Telas no carro podem distrair mais que álcool ou maconha, diz estudo

Com a crescente digitalização dos automóveis, telas sensíveis ao toque, painéis multimídia e comandos virtuais tornaram-se padrão nos modelos mais recentes. Vendidas como símbolos de modernidade, conectividade e conforto, essas interfaces agora são alvo de uma preocupação crescente entre especialistas em segurança viária: a distração provocada por seu uso pode ser mais perigosa do que dirigir sob efeito de álcool ou de substâncias psicoativas como a maconha.

Um estudo recente realizado pelo IAM RoadSmart, principal organização independente de segurança no trânsito do Reino Unido, mostrou que o tempo de reação de motoristas que interagem com telas digitais durante a condução é significativamente maior do que o de motoristas sob influência de álcool ou maconha. Os resultados acendem um alerta global sobre os riscos escondidos dentro da própria cabine.

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O estudo que comparou distrações ao volante

Metodologia utilizada

Para realizar o estudo, pesquisadores simularam situações reais de condução em ambiente controlado, utilizando motoristas com diferentes níveis de exposição a distrações. Foram analisados três grupos: motoristas sóbrios, motoristas sob influência controlada de álcool ou maconha e motoristas que utilizavam telas digitais no painel do veículo durante a simulação.

A conclusão foi clara: os condutores que interagiam com as telas demoravam mais para reagir a estímulos inesperados do que os que haviam consumido álcool dentro do limite legal do Reino Unido (0,08% de álcool no sangue) ou que haviam usado pequenas doses de cannabis.

Dados alarmantes

Em média, motoristas que manuseavam telas durante a condução apresentaram um tempo de reação 57% mais lento do que o grupo de controle. Já aqueles sob efeito de álcool apresentaram lentidão de 12%, e os que haviam consumido cannabis, cerca de 21%.

Além disso, esses motoristas com foco nas telas também demonstraram desvio lateral mais acentuado na pista e maior tendência a pisar bruscamente no freio ou manter distância insegura do carro à frente.

Por que as telas distraem tanto?

Excesso de funcionalidades e complexidade

Ao contrário de botões físicos e comandos analógicos, as telas digitais exigem mais atenção visual e cognitiva. O motorista precisa olhar diretamente para o painel, localizar a função desejada e aguardar o carregamento da interface, o que demanda segundos preciosos — e perigosos.

Com sistemas cada vez mais completos, que reúnem navegação, áudio, temperatura, espelhamento de smartphones, mensagens e até comandos por voz, o risco de distração se multiplica.

A falsa sensação de controle

Outro fator agravante é a ilusão de segurança. Como o motorista acredita estar no controle, ele subestima o impacto da distração momentânea. No entanto, a simples ação de mudar uma música, ajustar o ar-condicionado ou responder a uma mensagem por comando de voz já compromete a atenção e pode ser fatal em situações imprevistas no trânsito.

Comparativo com álcool e maconha

Reações motoras e cognitivas

O estudo britânico apontou que o uso de telas compromete a capacidade de resposta de forma mais intensa do que substâncias como álcool ou cannabis, ao menos em níveis moderados. A diferença está no tipo de interferência: enquanto o álcool retarda o tempo de reação de maneira previsível, as telas exigem interrupções visuais completas e fragmentam a atenção.

Já a cannabis altera a percepção de tempo e espaço, mas permite certo nível de concentração contínua — o que, evidentemente, também representa perigo, mas não em mesma magnitude que as distrações digitais em movimento.

Implicações legais e comportamentais

Dirigir sob efeito de álcool ou drogas é crime previsto em lei e amplamente fiscalizado por blitz e testes de bafômetro. Já o uso de telas é muitas vezes tolerado — ou até incentivado — pelas próprias montadoras, que destacam a tecnologia embarcada como diferencial competitivo. Isso cria uma brecha legal e cultural que precisa ser revista com urgência.

A legislação brasileira e as telas

O que diz o Código de Trânsito Brasileiro

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) proíbe o uso de celular enquanto dirige, salvo se for por meio de viva-voz ou suporte fixo, sem necessidade de contato manual. No entanto, a legislação ainda é omissa quanto ao uso das telas embutidas no painel dos veículos.

Como a maioria dos carros modernos já vem com centrais multimídia de fábrica, os motoristas tendem a usar recursos visuais e interativos sem restrição, muitas vezes durante o movimento, o que aumenta o risco de acidentes mesmo dentro da legalidade.

Projetos de lei em discussão

Tramitam no Congresso Nacional propostas que pretendem ampliar as regras de segurança para incluir limites ao uso de telas embarcadas. Um dos pontos discutidos é a limitação de funcionalidades enquanto o veículo estiver em movimento, bloqueando o acesso a determinados comandos para evitar distrações.

Outro projeto prevê que os fabricantes de veículos adotem alertas automáticos e sensores que desativem parte das funções enquanto o carro estiver em velocidade superior a 10 km/h.

Casos reais e números de acidentes

Acidentes relacionados a distrações tecnológicas

Dados da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) indicam que pelo menos 10% dos acidentes graves no Brasil envolvem algum tipo de distração ao volante, sendo o uso de telas e celulares uma das causas mais recorrentes.

Entre 2020 e 2024, o número de ocorrências envolvendo motoristas distraídos com telas cresceu 17%, mesmo com campanhas de conscientização e avanço nas tecnologias de assistência à condução.

Exemplos internacionais

Nos Estados Unidos, uma série de acidentes fatais envolvendo motoristas distraídos com o painel central de carros Tesla levantou o debate sobre os limites da tecnologia automotiva. Em alguns casos, o uso do sistema de entretenimento foi associado a segundos de distração que resultaram em colisões fatais.

A National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA) já iniciou investigações para avaliar se o design de alguns painéis contribui para o aumento do risco nas estradas.

O que dizem as montadoras?

Telas
Imagem: Freepik

Equilíbrio entre inovação e segurança

Fabricantes como Toyota, Ford e Volkswagen reconhecem a preocupação com distrações tecnológicas e têm investido em soluções de interface mais simples, comandos por voz aprimorados e sistemas de alerta de atenção.

Alguns modelos mais novos contam com sensores que detectam o movimento ocular do motorista, alertando em caso de distração prolongada. Outros bloqueiam o acesso a vídeos ou mensagens quando o veículo está em movimento.

Tesla e a polêmica das interfaces

A Tesla, por sua vez, defende a centralização de comandos em uma única tela como forma de reduzir botões físicos e simplificar o design. No entanto, especialistas argumentam que essa centralização pode causar o efeito contrário: exigir mais atenção do condutor para navegar pelos menus.

A marca tem sido pressionada por órgãos reguladores a reavaliar a quantidade de funções disponíveis durante a direção, especialmente após acidentes envolvendo motoristas que utilizavam o “modo teatro” enquanto dirigiam.

Caminhos para uma direção mais segura

Educação e conscientização

A mudança mais imediata depende do comportamento dos motoristas. Evitar interações prolongadas com a central multimídia, utilizar comandos de voz com moderação e configurar preferências antes de iniciar o trajeto são atitudes que podem salvar vidas.

Campanhas educativas devem ser atualizadas para incluir o uso de tecnologias embarcadas como fonte de risco, equiparando seu perigo ao do celular e das substâncias psicoativas.

Inovação com responsabilidade

A indústria automobilística deve repensar o papel das telas no design de veículos. Interfaces intuitivas, com menos passos para execução de comandos, recursos automatizados e alertas em tempo real são essenciais para equilibrar inovação e segurança.

Adotar um código de boas práticas para o desenvolvimento de centrais digitais pode ser um avanço importante para padronizar os limites de interação com o motorista.

Conclusão

A tecnologia embarcada nos carros modernos trouxe avanços importantes em conectividade, conforto e personalização. No entanto, o uso inadequado das telas digitais representa um risco silencioso, mas crescente, para a segurança viária.

Estudos mostram que essas interfaces podem ser mais perigosas do que dirigir sob efeito de álcool ou maconha — o que exige uma resposta urgente da sociedade, da indústria e do poder público.

Reconhecer os perigos, adaptar leis, educar motoristas e redesenhar sistemas com foco na direção segura são passos fundamentais para evitar que a tecnologia que deveria proteger acabe se tornando a principal causa de acidentes evitáveis nas ruas e estradas do país.