.

“O Brasil vai seguir exportando. O Brasil é insubstituível, da mesma forma que os Estados Unidos também são insubstituíveis. O esforço agora é criar um ambiente para iniciar a negociação”, destacou Marcos Matos.

Essa declaração revela a expectativa de uma negociação diplomática e comercial para tentar mitigar os impactos da medida, mas o tempo até lá é curto e a ansiedade, grande.

O impacto da nova tarifa nos cafeicultores mineiros

Produtor perdeu pico de preço por atraso na colheita

No campo, os efeitos dessa instabilidade já são sentidos. Em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais, a Fazenda São Domingos, comandada por Rodrigo Vilela Rezende, é um exemplo prático dessa turbulência. Com 38 hectares plantados e cinco variedades de café, Rodrigo viu a saca atingir um pico histórico de R$ 2.769 em fevereiro deste ano. Contudo, só conseguiu iniciar a colheita recentemente, quando o preço caiu para cerca de R$ 1.795 — uma desvalorização de 35%.

“Eu não tinha estoque e não tinha café sendo colhido. Então não consegui aproveitar o momento de café a R$ 2.700. Agora estamos com 70% a 80% da colheita das árvores concluída, e vamos começar a varrição, que está atrasada”, relata Rodrigo.

Cafeicultores dependem da estabilidade para manter renda

Ao lado do pai, Roberto Rezende, que cultiva a lavoura desde 1915, ele destaca a vulnerabilidade dos produtores às oscilações do mercado:

“O cafeicultor é refém do mercado. A gente sempre tem contas a pagar, depende da venda do produto e sofre com as intempéries e o comportamento volátil das commodities.”

Produção em queda e custos sob controle

Expectativa de produção menor que em 2024

A produção deste ano deve ser menor que a de 2024. Enquanto foram 700 sacas colhidas no ano passado, a expectativa atual é de no máximo 500 sacas. Além disso, parte da produção já está comprometida em contratos antecipados — 60 sacas em troca de insumos junto à cooperativa e outras 20 sacas travadas a R$ 1.400.

Foco está em cafés especiais e redução de despesas

Rodrigo explica que, diante das dificuldades, o foco está no controle dos custos e na busca por diferenciação:

“Tem que focar nas variáveis que conseguimos controlar, como o custo de produção. E buscar produzir cafés especiais, que paguem acima da média de mercado.”

Cenário global do mercado do café e as tarifas dos EUA

Oferta global pressiona preços após alta sazonal

O corretor Luiz Antônio Russo Furlan reforça que a queda nos preços do café já era esperada com a entrada da safra brasileira no mercado:

“O movimento de alta começou com a frustração da safra no Vietnã e foi intensificado por problemas climáticos no Brasil. O mercado reagiu à possibilidade de escassez e os preços subiram até junho. Agora, com maior oferta, houve recuo. Mas o cenário global segue sensível.”

Reorganização de fluxos pode evitar prejuízos maiores

Para Edson Menegueli, exportador do setor, o momento ainda é positivo apesar das incertezas:

“Café entre R$ 1.800 e R$ 2.000 é um ótimo preço. A taxação dos EUA não deve afetar diretamente o mercado, porque haverá apenas uma reorganização dos fluxos: o café que iria aos Estados Unidos vai para a Europa e vice-versa.”

Outro fator que pode ajudar a manter os preços, segundo Menegueli, é a queda natural da produção na fase da limpa — o recolhimento dos grãos remanescentes do chão.

Expectativas para os próximos meses

Produtores evitam vender com preços baixos

Ricardo Schneider, presidente do Centro do Comércio de Café de Minas Gerais, acredita que não haverá nova disparada nos preços como a de fevereiro, pelo menos no curto prazo:

“A tendência é o mercado buscar um novo patamar de equilíbrio. O produtor não está vendendo com os preços atuais, e isso reduz o fluxo de comercialização. É uma queda de braço entre quem vende e quem compra.”

Paixão pelo café sustenta os produtores

Enquanto o mercado internacional se movimenta e as tarifas ameaçam afetar a competitividade do café brasileiro, produtores locais, como Rodrigo, seguem firmes:

“Desistir de ser cafeicultor não passa pela minha cabeça. Café corre na veia da gente aqui.”

Caminhos para o futuro da cafeicultura mineira

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Imagem: Freepik/Edição: Seu Crédito Digital

Diversificação e qualidade como solução

Para superar esse momento delicado, o setor precisará não só negociar tarifas e fluxos comerciais, mas também investir em inovação, qualidade e sustentabilidade. A produção de cafés especiais pode ser uma saída para agregar valor e reduzir a dependência das oscilações do mercado global.

Cooperativas e parcerias estratégicas ganham importância

Além disso, parcerias e cooperação entre produtores, cooperativas e órgãos governamentais podem ajudar a criar estratégias mais eficazes para enfrentar a volatilidade e proteger os agricultores, especialmente os pequenos e médios produtores que sustentam a economia rural de Minas Gerais.

Conclusão

O cenário atual dos produtores de café em Minas Gerais reflete os desafios enfrentados por uma cadeia produtiva altamente dependente do mercado internacional. Entre tarifas inesperadas, queda nos preços e incertezas climáticas, o setor busca alternativas para manter a competitividade, como a produção de cafés especiais e o fortalecimento das cooperativas. Enquanto negociações diplomáticas seguem em curso, a resiliência do cafeicultor mineiro segue como símbolo de uma tradição centenária que resiste mesmo diante das maiores adversidades.

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