O cenário do mercado de trabalho brasileiro está mudando. Mais pessoas chegam à maturidade sem a intenção de deixar a vida profissional ou precisam permanecer no emprego para garantir uma aposentadoria mais confortável. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, revelam que o número de trabalhadores com mais de 60 anos saltou 76% entre 2012 e 2025, passando de 4,9 milhões para 8,6 milhões.
Essa tendência não apenas reflete o envelhecimento populacional, mas também mudanças legislativas e econômicas que influenciam decisões individuais sobre aposentadoria e permanência no mercado de trabalho.
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Vida longa, renda curta: os desafios da aposentadoria

José Alberto Soares Lins, de 60 anos, é um exemplo dessa nova realidade. Com dois filhos adultos e já avô, ele ainda precisa trabalhar por mais cinco anos para se aposentar. Atualmente porteiro em Brasília, José Alberto mantém planos de continuar ativo mesmo após a aposentadoria.
“Quando eu me aposentar, pretendo continuar trabalhando por mais um tempo. É tranquilo”, diz seu Alberto, destacando que a renda da aposentadoria não será suficiente para cobrir todas as despesas familiares.
Especialistas explicam que o aumento da longevidade, combinado com a necessidade de complementar a renda, é um dos principais fatores que empurram trabalhadores mais velhos a permanecerem na ativa.
Impacto da Reforma da Previdência
A introdução da idade mínima para aposentadoria – 65 anos para homens e 62 anos para mulheres, pela Reforma da Previdência de 2019 – também mudou o panorama. A medida, somada à conjuntura econômica, faz com que brasileiros adiem a aposentadoria para manter o padrão de vida ou evitar perdas na renda.
Eloisa Biasuz, funcionária pública, pretendia se aposentar em maio de 2020, mas foi afetada pela regra de transição da reforma. Com 57 anos, ela planeja continuar na ativa até 2029 para evitar uma perda de 20% na aposentadoria.
“Antes da reforma, eu teria que trabalhar mais seis meses para me aposentar, agora são nove anos a mais para ter uma pensão melhor”, afirma Eloisa.
Empreender como alternativa para complementar renda
Alguns trabalhadores mais maduros buscam alternativas ao emprego tradicional para garantir renda complementar. É o caso de Fátima Xavier, de 55 anos, que se aposentou em janeiro de 2024, mas abriu uma corretora de seguros para continuar ativa profissionalmente.
“Ainda quando estava no banco, fiz um curso no setor de seguros on-line e não pensei duas vezes em abrir a corretora para complementar a renda, que cairia para um terço (na aposentadoria)”, conta Fátima, que acumulou experiência de 19 anos no setor bancário.
Demografia e demanda do mercado de trabalho
O aumento da participação de trabalhadores com 60 anos ou mais também é impulsionado pela redução da fatia de jovens no mercado. Entre 25 e 39 anos, o crescimento ocupacional foi de apenas 3,6% em 13 anos, e a participação da faixa etária de 18 a 24 anos caiu 6% desde 2012.
Entre 14 e 17 anos, o contingente retraiu quase 50%, refletindo menores taxas de natalidade e maior permanência de adolescentes na escola. Para as meninas, houve ainda redução do índice de gravidez na adolescência, elevando os anos de estudo, segundo o professor Eduardo Rios, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).
Evolução natural do envelhecimento ativo
Para o economista Alexandre Oliveira Ribeiro, doutorando em Demografia pela UFMG, o aumento da ocupação entre os mais velhos é uma consequência natural do envelhecimento populacional, combinada com fatores econômicos, comportamentais, legislativos, tecnológicos e de saúde.
“Essa variação é impulsionada pelo envelhecimento populacional que interage com mudanças econômicas, comportamentais, políticas, legislativas, tecnológicas e de saúde. Juntas levam a uma maior absorção de mão de obra em idade avançada”, afirma Ribeiro.
O especialista destaca ainda que políticas de envelhecimento ativo são fundamentais para mitigar o etarismo e garantir que empresas e sociedade se adaptem às mudanças demográficas.
Consequências para empresas e economia

O aumento do número de trabalhadores maduros traz oportunidades e desafios para empresas. Profissionais com experiência acumulada se tornam estratégicos em setores onde a escassez de jovens é evidente, mas as organizações precisam adaptar ambientes e processos para incluir e reter esses colaboradores.
Além disso, a presença de mais trabalhadores maduros contribui para diversidade etária, troca de conhecimento e mentoria, fortalecendo a competitividade empresarial.
Perspectivas futuras
Com a população brasileira envelhecendo rapidamente e mudanças nas regras previdenciárias, a tendência é que mais pessoas com 60 anos ou mais permaneçam no mercado. A expectativa é que o grupo continue crescendo, enquanto a participação de jovens permaneça limitada.
Para especialistas, isso exige revisão de políticas públicas, criação de programas de requalificação e incentivo à permanência de profissionais mais velhos, garantindo que possam trabalhar de forma saudável e produtiva.
Com informações de: InfoMoney
