Tarifaço completa 1 mês: quais são as medidas de apoio e defesa adotadas?
No sábado, 6 de setembro de 2025, o tarifaço imposto pelos Estados Unidos às exportações brasileiras completa um mês em vigor. Desde então, o cenário econômico e diplomático entre os dois países se intensificou, com tentativas frustradas de negociação, manifestações de defesa da soberania nacional e medidas emergenciais de apoio a empresas exportadoras afetadas.
A tarifa adicional de 50% sobre produtos brasileiros foi anunciada em 9 de julho pelo presidente norte-americano, Donald Trump, em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e divulgada em suas redes sociais. A justificativa oficial foi o déficit comercial dos EUA e o suposto tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.
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O tarifaço em detalhes
Exceções e alcance da medida
A ordem executiva assinada por Trump entrou em vigor em 6 de agosto de 2025. Apesar da taxação máxima de 50%, cerca de 700 produtos foram isentos da tarifa extra, permanecendo com a tarifa anterior de 10%. Entre eles:
- Suco e polpa de laranja
- Aeronaves civis, motores e peças (beneficiando diretamente a Embraer)
- Fertilizantes e combustíveis
- Minérios e celulose
- Metais preciosos e energia
Esses produtos representam 44,6% das exportações brasileiras para os EUA.
Produtos atingidos em cheio
- 35,9% das exportações brasileiras sofrem o tarifaço “cheio” (10% de abril + 40% adicionais).
- 19,5% estão sujeitas a tarifas específicas sob justificativa de segurança nacional, como autopeças, automóveis, aço, alumínio e cobre.
Segundo cálculos do governo, 3,3% do total das exportações brasileiras são diretamente impactadas pelo tarifaço.
Reação do governo brasileiro
Defesa da soberania nacional
Desde o início da crise, o governo brasileiro tem buscado combinar diplomacia e firmeza. O presidente Lula rebateu publicamente as acusações de Trump:
“Ele resolveu contar algumas mentiras sobre o Brasil, e nós estamos desmentindo. O Brasil não aceitará desaforo, ofensas nem petulância de ninguém”, afirmou em evento no Recife.
Em reunião ministerial no fim de agosto, Lula reforçou a orientação para que todos os ministérios defendam a soberania nacional nos fóruns internacionais.
Atuação diplomática
- Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, reuniu-se em Brasília com Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada americana.
- A embaixadora Maria Luiza Viotti, em Washington, articulou junto ao Congresso e à Casa Branca a lista de isenções.
- O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tentou agendar encontro com o secretário do Tesouro dos EUA, mas a reunião foi cancelada sob alegação de “falta de agenda”.
OMC e Lei da Reciprocidade
Ação internacional
Em 6 de agosto, o Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando violação de compromissos multilaterais. O Itamaraty classificou a medida como uma “violação flagrante” das regras da entidade.
Contramedidas internas
No plano doméstico, o governo invocou a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada em abril, que permite adotar tarifas retaliatórias contra países que imponham barreiras abusivas ao Brasil. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) iniciou o processo de avaliação de medidas equivalentes.
Impactos econômicos
Setores mais prejudicados
Os efeitos do tarifaço são sentidos de forma desigual:
- Ceará: decretou situação de emergência, já que mais de 90% das exportações ao mercado americano foram atingidas, incluindo siderurgia, frutas, pescados e pás eólicas.
- Vale do São Francisco (PE): produtores de manga e uva temem prejuízos, com 2,5 mil contêineres de manga e 700 de uva aguardando destino alternativo.
- Franca (SP): indústria calçadista, que vende até 100% da produção para os EUA, teme demissões em massa.
Queda nas exportações
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC):
- Em agosto, as exportações para os EUA caíram 18,5% frente ao mesmo mês de 2024.
- Produtos não incluídos no tarifaço, como minério de ferro e aviões, também caíram (100% e 84,9% respectivamente), possivelmente por antecipação de embarques em julho.
- Para outros mercados, como China e Argentina, houve crescimento, garantindo saldo positivo de US$ 6,1 bilhões na balança comercial de agosto.
Plano Brasil Soberano: apoio às empresas
Para mitigar os impactos, o governo lançou em 13 de agosto o Plano Brasil Soberano, com medidas emergenciais para o setor produtivo:
- Linhas de crédito de R$ 30 bilhões, com juros reduzidos e prioridade a empresas mais afetadas.
- Prorrogação da suspensão de tributos para exportadores.
- Ampliação da restituição de tributos federais.
- Compras públicas de alimentos e insumos para absorver a produção que perdeu espaço no mercado externo.
Visão de especialistas
José Niemeyer, Ibmec-RJ
O professor destacou que o Brasil adotou uma postura institucional e negociadora, evitando confronto direto. Para ele, a atuação do vice-presidente Alckmin aproximou o Brasil “das estruturas do Estado norte-americano e da Casa Branca”.
Lia Valls Pereira, UERJ/FGV
A economista aponta que a queda nas exportações de agosto já é reflexo do tarifaço, após exportadores anteciparem embarques em julho. Para ela, alguns setores podem diversificar mercados, enquanto outros, como sebo bovino, dependem fortemente dos EUA.
Matheus Dias, Ibre/FGV
Segundo ele, o tarifaço não teve impacto significativo na inflação brasileira, graças à lista de isenções de 700 produtos. “Caso esses produtos fossem taxados, haveria realocação de fluxos comerciais, com efeito maior nos preços internos”, explicou.
Perspectivas futuras
Negociações em aberto
Apesar das tensões, analistas defendem que as negociações devem continuar, tanto bilateralmente quanto em fóruns multilaterais como a OMC.
Diversificação de mercados
O episódio reforça a necessidade de o Brasil ampliar parcerias comerciais com a União Europeia, Ásia e países da América Latina, reduzindo a dependência do mercado norte-americano.
Política interna e geopolítica
A crise escancarou também a conexão entre a política norte-americana e os desdobramentos internos do Brasil. O indiciamento de Jair Bolsonaro e de seu filho Eduardo, apontado como articulador no exterior, mostra que o tarifaço transcende a economia e atinge o campo político e institucional.
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