Um dos compromissos do governo federal para reduzir a carga tributária sobre os trabalhadores de baixa e média renda começa a ganhar tração no Congresso Nacional. O projeto de lei que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais deve ser votado na próxima semana na Câmara dos Deputados, após um acordo entre lideranças partidárias.
Câmara deve votar pedido de urgência de projeto de isenção de IR para quem recebe até R$ 5 mil
Projeto que eleva isenção do IR para rendas de até R$ 5 mil pode ser votado na Câmara. Medida deve entrar em vigor em 2026 e beneficiar até 10 milhões.
A proposta, que deve beneficiar até 10 milhões de brasileiros, tem previsão de vigência a partir de 2026.
O projeto está sob a relatoria do deputado federal Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara, e vem sendo discutido com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, desde maio.
Ambos se reuniram no último dia 28 de maio, para alinhar os impactos fiscais e políticos da medida, especialmente sobre estados e municípios, que podem ser afetados pela redução na arrecadação.
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Avanço político da proposta

Encontro entre Arthur Lira e Fernando Haddad
A construção da proposta de isenção foi intensificada após a reunião entre Lira e Haddad. Na ocasião, o ministro defendeu o compromisso do governo com o reajuste da tabela do Imposto de Renda, mas alertou para os efeitos nas contas públicas, principalmente para os entes subnacionais.
“Os técnicos do governo e do Parlamento vão construir uma base de cálculo para definir se a medida prevista pelo governo será o bastante para compensar a perda arrecadatória de estados e municípios”, afirmou Lira a jornalistas.
Para o relator do projeto, não há condições políticas para a aprovação se a isenção representar queda significativa de recursos para os orçamentos estaduais e municipais.
Comissão especial e pedido de urgência
O projeto começou a ser analisado por uma comissão especial no final de maio e agora avança para votação em plenário, após o pedido de urgência ser discutido e acolhido por líderes partidários. A expectativa é de que o texto ganhe celeridade no trâmite legislativo, especialmente após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçar, em entrevistas recentes, o compromisso com a correção da tabela do IR.
Como é a tabela do IR atualmente?

Atualmente, a tabela progressiva do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) tem cinco faixas de tributação, com a isenção válida até R$ 2.259,20 mensais. Porém, graças a um desconto automático simplificado de R$ 564,80, ficam efetivamente isentos os contribuintes que ganham até R$ 2.824 por mês — valor equivalente a dois salários mínimos em 2023.
Abaixo, veja como está a tabela atual do IR:
| Faixa salarial mensal | Alíquota |
|---|---|
| Até R$ 2.259,20 | Isento |
| De R$ 2.259,21 a R$ 2.826,65 | 7,5% |
| De R$ 2.826,66 a R$ 3.751,05 | 15% |
| De R$ 3.751,06 a R$ 4.664,68 | 22,5% |
| Acima de R$ 4.664,68 | 27,5% |
O que muda com a nova proposta?
A proposta do governo eleva a faixa de isenção para R$ 5 mil mensais, o que beneficiaria diretamente os trabalhadores de renda baixa e média, além de promover uma redução indireta para quem ganha um pouco mais, com alívio tributário proporcional.
Quem será beneficiado?
Estima-se que a nova faixa de isenção atinja cerca de 10 milhões de contribuintes, retirando-os da obrigatoriedade de declarar e pagar o imposto. A medida deve também gerar alívio para rendas de até R$ 7 mil, devido ao efeito cascata da nova faixa.
Segundo dados da Receita Federal, mais de 30% dos contribuintes declarantes ganham até R$ 5 mil. Com a mudança, esses trabalhadores teriam isenção total ou significativa.
Impacto fiscal
A isenção de IR até R$ 5 mil deve ter custo relevante para a União. Fontes ligadas ao Ministério da Fazenda estimam que a perda arrecadatória pode chegar a R$ 20 bilhões por ano, se nenhuma compensação for adotada.
Esse impacto levanta resistência de governadores e prefeitos, que recebem uma parte do Imposto de Renda por meio do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Por isso, a equipe técnica busca mecanismos de compensação, como ajustes na tributação de dividendos e grandes fortunas, além de revisão de subsídios fiscais.
Etapas até a implementação em 2026
Mesmo com a aprovação esperada na Câmara, o projeto precisa ainda passar pelo Senado Federal, e eventualmente ser sancionado pelo presidente. A previsão do governo é que a vigência comece em 2026, ano em que se encerra o mandato atual e se inicia um novo ciclo orçamentário.
Esse prazo é estratégico para que o governo tenha tempo de reequilibrar as contas públicas, evitar rombos fiscais e construir apoio político para a reforma tributária ampla, que segue em tramitação paralela.
Reações no Congresso e na sociedade
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Apoio da base aliada
Parlamentares da base governista apoiam a proposta como uma medida de justiça social. Argumentam que a tabela do IR está defasada há anos, prejudicando especialmente os trabalhadores com renda mais baixa, que acabam sendo tributados de forma desproporcional.
“Atualizar a tabela do IR é uma forma de fazer justiça fiscal. O trabalhador não pode ser penalizado por reajustes salariais que mal cobrem a inflação”, declarou a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR).
Críticas de oposição e de estados
Parte da oposição concorda com a medida, mas critica a falta de clareza sobre a compensação fiscal. Já governadores e prefeitos alertam para a possibilidade de perda de recursos essenciais para a educação, saúde e segurança pública.
Além disso, especialistas em finanças públicas afirmam que, para garantir equilíbrio fiscal, será necessário aumentar a carga tributária sobre a renda mais alta ou revisar subsídios fiscais que drenam a arrecadação da União.
A tabela do IR e sua defasagem histórica

A última atualização significativa da tabela do IR ocorreu em 2015. Desde então, a inflação corroeu o poder de compra do contribuinte, fazendo com que milhões de pessoas passassem a pagar imposto mesmo sem aumento real de renda.
Estudo do Sindicato dos Auditores da Receita Federal (Sindifisco Nacional) mostra que, se a tabela fosse corrigida integralmente pela inflação acumulada desde 1996, a faixa de isenção hoje seria superior a R$ 5.000.
Por isso, a proposta do governo de alinhar a isenção à realidade inflacionária dos últimos anos é vista como um passo necessário para restaurar o equilíbrio e a equidade na cobrança do imposto.
Considerações finais
O projeto de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil representa uma mudança significativa no sistema tributário brasileiro, com impacto direto na renda de milhões de trabalhadores. Ao mesmo tempo em que traz alívio financeiro para a população de baixa e média renda, a proposta coloca em debate o equilíbrio fiscal da União, estados e municípios.
Com previsão de votação na Câmara ainda em junho e vigência marcada para 2026, o texto deverá ser um dos pilares do debate sobre justiça tributária, responsabilidade fiscal e reforma da arrecadação no Brasil.
A decisão final caberá ao Congresso Nacional, mas os desdobramentos dessa medida já começam a movimentar parlamentares, economistas e contribuintes, que veem na proposta uma oportunidade de reparar a defasagem histórica da tabela do IR e tornar o sistema tributário mais progressivo e justo.
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