Com o início dos pagamentos do abono salarial PIS/Pasep em 2025, muitos trabalhadores se deparam com uma situação frustrante: o valor do benefício some da conta assim que cai, sendo automaticamente utilizado pelo banco para quitar dívidas como cheque especial, parcelas de empréstimos ou taxas pendentes. Essa prática, embora comum, é ilegal e pode ser contestada judicialmente.
Seus direitos sobre o abono salarial: bancos não podem usar para cobrir dívidas ou cheque especial
Bancos não podem reter o abono salarial PIS/Pasep para quitar dívidas automaticamente. Entenda por que a prática é ilegal, o que diz a lei e como agir.
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O que é o abono salarial?

O abono salarial é um benefício garantido pelo artigo 239 da Constituição Federal, funcionando como uma espécie de 14º salário. Ele é pago anualmente aos trabalhadores de baixa renda, com o objetivo de fortalecer o orçamento familiar e fomentar a economia.
Quem tem direito ao abono salarial?
Para receber o abono referente ao ano-base 2023, o trabalhador deve atender a todos os critérios abaixo:
- Estar cadastrado no PIS/Pasep há pelo menos cinco anos;
- Ter recebido remuneração média de até dois salários mínimos por mês em 2023;
- Ter trabalhado com carteira assinada por, no mínimo, 30 dias no ano-base;
- Ter seus dados corretamente informados pelo empregador no eSocial.
O pagamento é realizado pela Caixa Econômica Federal (PIS) para trabalhadores do setor privado e pelo Banco do Brasil (Pasep) para servidores públicos.
Bancos não podem reter o abono salarial

Segundo os órgãos de defesa do consumidor, os valores depositados como abono salarial não podem ser apropriados automaticamente pelos bancos para quitar dívidas, mesmo que a conta esteja negativa.
Essa conduta fere princípios fundamentais constitucionais, como:
- A inalienabilidade do salário, que protege valores destinados à subsistência do trabalhador;
- O conceito de mínimo existencial, previsto em diversos tratados internacionais e adotado pela Constituição;
- A legislação de proteção contra o superendividamento.
Prática considerada abusiva
De acordo com o defensor público Felipe Kirchner, do Núcleo de Defesa do Consumidor e Tutelas Coletivas (Nudecontu), essa retenção é considerada ilegal, abusiva e passível de contestação judicial.
“O abono salarial, por sua natureza, é voltado à sustentação básica do trabalhador, especialmente dos mais vulneráveis, e deve ser protegido contra práticas abusivas das instituições financeiras”, afirma Kirchner.
O que diz a legislação?
Várias normas legais e administrativas reforçam que a retenção automática do abono é indevida:
Constituição Federal
- Garante a proteção do salário e do mínimo existencial, impedindo que o trabalhador fique sem recursos para suas necessidades básicas.
Código de Defesa do Consumidor (CDC)
- Considera abusiva qualquer prática que impeça o livre uso de recursos financeiros sem autorização expressa do titular da conta.
Resoluções do Banco Central e Conselho Monetário Nacional
- Resolução nº 4.790/2020: permite ao consumidor cancelar autorizações de débito automático a qualquer momento;
- Resolução nº 5.058/2022: reforça que nenhum valor pode ser retido sem consentimento do consumidor.
Segundo Kirchner, o problema é que, mesmo com respaldo legal, os bancos dificultam o processo de cancelamento dessas autorizações, o que configura uma conduta deliberadamente irregular.
O que fazer se o banco reteve seu abono?
Se você se deparar com o valor do abono desaparecendo da conta ou sendo usado para quitar dívidas não autorizadas, siga os passos abaixo:
1. Verifique o extrato bancário
Identifique exatamente para onde foi o valor depositado. Ele pode ter sido usado para:
- Repor limite de cheque especial;
- Cobrir parcelas de empréstimos;
- Pagar tarifas bancárias.
2. Solicite a devolução ao banco
Procure sua agência ou entre em contato com o atendimento bancário:
- Solicite a devolução imediata do valor caso não tenha autorizado o débito;
- Peça a suspensão de débito automático de qualquer valor proveniente de benefício social.
3. Negocie de forma consciente
Se desejar usar o valor para quitar dívidas:
- Negocie condições mais vantajosas, como desconto para pagamento à vista ou redução de juros;
- Evite ceder à pressão para permitir que o banco absorva o valor sem discutir os termos.
4. Registre uma reclamação no Procon
Se o banco se recusar a devolver o valor, registre uma queixa formal no Procon da sua cidade ou estado.
Posso entrar na Justiça? E pedir indenização?
Sim. Caso o banco mantenha a retenção indevida do benefício, é possível ajuizar uma ação judicial com pedido de:
- Restituição do valor retido;
- Indenização por danos morais, principalmente se a situação causar prejuízos à dignidade, como falta de recursos para alimentação, medicamentos ou moradia.
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Embora a jurisprudência brasileira ainda seja conservadora quanto ao dano moral, casos envolvendo vulnerabilidade socioeconômica têm tido decisões favoráveis.
Onde buscar ajuda
Procon Porto Alegre
- Rua Sete de Setembro, 723 – das 9h às 16h
- Atendimento online também disponível via site do Procon
Procon-RS
- Rua Sete de Setembro, 539 – das 10h às 16h
- Atendimento para cidades sem Procon municipal
Defensoria Pública do RS
- Procure a unidade mais próxima de sua residência
- Atendimento gratuito para pessoas de baixa renda
Como consultar se tenho direito ao PIS/Pasep?

Desde 5 de fevereiro de 2025, os trabalhadores podem verificar se têm direito ao abono usando diversos canais:
Aplicativo Carteira de Trabalho Digital
- Disponível para Android e iOS
- Vá até “Contratos de Trabalho” e veja as informações sobre o PIS
Portal Gov.br
- Acesse com CPF e senha cadastrada
- Selecione “Abono Salarial” no menu de serviços
Aplicativo Caixa Trabalhador
- Informa valores, datas e também dados sobre o seguro-desemprego
Telefones de atendimento
- Central Alô Trabalho: 158
- Caixa Econômica Federal: 0800-726-0207
- Banco do Brasil (Pasep): 4004-0001 (capitais) / 0800-729-0001 (outras regiões)
Considerações finais
O abono salarial é um direito garantido por lei, destinado a fortalecer a renda dos trabalhadores de baixa remuneração. A retenção automática desse valor por instituições financeiras é ilegal, abusiva e pode ser combatida com base no ordenamento jurídico brasileiro.
Se o seu abono foi retido pelo banco sem autorização, você tem respaldo legal para exigir a devolução e, dependendo do caso, buscar indenização por danos morais. A informação é a sua maior aliada para garantir seus direitos e preservar o que é seu por justiça.
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