Na última segunda-feira, 11 de agosto de 2025, o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, afirmou que o recente pedido do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que a China quadruplicasse a compra de soja norte-americana configura “quase um estado de guerra contra o Brasil”. A declaração foi feita durante entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, e repercutiu intensamente entre analistas políticos, representantes do agronegócio e autoridades diplomáticas.
Pedido de Trump à China sobre soja provoca alerta diplomático, diz Amorim
Pedido de Trump para a China quadruplicar compras de soja dos EUA acende alerta no Brasil. Amorim fala em “quase estado de guerra”.
Segundo Amorim, trata-se de uma medida coercitiva, que ultrapassa os limites da competição comercial e entra no campo da pressão geopolítica, com potenciais efeitos devastadores para a economia brasileira, especialmente para o setor agropecuário.
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O contexto do pedido de Trump e a trégua tarifária
O que motivou o pedido norte-americano
Horas antes do comentário de Amorim, agências internacionais divulgaram que Trump havia solicitado oficialmente que o governo chinês aumentasse significativamente as importações de soja dos Estados Unidos. A proposta surge no momento em que Washington prorrogou por mais 90 dias a trégua tarifária com Pequim, evitando que tarifas sobre produtos chineses voltassem a valer já naquela segunda-feira.
Para especialistas em comércio exterior, o pedido de Trump parece ser uma exigência em troca da extensão da trégua, numa tentativa de beneficiar diretamente os produtores norte-americanos de soja, que têm enfrentado dificuldades com os impactos das tarifas e do excesso de oferta interna.
Guerra comercial reaquece em 2025
A guerra tarifária entre Estados Unidos e China teve seu auge em anos anteriores, mas voltou com força em 2025, após a reeleição de Trump e a adoção de medidas protecionistas mais agressivas. O embate afeta diretamente países exportadores de commodities, como o Brasil, que mantêm relações estreitas com os dois gigantes globais.
A importância da soja na relação Brasil-China
Produto-chave da balança comercial
A soja é uma das principais commodities brasileiras e representa uma fatia significativa das exportações nacionais. O principal destino dessa produção é justamente a China, que nos últimos anos se tornou o maior parceiro comercial do Brasil. Somente em 2024, cerca de 70% da soja brasileira exportada teve como destino o mercado chinês.
Uma mudança abrupta na política de importação da China, como a substituição parcial ou total da soja brasileira pela norte-americana, teria efeitos profundos sobre a economia brasileira, afetando desde o pequeno produtor até grandes tradings do setor agrícola.
Impactos econômicos diretos e indiretos
Se a China atender ao pedido de Trump, o Brasil poderá enfrentar:
- Queda no preço da soja devido à menor demanda externa;
- Aumento dos estoques internos, o que pressiona o mercado interno;
- Redução na arrecadação de exportações, com impacto nos cofres públicos;
- Risco de desemprego no campo, especialmente nas regiões produtoras do Centro-Oeste;
- Perda de competitividade frente aos concorrentes internacionais.
A resposta do governo brasileiro

Lula liga para Xi Jinping
Em resposta imediata à movimentação diplomática norte-americana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um telefonema ao presidente da China, Xi Jinping, também na noite de segunda-feira. A conversa, segundo fontes do Palácio do Planalto, teve como objetivo reforçar os laços entre Brasil e China e discutir as consequências da guerra tarifária conduzida pelos EUA.
Embora o conteúdo detalhado da conversa não tenha sido divulgado oficialmente, sabe-se que Lula expressou preocupação com a tentativa dos Estados Unidos de interferir na balança comercial da China e reafirmou o compromisso do Brasil com a parceria estratégica sino-brasileira.
Amorim: “Diálogo é essencial”
Durante a entrevista ao programa “Roda Viva”, Celso Amorim reforçou a necessidade de diálogo constante com a China para garantir a continuidade das boas relações comerciais. “Não vejo razão para temer que a China vá abandonar a parceria estratégica, mas é sempre preciso que haja diálogo”, declarou.
Para Amorim, o pedido dos EUA não deve ser interpretado como uma vitória natural da competitividade, mas sim como uma imposição com caráter político e geoeconômico.
Reações do setor agrícola e do mercado
Representantes do agronegócio mostram preocupação
Entidades ligadas ao agronegócio, como a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), manifestaram preocupação com a possível mudança na política de compras chinesa. Em nota, a entidade afirmou que “qualquer alteração brusca na demanda da China por soja brasileira afetará profundamente a renda dos produtores rurais e a estabilidade do setor”.
Líderes de cooperativas do Mato Grosso, Goiás e Paraná também demonstraram apreensão, já que esses estados são os maiores exportadores de soja do Brasil.
Mercado financeiro reage
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A tensão geopolítica influenciou os mercados. Na terça-feira seguinte à declaração de Trump e à entrevista de Amorim, a cotação da soja na B3 registrou queda de 2,3%, reflexo do temor de que o Brasil perca participação no mercado chinês. O dólar, por sua vez, teve leve alta, motivado pela possível redução na entrada de divisas via exportações agrícolas.
Análise de especialistas
Economistas alertam para dependência excessiva
Analistas de comércio exterior destacam que o Brasil precisa diversificar seus parceiros comerciais. A dependência excessiva da China em setores estratégicos, como o de grãos, coloca o país em situação de vulnerabilidade diante de disputas entre potências globais.
Segundo a economista Camila Yamamoto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), “o Brasil deve aproveitar o alerta para acelerar negociações com outros países asiáticos e com a União Europeia, além de fortalecer o mercado interno”.
Diplomacia brasileira é posta à prova
Especialistas em relações internacionais avaliam que o momento exige habilidade diplomática do governo Lula. O Brasil precisa, ao mesmo tempo, manter boas relações com os Estados Unidos — especialmente no contexto de investimentos — e preservar a aliança com a China, essencial para as exportações e o equilíbrio da balança comercial.
Caminhos possíveis para o Brasil
Estratégias de contenção de risco
Para minimizar os efeitos de uma possível retração chinesa nas compras de soja, o governo brasileiro pode:
- Ampliar acordos comerciais bilaterais com outros países da Ásia e África;
- Fomentar a industrialização da soja, agregando valor ao produto antes da exportação;
- Estimular o consumo interno por meio de incentivos fiscais;
- Investir em logística e infraestrutura, melhorando a competitividade no mercado global.
Fortalecimento do Mercosul e da diplomacia regional

Outro caminho apontado por analistas é o fortalecimento do Mercosul e da integração latino-americana. A criação de um bloco mais coeso pode aumentar o poder de barganha da região frente a decisões comerciais de países como EUA e China.
Imagem: Evan El-Amin/shutterstock.com
