O setor privado dos Estados Unidos intensificou a pressão sobre a Casa Branca para rever o tarifaço aplicado por Donald Trump contra produtos brasileiros. Em manifestações enviadas ao Escritório de Representação Comercial dos EUA (USTR), companhias e associações alertaram que manter ou ampliar as barreiras pode encarecer produtos no mercado americano e, ao mesmo tempo, estimular uma aproximação maior entre o Brasil e a China.
Setor privado americano pede fim das tarifas ao Brasil para evitar aproximação com a China
Empresas dos EUA pressionam Casa Branca por fim de tarifas ao Brasil e alertam para risco de maior aproximação com a China.
O movimento ocorre dentro da consulta pública aberta pelo USTR, relacionada à Seção 301, que permite aplicar medidas punitivas a países considerados desleais no comércio internacional. O prazo para envio de contribuições terminou em 18 de agosto de 2025.
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Daimler Truck: Brasil é peça-chave da cadeia produtiva

Um dos depoimentos mais contundentes foi o da Daimler Truck North America, que controla cerca de 40% do mercado de caminhões pesados e superpesados nos Estados Unidos.
A empresa revelou que depende de 19 fornecedores brasileiros de peças e componentes, alguns deles pertencentes a grupos americanos que expandiram operações para o Brasil. Segundo a Daimler, esses fornecedores estão diretamente prejudicados pelo tarifaço.
Mais do que o aspecto econômico, a companhia destacou a relevância geopolítica da decisão:
“Adotar uma postura mais agressiva com o Brasil reforçará seu engajamento com outros países como forma de contrabalancear o prejuízo provocado por uma resposta dura dos Estados Unidos. Entre esses riscos está uma presença mais ampla da China no Brasil”, afirmou a Daimler.
Na avaliação da montadora, o caminho mais racional seria trabalhar junto ao Brasil em áreas passíveis de negociação, em vez de ampliar tarifas.
Cosméticos e cuidados pessoais: risco de perder competitividade
Outro setor a manifestar preocupação foi o de cosméticos e cuidados pessoais, representado pelo National Care Products Council.
A vice-presidente da entidade, Natalie Obermann, afirmou que os insumos vindos do Brasil são indispensáveis para a qualidade e a inovação dos produtos americanos.
“Esses insumos são essenciais para manter nossa qualidade, inovação e competitividade global”, declarou.
Obermann pediu que a Casa Branca negocie ativamente com o governo brasileiro para resolver pendências comerciais e regulatórias. Em ofício ao USTR, foi enfática:
“Se medidas comerciais [tarifas] forem realmente necessárias, nós respeitosamente conclamamos o USTR a adotar remédios proporcionais que excluam cosméticos, produtos de cuidados pessoais e seus insumos”.
Segundo ela, medidas amplas podem restringir ainda mais o acesso ao mercado e provocar tarifas recíprocas, com impacto desproporcional sobre exportadores dos Estados Unidos.
Madeira tropical: impacto sobre cadeias legais e sustentáveis
O setor madeireiro também se mobilizou. O empresário Stephen Popp, presidente da Popp Forest Products, destacou que importa madeira tropical certificada do Brasil para atender serrarias e segmentos de infraestrutura nos EUA.
Popp reconheceu que o USTR levantou preocupações sobre desmatamento ilegal no Brasil, mas enfatizou que os fornecedores brasileiros adotam protocolos de certificação rigorosos e auditorias independentes.
“As madeiras tropicais que importamos são utilizadas por serrarias nacionais e em setores de infraestrutura dos EUA, em que desempenho, durabilidade e sustentabilidade são essenciais”, explicou.
Ele alertou que tarifas generalizadas podem interromper relações comerciais responsáveis e limitar a oferta de materiais de origem legal.
“Se o USTR prosseguir com ações retaliatórias, apoiamos fortemente uma isenção total para o código HTS 4407.29.02, que abrange as madeiras nobres que importamos. Isso ajudaria a garantir que as cadeias de suprimentos legais verificadas permaneçam viáveis”, afirmou Popp.
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Geopolítica no centro do debate
As manifestações do setor privado evidenciam um ponto comum: além dos impactos econômicos diretos, existe a preocupação com a dimensão geopolítica.
A percepção das empresas é que medidas comerciais excessivas contra o Brasil podem acelerar o estreitamento da parceria Brasil-China, especialmente em áreas como tecnologia, energia, agronegócio e infraestrutura.
A Daimler Truck foi explícita ao dizer que uma política dura contra Brasília pode “reforçar o engajamento do Brasil com outros países”, em clara referência a Pequim.
Governo Biden diante de um dilema
A Casa Branca, por meio do USTR, terá de decidir se mantém as tarifas herdadas da administração Trump ou se promove ajustes para acomodar os pedidos do setor privado.
Especialistas em comércio internacional apontam que a decisão será delicada. Por um lado, o governo Biden enfrenta pressões internas para preservar empregos e proteger indústrias locais. Por outro, há o risco de desgaste diplomático com o Brasil, um parceiro estratégico no continente, e de favorecer a expansão da influência chinesa na América Latina.
Brasil no tabuleiro global

O Brasil, por sua vez, tem buscado equilibrar relações comerciais com diferentes blocos. O governo Lula reforçou os laços com Washington em áreas como energia limpa e meio ambiente, mas também manteve proximidade com a China, principal destino das exportações brasileiras.
Nesse cenário, medidas tarifárias punitivas dos EUA podem ser vistas em Brasília como um sinal de distanciamento, abrindo ainda mais espaço para a atuação de Pequim no país.
Com informações de: CNN Brasil
