Shopee domina nas favelas e se torna a plataforma mais usada, aponta pesquisa
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A Shopee se consolidou como a plataforma de e-commerce mais popular entre os moradores das favelas brasileiras.
Segundo uma pesquisa inédita do Instituto Data Favela, o aplicativo de origem singapurense superou concorrentes como o Mercado Livre e a Temu, tornando-se o principal canal de compras online em comunidades de todo o país.
A preferência ocorre mesmo diante de dificuldades logísticas, como atrasos nas entregas ou dificuldades de localização dos endereços.
A pesquisa ouviu 16,5 mil moradores em favelas espalhadas por todas as regiões do Brasil e revelou dados surpreendentes sobre os hábitos de consumo e o potencial de mercado das periferias.
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Potencial de consumo nas favelas

Dados que chamam atenção
Segundo o levantamento, o Brasil possui cerca de 12,3 mil favelas, com 17 milhões de habitantes e 6,6 milhões de domicílios — o que corresponde a 8% das casas brasileiras.
Essa parcela da população movimenta uma renda anual estimada em R$ 300 bilhões, número que coloca as favelas como um dos principais motores de consumo do país.
Além disso, 60% dos moradores dessas comunidades realizam compras online regularmente, evidenciando uma transformação digital acelerada nas periferias.
Por que a Shopee lidera nas favelas?
Portfólio voltado ao desejo do público
Entre os principais motivos para a liderança da Shopee está a forte presença de itens de vestuário no catálogo da plataforma. Segundo o fundador do Data Favela, Renato Meirelles, essa oferta se alinha melhor ao desejo de compra dos moradores, especialmente quando comparada à concorrência:
“A posição da Shopee no ranking tem a ver com portfólio, mais ligado a roupas do que o Mercado Livre, com a Shein logo ali próxima”, explica Meirelles.
Vestuário, perfumes e beleza: os itens mais desejados
A pesquisa revela que:
- 70% pretendem comprar roupas nos próximos 6 meses;
- 60% planejam adquirir perfumes;
- 51% querem produtos de beleza.
Esses números evidenciam uma busca por itens que representem não apenas necessidade, mas status, autoestima e conquista pessoal.
Gamificação como estratégia de engajamento
Um diferencial da Shopee
Outro fator apontado como chave para o sucesso da Shopee é a gamificação da experiência de compra. Segundo o professor de marketing da FGV, Roberto Kanter, a plataforma usa estratégias que envolvem o público de forma lúdica:
“A Shopee traz um lado lúdico que as pessoas adoram. A presença de jogos no aplicativo, com distribuição de cupons, cria um senso de recompensa contínua”, afirma Kanter.
Essa abordagem tem raízes diretas na experiência de seu criador, Forrest Li, também fundador da Garena, empresa responsável por jogos como o Free Fire, muito popular entre jovens moradores das favelas.
Dados de mercado reforçam a liderança
Um estudo do banco Citi divulgado em janeiro já apontava a Shopee na liderança de usuários ativos mensais no Brasil, com 50 milhões de acessos em dezembro de 2024. Em seguida, vieram:
- Temu, com 39 milhões;
- Mercado Livre, com 37 milhões.
Esses dados confirmam a tendência de crescimento da Shopee, especialmente em nichos populares e periféricos.
Desafios logísticos das favelas
Entregas continuam sendo um obstáculo
Apesar da popularidade, 40% dos entrevistados ainda não compram online, principalmente por problemas de entrega. Entre os relatos estão:
- Atrasos constantes;
- Encomendas perdidas;
- Dificuldade das transportadoras em localizar os endereços.
Isso evidencia uma lacuna de infraestrutura que ainda precisa ser resolvida para que o e-commerce atinja todo seu potencial nas periferias.
Consumo como símbolo de conquista
Economia com propósito
O consumo nas favelas vai além do simples acesso a produtos. Ele está profundamente ligado a questões emocionais e sociais. De acordo com a pesquisa:
- 78% dos moradores dizem se esforçar para comprar o que não puderam ter na infância;
- 85% afirmam sentir realização ao atingir metas de consumo.
Esse comportamento reforça o papel do consumo como ferramenta de autoestima e ascensão social, principalmente entre as classes C e D.
Dor da exclusão
Por outro lado, o mesmo levantamento revela que:
- 50% já se sentiram humilhados por não possuírem itens “da moda”;
- A pressão social em torno de marcas e tendências é constante.
Para Kanter, o consumo cumpre função compensatória:
“É a grande diversão das classes C e D. Uma maneira de transformar dificuldades em satisfação pessoal.”
Comparativo entre as plataformas
| Plataforma | Pontos fortes | Pontos fracos |
|---|---|---|
| Shopee | Variedade, preços baixos, gamificação | Problemas de entrega em algumas áreas |
| Mercado Livre | Entrega mais rápida e ampla rede | Preços mais altos, catálogo menos voltado a moda |
| Temu | Preços agressivos e novidades | Ainda é nova e pouco conhecida |
| Shein | Moda acessível, foco em vestuário | Opções mais limitadas fora da moda |
Perspectivas futuras
Oportunidade para o mercado e para as favelas
O estudo do Data Favela abre os olhos do mercado para uma realidade antes negligenciada: o poder de consumo das periferias.
Com estratégias certas — como logística adaptada, linguagem acessível e respeito ao contexto social — marcas podem conquistar um público fiel, engajado e cada vez mais digitalizado. A Shopee mostra que entender o comportamento das comunidades e adaptar-se a ele pode ser a chave para o sucesso.
Conclusão
A ascensão da Shopee nas favelas brasileiras é mais do que um dado de mercado: é um reflexo das transformações sociais e digitais que ocorrem nas periferias.
A combinação entre portfólio atrativo, estratégias de gamificação e preços acessíveis posicionou a plataforma como a queridinha dos moradores das favelas, mesmo diante de desafios estruturais.
Com 17 milhões de consumidores em potencial e R$ 300 bilhões em movimentação anual, ignorar esse público é deixar de investir no futuro do e-commerce nacional.
Imagem: Freepik / Edição: Seu Crédito Digital