A companhia aérea Voepass, anteriormente conhecida como Passaredo, entrou com um novo pedido de recuperação judicial na última terça-feira, 22 de abril de 2025, na Justiça de Ribeirão Preto. Com voos suspensos desde março e afundada em dívidas que somam R$ 429 milhões, a empresa busca reorganizar suas finanças e evitar a falência. Esta é a segunda vez que a companhia recorre à Justiça com esse pedido — a primeira foi entre 2012 e 2017.
Voepass entra com pedido de recuperação judicial e cita Latam como principal responsável pela crise
Com operações suspensas após acidente fatal, Voepass pede recuperação judicial e acusa a Latam de causar prejuízos milionários.
O cenário desta vez, porém, é ainda mais delicado. A Voepass está sob severa fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) desde agosto de 2024, quando uma aeronave da empresa caiu sobre um condomínio em Vinhedo (SP), deixando 62 mortos. O acidente resultou na suspensão das operações da aérea por suposta “quebra de confiança” e falhas de segurança operacional.
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Voepass acusa a Latam de agravar crise

Codeshare rompido e retenção de pagamentos estão no centro do conflito
Um dos pontos mais polêmicos do pedido de recuperação é a acusação direta feita pela Voepass contra a Latam Airlines, grupo chileno com quem mantinha um acordo de codeshare. Segundo documentos apresentados à Justiça, a Latam teria sido “a principal responsável” pela crise financeira enfrentada pela Voepass.
Após o acidente em Vinhedo, a Latam teria decidido unilateralmente suspender as operações de quatro aeronaves turboélice da Voepass utilizadas exclusivamente na parceria. Além disso, a Voepass acusa a gigante do setor aéreo de reter, de maneira considerada “ilegal”, pagamentos devidos relativos aos custos fixos dessas aeronaves mantidas em solo.
A disputa entre as empresas já é alvo de um processo de arbitragem, segundo o pedido judicial. Procurada, a Latam ainda não se pronunciou oficialmente sobre as acusações.
Impactos da crise: demissões e reestruturação
Empresa ajusta quadro de funcionários à nova realidade
Desde a suspensão dos voos pela Anac em março de 2025, a Voepass tem enfrentado dificuldades crescentes para manter sua operação. No início de abril, anunciou a demissão de parte do seu quadro funcional, incluindo pilotos, comissários e funcionários administrativos. O número exato de demissões não foi divulgado, mas a justificativa dada foi a readequação à nova realidade operacional.
Antes da suspensão, a empresa operava com uma frota de seis aeronaves em rotas regionais para 17 destinos. A Voepass tinha uma atuação importante em áreas do interior do Brasil, onde grandes companhias aéreas não costumam operar com frequência, sendo considerada estratégica para o desenvolvimento regional.
Situação financeira: R$ 429 milhões em dívidas
Justiça pode congelar passivos e facilitar negociação com credores
No pedido protocolado, a empresa declara um passivo total de R$ 429 milhões, sendo R$ 209 milhões sujeitos à recuperação judicial. Desses, R$ 43 milhões correspondem a dívidas trabalhistas, com mais de 400 processos em andamento, e outros R$ 3,4 milhões são referentes a pequenas empresas fornecedoras.
A Voepass também contabiliza R$ 187 milhões em dívidas extraconcursais, ou seja, que não entram no processo de recuperação, incluindo compromissos financeiros em dólar.
Se o pedido for aceito, todos os passivos abrangidos serão congelados temporariamente e a companhia poderá apresentar um plano de reestruturação detalhado, a ser submetido à aprovação dos credores. No entanto, a empresa ressaltou que a medida não abrange os processos indenizatórios relacionados ao acidente de agosto de 2024, que continuarão sendo tratados diretamente pelas seguradoras.
Histórico de dificuldades e novo desafio judicial

Segunda recuperação em menos de 15 anos
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Esta não é a primeira vez que a Voepass — que incorpora também as operações da Map Linhas Aéreas — enfrenta graves problemas financeiros. Em 2012, entrou em recuperação judicial, encerrando o processo apenas em 2017. Agora, menos de uma década depois, a empresa retorna à mesma condição, em um contexto ainda mais crítico devido ao impacto reputacional do acidente e à pressão regulatória.
“Com todo o cenário enfrentado nos últimos meses, esta foi a única saída para realizar uma reestruturação completa e garantir que a Voepass volte a oferecer um serviço essencial para o desenvolvimento do Brasil”, declarou o CEO da companhia, José Luiz Felício Filho, em nota à imprensa.
O futuro da aviação regional em risco
Crise da Voepass expõe fragilidade do setor no interior do país
A situação da Voepass reacende um alerta sobre a fragilidade do setor aéreo regional brasileiro. Nos últimos anos, a redução de subsídios, o aumento dos custos operacionais e a baixa demanda em algumas rotas têm colocado em risco a viabilidade de companhias que operam fora dos grandes centros.
Especialistas alertam que, sem um plano consistente de incentivo à aviação regional, a conectividade em regiões remotas e cidades médias poderá ser drasticamente reduzida. Com a Voepass fora de operação, milhares de passageiros em regiões do Norte, Nordeste e Sudeste já sentem os efeitos da diminuição da oferta de voos.
Conclusão
O pedido de recuperação judicial da Voepass evidencia a complexidade dos desafios enfrentados por empresas aéreas de médio porte no Brasil. Entre a crise de confiança causada por um acidente trágico, disputas com parceiros comerciais de grande porte e pressões regulatórias, a companhia tenta encontrar um caminho para sobreviver.
Com uma dívida robusta e operações suspensas, o futuro da empresa depende não apenas da aceitação do pedido pela Justiça, mas também da reconstrução da confiança com passageiros, credores e órgãos reguladores. A reestruturação, se bem-sucedida, poderá significar uma segunda chance para uma empresa que há décadas conecta regiões esquecidas pela aviação comercial de grande porte.
Imagem: Divulgação / Voepass

