Em um movimento marcante, a empresa de tesouraria de Michael Saylor, agora chamada Strategy (antes MicroStrategy), atingiu US$ 73 bilhões em Bitcoin, consolidando-se como a maior detentora corporativa da criptomoeda.
Mesmo com o bitcoin próximo a máximas históricas — acima de US$ 121 mil — a firma adquiriu mais 4.225 BTC na semana encerrada em 13 de julho, desembolsando US$ 472 milhões a uma média de US$ 111.827 por unidade.
Essa nova compra encerra uma pausa breve no início de julho, retomando o plano de aquisições quase semanais. Agora, com 601.550 BTC em carteira, a Strategy controla cerca de 2,8% de todos os 21 milhões de bitcoins que existirão.
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Estratégia financiada por ações preferenciais e ao mercado
Vendas para alimentar o “bitcoin flywheel”
Para manter suas compras regulares, a Strategy abriu capital por meio de:
- Emissão de ações ordinárias;
- Títulos conversíveis;
- Ações preferenciais perpétuas — “Strike”, “Strife” e “Stride”.
Recentemente, a empresa captou US$ 472 milhões com a venda desses papéis, destinando o montante à aquisição de novos bitcoins . Esse modelo de financiamento se baseia em captar a cada ciclo de alta para reinvestir, criando um loop financeiro que alimenta continuamente o tesouro de BTC.
Riscos da engenharia financeira
Embora a estratégia tenha alavancado ganhos — com o valor de mercado da Strategy ultrapassando US$ 121 bilhões e valorização de suas ações em cerca de 3.300% desde meados de 2020 — críticos apontam riscos claros:
- Dependência da valorização da ação para captar recursos;
- Estrutura de dívida crescente com títulos conversíveis e preferenciais;
- Fragilidade financeira caso o mercado interrompa o financiamento ou haja desvalorização drástica do BTC.
Se os mercados travarem ou os papéis ficarem ilíquidos, a Strategy poderia ser forçada a vender BTC para honrar dividendos e obrigações — o oposto de sua postura “HODL”.
Compras massivas em 2025 reforçam convicção

Aquisições consistentes desde início do ano
A trajetória de aquisições em 2025 foi intensa:
- US$ 1,42 bilhão em abril por 15.355 BTC (~US$ 92.737/méd.);
- Aproximadamente 80.000 BTC adicionados no primeiro trimestre, captados com US$ 7,69 bilhões em novos recursos;
- Em maio, 4.020 BTC (~US$ 427 milhões) adicionados após um recorde semanal de preço;
- Compras menores e contínuas em abril e junho, inclusive 245 BTC durante baixa de mercado.
Esses movimentos mantiveram a Strategy entre 580.000 e 601.550 BTC, reforçando sua posição dominante.
Acúmulo mesmo em preços altos
Apesar da cotação do bitcoin flutuar entre US$ 80.000 e US$ 120.000, a empresa não recuou em suas aquisições. Desde abril, introduziu milhões doláres de BTC em fases de valorização, ignorando a ideia tradicional de comprar apenas em quedas.
Isso demonstra a crença da empresa de que o “bitcoin digital gold” crescerá estruturalmente, justifica Michael Saylor.
Impacto nos resultados e no mercado
Multibilionário potencial de lucro
Devido à forte valorização do BTC, a Strategy deve apresentar, no próximo trimestre, lucros trimestrais multibilionários, segundo projeções de analistas, impulsionados tanto pela alta das criptomoedas quanto por mudanças contábeis que permitem reavaliar os ativos a valor justo .
Ações e ETFs se beneficiam
O movimento de compra e a escalada do BTC provocaram:
- Alta de cerca de 3,7% nas ações da Strategy em sessão recente, com o preço chegando a US$ 450;
- Aumento de interesse em ações correlatas, como Coinbase e Robinhood;
- Cenário impulsionado por expectativa de queda de juros pelo Fed e pela Cifra da Crypto Week no Congresso dos EUA.
Análise crítica: entre visão disruptiva e fragilidade financeira
Diferenças entre bitcoin e software
A Strategy deixou de lado o software empresarial para focar 100% no bitcoin. Isso trouxe resultados extraordinários em valor de mercado, mas também implantou uma dependência total do BTC para viabilizar tanto suas compras quanto o pagamento de dividendos .
Essa dependência torna a estratégia altamente sensível à volatilidade do bitcoin e ao apetite de capitalização pública.
O “Bitcoin flywheel” sob risco
A empresa baseia-se em três bases:
- Ações com preço superior ao NAV;
- Venda contínua de papéis para financiar compras;
- Compra de BTC que sustenta narrativa de crescimento.
Essa estrutura funciona bem em ciclos de alta, mas qualquer travamento no acesso a capital ou queda severa do BTC criará um efeito dominó perigoso.
Perspectivas futuras e pressões do mercado
Expectativa de resultados e liquidez
Investidores aguardam os próximos resultados trimestrais com atenção reforçada para:
- Volume de lucro baseado na valorização do BTC;
- Dívida acumulada e condições de financiamento;
- Capacidade de continuar o “flywheel” sem comprometer liquidez.
Avaliação de sustentabilidade
Especialistas alertam que a Strategy precisa constantemente captar capital e manter o BTC valorizado para cumprir dividendos. Um cenário oposto poderia gerar liquidações forçadas, revertendo o modelo “buy and HODL”.
Conclusão: visão ambiciosa, mas exposta

A Strategy de Michael Saylor transformou-se no maior tesouro corporativo de BTC do mundo, com 601.550 bitcoins, cerca de US$ 73 bilhões, sustentado por uma estratégia agressiva de compras e financiamentos combinados de ações e títulos.
Esse modelo impulsionou ganhos expressivos, mas cria riscos consideráveis — especialmente se o preço do bitcoin retroceder ou o acesso ao mercado de capitais for restringido.
No estágio atual, a Strategy representa tanto a expressão máxima da confiança institucional no BTC quanto o exemplo mais evidente de uma empresa que coloca sua sobrevivência na sustentabilidade de um único ativo.
