‘Criptos de dólar’ já movimentam mais que Bitcoin: descubra para que servem

As chamadas stablecoins, também conhecidas como “criptos de dólar, são moedas digitais lastreadas em ativos estáveis, como o próprio dólar americano.

Diferentemente do Bitcoin e de outras criptomoedas voláteis, elas foram criadas com o propósito de manter um valor constante, refletindo diretamente o ativo ao qual estão atreladas.

Nos últimos anos, esses ativos se consolidaram como peças centrais no universo dos criptoativos. Com uma capitalização de mercado superior a US$ 270 bilhões, as stablecoins já movimentam diariamente mais do que o próprio Bitcoin, segundo dados de empresas como a Coinbase e Chainalysis.

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Domínio das criptos de dólar

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Imagem: Lukas Gojda / shutterstock.com

Atualmente, 90% das stablecoins emitidas no mundo têm como referência o dólar, daí o apelido informal “cripto de dólar”. As duas maiores são:

  • USDT (Tether) — A mais negociada globalmente, usada amplamente em transações internacionais.
  • USDC (Circle) — Conhecida por seu foco em conformidade regulatória.

Esses ativos já superaram, em volume diário de negociação, o Bitcoin, considerado o mais famoso criptoativo. Só em dezembro de 2024, as stablecoins movimentaram US$ 720 bilhões.

Por que as stablecoins estão ganhando força?

Meio de pagamento eficiente

As stablecoins têm se mostrado alternativas ágeis e baratas para transferências internacionais, principalmente porque:

  • Não exigem o sistema bancário tradicional.
  • Estão isentas de IOF em remessas do Brasil.
  • São quase instantâneas, mesmo entre continentes.

Segundo André Portilho, sócio do BTG Pactual, as stablecoins representam mais uma etapa na evolução do dinheiro: da moeda metálica ao digital tokenizado.

Reserva de valor e proteção cambial

Em países com moedas fracas ou alta inflação, como Venezuela, Argentina e partes da África, manter patrimônio em stablecoins é uma forma simples de acessar o dólar e preservar o poder de compra.

No Brasil, essas moedas digitais já respondem por 70% das transações em exchanges, segundo a Chainalysis.

Stablecoins no Brasil: crescimento acelerado

Adoção crescente por bancos e plataformas

O Brasil está na vanguarda do uso de stablecoins na América Latina. Entre os principais marcos:

  • BTG DOL: stablecoin do BTG Pactual, lançada em 2023.
  • Itaú: anunciou interesse em lançar sua própria moeda digital.
  • Bitybank: 50% das movimentações da plataforma já ocorrem via stablecoins, alta de 160% em um ano.

Dados da Receita Federal

Em 2023, dados oficiais mostraram que USDT e USDC correspondiam a 86% do volume de transações com criptoativos, enquanto o Bitcoin representava apenas 4%. Desde então, a Receita Federal suspendeu a divulgação mensal dos dados sobre criptomoedas.

Estrutura das stablecoins: como elas funcionam?

O que garante a estabilidade?

As stablecoins são lastreadas em ativos reais. Para cada token de USDT ou USDC emitido, o emissor deve manter 1 dólar em reserva — seja em dinheiro, títulos do Tesouro dos EUA ou outros ativos altamente líquidos.

Tipos de stablecoins

  • Lastreadas em moeda fiduciária (fiat): como USDT, USDC, BRLA (lastreada em real).
  • Colateralizadas por criptoativos: como DAI (baseada em Ethereum).
  • Algorítmicas: que usam algoritmos para controlar a emissão e manter o preço.

Riscos e críticas

Apesar do nome, as stablecoins não são 100% estáveis. Seu valor pode oscilar caso:

  • As reservas não sejam transparentes.
  • Haja perda de confiança na empresa emissora.
  • Faltem regulações claras.

Em junho de 2025, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) declarou que stablecoins são uma “forma ruim de dinheiro” e defendeu a criação de moedas digitais estatais (CBDCs).

Avanço da regulação: Estados Unidos e Brasil

Genius Act: marco legal nos EUA

Aprovado em 2025, o Genius Act obriga emissores de stablecoins a manter:

  • Transparência total das reservas.
  • Relação 1:1 com ativos reais.
  • Auditorias externas regulares.

Segundo analistas, a medida legitima as stablecoins como parte da nova infraestrutura financeira global.

Cenário brasileiro

O Banco Central do Brasil já iniciou consultas públicas sobre stablecoins. Embora o país conte com o Pix como solução de pagamentos instantâneos, especialistas acreditam que stablecoins terão papel complementar, especialmente em remessas e negócios internacionais.

Stablecoin como porta de entrada ao universo cripto

Popularização e uso cotidiano

Para novos investidores, as stablecoins têm sido o primeiro passo no mundo das criptomoedas, por sua:

  • Baixa volatilidade.
  • Facilidade de compra e venda.
  • Exposição direta ao dólar sem burocracia bancária.

No app do Nubank, por exemplo, a USDC já é o segundo criptoativo mais comprado, atrás apenas do Bitcoin.

Impacto global

Empresas como Circle e Tether já detêm mais títulos públicos americanos que países como a Alemanha, demonstrando o impacto sistêmico desses ativos no setor financeiro.

Futuro das stablecoins: tendência ou transformação?

Tokenização da economia

Segundo Portilho, “o dinheiro precisa ser tokenizado para que a tokenização da economia funcione plenamente”. As stablecoins são hoje os principais instrumentos para essa transição.

Papel dos bancos

Instituições como BTG Pactual e Itaú já iniciaram movimentos para integrar stablecoins a seus serviços. O aumento da regulamentação tende a acelerar essa adoção e ampliar o acesso da população a esse novo modelo financeiro.

Considerações finais

As stablecoins deixaram de ser uma novidade de nicho e passaram a cumprir funções reais na economia global, seja como:

  • Meio de pagamento.
  • Reserva de valor.
  • Ferramenta de inclusão financeira.

Com o avanço da regulação e o interesse de grandes bancos e plataformas digitais, as criptos de dólar devem continuar a crescer em volume, relevância e confiança nos próximos anos. O cenário aponta para uma nova era do dinheiro digital, mais acessível e eficiente.

Imagem: Freepik

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