Com a meta estabelecida pelo governo federal de elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel fóssil para 20% até 2030, o Brasil entra em uma nova fase no debate sobre sustentabilidade e eficiência no transporte rodoviário. A primeira etapa dessa transição começa já em agosto de 2025, com o aumento da proporção obrigatória de biodiesel de 14% para 15%.
Apesar dos benefícios ambientais e da consonância com metas globais de descarbonização, a iniciativa desperta questionamentos técnicos quanto à durabilidade dos motores, consumo de combustível e à eficácia da cadeia de distribuição e fiscalização.
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Menor densidade energética
De acordo com o engenheiro Camilo Adas, presidente do conselho da Sociedade de Engenheiros da Mobilidade (SAE Brasil), o biodiesel possui entre 4% a 8% menos densidade energética do que o diesel mineral. Isso significa que, em teoria, os motores consomem mais para gerar a mesma energia.
“A eficiência energética do biodiesel puro é inferior à do diesel fóssil. Isso é ciência, não é opinião”, afirma Adas.
Contudo, o especialista pondera que, na prática, esse aumento no consumo é diluído por outros fatores, como relevo, peso da carga e o estilo de direção. Ele afirma que a diferença entre um diesel B10 e um B20 é imperceptível para a maioria dos motoristas.
Manutenção e durabilidade dos motores
Problema está na cadeia, não no produto
Um dos maiores temores entre transportadoras é o aumento da necessidade de manutenção com a elevação da proporção de biodiesel. Há relatos sobre entupimento de filtros, formação de borra e corrosão de componentes.
No entanto, segundo Adas, o problema não está no biodiesel em si, mas na qualidade da cadeia de produção, transporte e armazenamento do combustível.
“Não adianta demonizar o biodiesel se o problema está nos processos e não no produto”, afirma.
Ele destaca que a Resolução ANP nº 920/24 estabelece critérios rigorosos de qualidade, mas que a fiscalização precisa ser constante. A negligência em qualquer elo da cadeia — das usinas aos tanques dos postos — compromete a eficiência do combustível.
Indústria se adapta ao biodiesel puro
Montadoras já oferecem veículos compatíveis
Contrariando o argumento de que os motores atuais não suportam altos teores de biodiesel, Adas cita exemplos de fabricantes como Scania e Volvo, que já oferecem caminhões preparados para operar com biodiesel puro (B100).
Ainda assim, ele ressalta que a transição deve ser gradual e acompanhada de investimento em capacitação técnica.
“O B20 é um caminho viável, desde que haja controle de qualidade, fiscalização e educação técnica”, defende.
Brasil na média internacional
No cenário global, o Brasil não está isolado. Países como Singapura já operam com 35% de biodiesel e a Suíça permite o uso de B100. No entanto, as condições climáticas interferem nessa decisão.
Na Europa, o HVO (óleo vegetal hidrotratado) é uma alternativa mais utilizada, especialmente em países com invernos rigorosos, por ter melhor desempenho em baixas temperaturas.
No Brasil, o biodiesel tradicional é mais adequado, desde que sua composição siga os parâmetros sazonais da ANP.
Fiscalização ameaçada por cortes orçamentários
Um dos principais alertas do setor é o corte de verbas destinado à Agência Nacional do Petróleo (ANP), responsável por fiscalizar o cumprimento das normas de qualidade dos combustíveis.
“Não adianta ter uma das legislações mais avançadas do mundo se não há verba para fiscalização”, alerta Adas.
A SAE Brasil e outras entidades já assinaram manifestos pedindo o restabelecimento do orçamento da ANP, especialmente diante da aprovação da nova Lei do Combustível do Futuro.
Testes do passado não são conclusivos
Experimentos com geradores antigos
Um estudo realizado em 2005 pela Universidade Estadual de Ponta Grossa apontou resultados promissores com o uso do B20 em um gerador da marca Yanmar: redução de até 6,8% no consumo de combustível e aumento da autonomia.
Apesar da repercussão, o engenheiro Christian Wahnfried, da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), alerta para as limitações do experimento.
“O motor usado era monocilíndrico, de tecnologia antiga, com sistema mecânico de injeção. Os resultados não são aplicáveis aos motores modernos, com controle eletrônico embarcado”, afirma.
Cada motor reage de forma distinta
Wahnfried destaca que já acompanhou diversos testes com diferentes teores de biodiesel e que os resultados variam conforme o tipo de motor.
“Nos testes com B5, B10, B15, houve leve aumento no consumo. A resposta do motor depende da calibração e da tecnologia empregada”, explica.
Além disso, ele alerta que teores acima de 20% podem exigir ajustes na manutenção, como a redução do intervalo entre as trocas de óleo.
Biodiesel e os desafios logísticos

Um problema real apontado por Wahnfried é a degradação do biodiesel durante transporte e armazenamento, principalmente em regiões distantes ou com logística deficiente. Isso pode formar depósitos que entopem filtros e aumentam o custo de manutenção.
Além disso, o impacto na lubrificação do motor também exige atenção. Com teores elevados, montadoras recomendam encurtar os intervalos de troca de óleo para preservar a durabilidade dos motores.
Governo prepara novos testes com motores Euro 6
O Ministério de Minas e Energia planeja uma nova rodada de testes com motores atualizados, compatíveis com os padrões do Proconve P8 (equivalente ao Euro 6), para avaliar com mais precisão os impactos do B20.
Esses testes são fundamentais para validar tecnicamente os próximos passos da política de biocombustíveis.
“Precisamos de dados reais, com motores modernos e em condições de operação típicas no Brasil”, reforça Wahnfried.
Caminho sustentável, mas com responsabilidade
O avanço para o B20 é um passo importante na política de descarbonização do transporte nacional. No entanto, especialistas são unânimes em afirmar que ele precisa ser pautado por critérios técnicos, fiscalização eficiente e investimentos em logística e capacitação.
“A questão não é se o biodiesel é bom ou ruim. A pergunta certa é: ele está chegando ao tanque com a qualidade que a lei exige?”, conclui Camilo Adas.
Imagem: Ronni Olsson / shutterstock.com




