O governo federal iniciou quinta-feira (24) os pagamentos referentes ao ressarcimento de descontos ilegais aplicados em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.
Aposentado com desconto indevido no INSS: compensa fazer o acordo?
Governo Lula inicia ressarcimento de descontos ilegais do INSS. Saiba se vale a pena aceitar o acordo ou manter ação judicial.
A medida, validada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), faz parte de um acordo proposto pelo governo Lula (PT), que exige que o beneficiário desista de qualquer ação judicial em andamento para receber o valor diretamente na conta.
A decisão gerou debate entre advogados e especialistas em direito previdenciário, levantando a dúvida: vale a pena aceitar o acordo do INSS ou buscar a Justiça para obter uma compensação maior?
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O que motivou o ressarcimento

Entre março de 2020 e março de 2025, milhões de segurados foram afetados por descontos ilegais realizados por entidades associativas e empresas terceirizadas em parceria com o sistema previdenciário. Após investigação e pressão de órgãos de defesa do consumidor, o governo decidiu abrir um crédito extraordinário de R$ 3,31 bilhões para indenizar os prejudicados.
Segundo o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, os pagamentos estão sendo realizados diretamente na conta bancária onde os aposentados e pensionistas recebem seus benefícios, com a promessa de atender 100 mil pessoas por dia.
O que o acordo prevê
Para receber os valores, o segurado precisa aderir ao acordo disponível no aplicativo Meu INSS. Essa adesão implica abrir mão de qualquer ação judicial relacionada aos descontos indevidos. Além disso, não é possível receber valores adicionais por danos morais ou restituições em dobro, direitos que só podem ser conquistados por via judicial.
Como funciona a adesão
O passo a passo divulgado pelo INSS é o seguinte:
- Acessar o aplicativo ou site Meu INSS com CPF e senha;
- Entrar na aba Consultar Pedidos e selecionar Cumprir Exigência;
- Ler o comentário mais recente e marcar “Sim” no campo Aceito receber;
- Confirmar e enviar a solicitação.
A partir desse momento, o beneficiário deve apenas aguardar o depósito em sua conta. A adesão é gratuita e não exige envio de novos documentos.
Vale a pena aceitar o acordo?
Segundo especialistas, a escolha entre aceitar o acordo ou continuar na Justiça depende de uma análise individual de cada caso.
Diferença de valores
O artigo 940 do Código Civil prevê que, em casos de cobrança indevida e comprovada má-fé, o consumidor pode receber o dobro do valor descontado, além de indenização por danos morais.
Para exemplificar, o advogado previdenciário Rômulo Saraiva cita:
“Se um aposentado teve R$ 1.000 descontados, pelo acordo do INSS ele receberia R$ 1.000 mais correção monetária. Pela via judicial, há chance de receber R$ 2.000 mais danos morais, que podem variar entre R$ 3.000 e R$ 10.000. Ao final, o valor líquido pode chegar a R$ 4.900, mesmo com os honorários advocatícios.”
Em outras palavras, quem tem condições de esperar alguns anos pode receber um valor muito maior pela Justiça.
O que dizem os advogados previdenciários
O advogado Taunai Moreira, do escritório Bruno Boris Advogados, ressalta que a Justiça é o único caminho para obter danos morais e restituição em dobro:
“Administrativamente, o INSS só devolve o valor simples. Para obter algo além disso, é preciso uma sentença judicial.”
Saraiva também critica a forma como o acordo foi fechado:
“O INSS ofertou um acordo ruim. O estranho foi a OAB, MPF e DPU concordarem de imediato com esse formato, o que cria um precedente perigoso para futuros casos de fraude envolvendo o Estado.”
Quando a Justiça compensa

Juizado Especial Federal
Ações de ressarcimento com valores menores tramitam no Juizado Especial Federal, uma espécie de tribunal simplificado para causas de até 60 salários mínimos. O processo costuma levar cerca de dois anos, dependendo da região, mas não há custas processuais iniciais, o que torna essa via mais acessível.
Para os advogados, vale a pena ingressar na Justiça se os valores descontados forem consideráveis, já que o retorno financeiro pode ser até cinco vezes maior do que o oferecido pelo acordo administrativo.
Vantagens do acordo
Apesar das críticas, o acordo tem vantagens para quem precisa do dinheiro imediatamente. Além da rapidez no pagamento, há a certeza de que o valor será depositado em uma única parcela.
“Toda ação envolve riscos. Com o acordo, o segurado sabe exatamente quanto e quando receberá. Quem aderir primeiro, recebe antes”, afirma o advogado Taunai Moreira.
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Outra vantagem é que, mesmo quem já entrou com ação, pode desistir e aderir ao acordo, desde que ainda não tenha recebido valores via decisão judicial.
Como contestar os descontos ilegais
O INSS mantém canais de contestação ativos até 14 de novembro de 2025. Os beneficiários podem fazer a contestação por:
- Aplicativo Meu INSS;
- Central 135;
- Agências dos Correios em mais de 5 mil municípios.
Passo a passo da contestação
- Entrar no aplicativo Meu INSS;
- Informar CPF e senha;
- Clicar em Do que você precisa?;
- Digitar consultar descontos de entidades;
- Marcar se os descontos foram autorizados ou não;
- Confirmar as informações e enviar.
Alguns grupos, como indígenas, quilombolas e maiores de 80 anos com descontos a partir de março de 2024, têm contestação automática.
De onde vem o dinheiro do ressarcimento?
Para viabilizar os pagamentos, o presidente Lula assinou uma medida provisória (MP) abrindo um crédito extraordinário de R$ 3,31 bilhões. Como esse recurso não estava previsto no orçamento, foi necessária a autorização do Congresso Nacional e a homologação do STF.
O ministro Wolney Queiroz enfatizou que o governo buscará responsabilizar judicialmente as entidades que realizaram os descontos ilegais, a fim de reaver os valores adiantados pelo Tesouro Nacional.
Alertas contra golpes

O INSS reforça que não envia links nem solicita dados pessoais por telefone, SMS ou WhatsApp sobre o ressarcimento. Golpistas podem tentar se aproveitar da situação para aplicar fraudes, portanto, é fundamental que os beneficiários usem apenas os canais oficiais, como o aplicativo Meu INSS e a Central 135.
Considerações finais
A decisão entre aceitar o acordo do INSS ou buscar a Justiça depende principalmente do valor descontado, da urgência financeira e da disposição para esperar por uma possível ação judicial. Para quem precisa de liquidez imediata, o acordo é uma saída prática, com pagamento rápido e seguro.
Porém, quem busca uma compensação maior e está disposto a aguardar pode obter valores significativamente superiores na Justiça, incluindo danos morais e restituição em dobro.
Com a medida provisória já em vigor, mais de 1 milhão de aposentados e pensionistas já aderiram ao ressarcimento, mas especialistas recomendam avaliar cada caso com cuidado e, se possível, consultar um advogado para tomar a melhor decisão.
