A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, por 14 votos a 12, a inclusão do voto impresso no projeto de reforma do Código Eleitoral. A medida foi incorporada por meio de uma emenda apresentada pelo senador Esperidião Amin (PP-SC).
Eleições 2026 terá voto impresso? Entenda
CCJ do Senado aprova voto impresso em reforma eleitoral, mas especialistas veem inviabilidade. Proposta ainda vai ao plenário.
Apesar do avanço, especialistas em direito eleitoral avaliam que a proposta dificilmente prosperará no Congresso e, ainda que fosse aprovada, enfrenta barreiras jurídicas e operacionais para ser aplicada já nas eleições de 2026.
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O caminho da proposta no Congresso

A emenda aprovada na CCJ seguirá agora para votação no plenário do Senado. Caso seja confirmada, o texto retornará à Câmara dos Deputados, uma vez que os senadores fizeram alterações significativas em relação ao projeto aprovado pelos deputados em 2021.
Somente após a análise da Câmara, a reforma eleitoral poderá seguir para sanção ou veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Contudo, o calendário é apertado: mudanças nas regras eleitorais só valem para as eleições seguintes se aprovadas até um ano antes do pleito, ou seja, até 3 de outubro de 2025.
Especialistas apontam baixa viabilidade
Para o professor Fernando Neisser, da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), a iniciativa representa uma tentativa já superada de discussão.
“Não consigo ver qualquer possibilidade de aprovação, é um requentamento de pauta”, avaliou.
Ele acrescenta que, mesmo que o Senado avance, haveria dificuldades orçamentárias e logísticas para que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) implementasse a mudança a tempo das eleições de 2026.
Guilherme Barcelos, especialista em direito eleitoral, também considera a medida inexequível.
“Tem a questão da falta de apoio, de tempo e ainda há o aspecto operacional. Seria impossível executar em tão pouco prazo”, afirmou.
Histórico de tentativas frustradas
A proposta de instituir o voto impresso não é inédita. Em 2021, a Câmara dos Deputados analisou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o tema. Apesar do apoio de parlamentares bolsonaristas e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o texto não alcançou os 308 votos necessários para aprovação, ficando limitado a 229 apoios.
Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) já se manifestou contra o voto impresso em duas ocasiões. Em 2013 e em 2020, a Corte considerou a medida inconstitucional por colocar em risco o sigilo e a liberdade de escolha do eleitor. Na decisão mais recente, os ministros foram unânimes ao derrubar o dispositivo.
Como funcionaria o voto impresso
De acordo com a emenda aprovada na CCJ, a urna eletrônica passaria a imprimir cada voto registrado. O comprovante, sem contato manual do eleitor, seria depositado automaticamente em uma urna física lacrada. O objetivo declarado é oferecer um mecanismo de auditoria adicional, permitindo a conferência dos votos em caso de questionamentos.
Divergência com o relator da reforma
O relator da proposta, senador Marcelo Castro (PP-PI), havia rejeitado a inclusão do voto impresso no parecer original. Ele argumenta que a urna eletrônica, usada desde 1996, já é reconhecida como segura internacionalmente e que não há evidências de fraude que justifiquem a alteração.
Após a aprovação em comissão, Castro reforçou sua descrença na viabilidade do projeto.
“Foi o mesmíssimo texto que já foi aprovado em 2015 no Congresso Nacional e que o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional. Quero crer que estamos incorrendo em uma inconstitucionalidade pela segunda vez”, declarou.
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Risco de judicialização

Mesmo que a proposta avance no Senado, a possibilidade de judicialização é quase certa. Juristas destacam que o Supremo já consolidou entendimento de que o voto impresso fere princípios constitucionais. Assim, caso aprovado, o tema provavelmente voltaria a ser questionado na Corte.
Além do aspecto jurídico, a implementação demandaria um alto investimento financeiro. O TSE precisaria adaptar mais de 500 mil urnas eletrônicas em funcionamento no país, além de elaborar novos procedimentos de apuração e auditoria.
O impacto político da discussão
A volta do debate sobre o voto impresso ocorre em um momento em que setores da política tentam resgatar bandeiras que marcaram os últimos anos. A proposta tem apelo junto a grupos que questionam a lisura do sistema eleitoral, mas enfrenta resistência da maior parte do Congresso e das instituições responsáveis pela organização das eleições.
Especialistas veem a reabertura do tema como estratégia política, sem reais condições de prosperar. Para eles, a insistência no voto impresso pode reforçar narrativas de desconfiança no processo eleitoral, mas dificilmente terá efeitos práticos diante do histórico de rejeição no Legislativo e no Judiciário.
Próximos passos
A emenda aprovada segue em regime de urgência para o plenário do Senado, dispensando a análise por outras comissões. Ainda não há data definida para votação. Caso seja aprovada, o texto retorna à Câmara, que terá a palavra final sobre a manutenção ou retirada da medida do projeto de reforma eleitoral.
Enquanto isso, cresce a expectativa em torno de como os parlamentares irão se posicionar. Com o prazo constitucional se aproximando e a resistência de diferentes setores, a tendência é que o voto impresso não avance além da discussão atual.
Imagem: Tânia Rego / Agência Brasil

