O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado a prévia oficial da inflação brasileira, registrou alta de 0,43% em abril de 2025, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (24).
Alimentos pressionam a inflação, e o tomate lidera o IPCA-15 como vilão
Alimentos impulsionam inflação no IPCA-15 de abril, com destaque para a alta de 32,67% no preço do tomate. Veja impactos na política monetária.
Embora o resultado tenha vindo abaixo da taxa de março (0,64%) e dentro das expectativas do mercado, a composição do indicador acendeu alertas no Banco Central e entre analistas econômicos.
O principal vilão da inflação do mês foi o tomate, com uma alta expressiva de 32,67%, seguido por aumentos relevantes em produtos como café moído e leite longa vida.
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Alimentação volta a pressionar a inflação

Após uma trégua no início do ano, o grupo Alimentação e Bebidas voltou a acelerar no IPCA-15. Em abril, a alta foi de 1,29%, ante 1,25% em março. O tomate foi o item que mais pesou, contribuindo sozinho com 0,08 ponto percentual para o índice geral e 0,05 p.p. para a alta do grupo de alimentação no domicílio.
Além do tomate, outros produtos também registraram altas relevantes:
- Café moído: +6,73%
- Leite longa vida: +2,44%
A pressão sobre os preços dos alimentos, especialmente dos itens frescos e de origem animal, preocupa analistas, que veem nesse comportamento um risco para a inflação acumulada do ano.
Desempenho dos bens industriais e efeito sazonal
Outro fator que impulsionou o IPCA-15 de abril foi o grupo Bens Industriais, cuja inflação acelerou de 0,17% em março para 0,53% em abril. Esse movimento, segundo analistas, é atribuído em parte à dissipação dos efeitos promocionais da Semana do Consumidor, realizada em março.
A sazonalidade também foi apontada como responsável pela alta de preços em abril, especialmente em alimentos in natura e medicamentos — este último impulsionado pelo reajuste anual autorizado para os preços de remédios.
Combustíveis e passagens aéreas aliviam o índice
Apesar da pressão de alimentos e bens industriais, o IPCA-15 de abril também apresentou vetores de alívio, como:
- Passagens aéreas: deflação de -14,38%, retirando cerca de 0,11 p.p. do índice geral
- Gasolina: queda de -0,3%
- Energia elétrica residencial: recuo de -0,1%
Esses movimentos ajudaram a conter uma alta mais expressiva do IPCA-15 no mês, equilibrando parcialmente os efeitos negativos dos alimentos e bens industriais.
Núcleos da inflação mostram pressão

Ainda que o índice cheio tenha vindo comportado, as métricas qualitativas do IPCA-15 mostraram deterioração:
- Serviços subjacentes: passaram de 6,24% para 6,42%
- Média dos núcleos: subiu de 4,72% para 5,00%
- Bens industriais: avançaram de 3,38% para 3,92%
Segundo Luiz Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, esses resultados indicam que, embora a “foto” do IPCA-15 pareça controlada, o “filme” da inflação segue preocupante, especialmente ao se comparar com 2024, ano em que a inflação já havia ficado acima da meta.
Inflação acumulada preocupa para o restante do ano
Com o resultado de abril, a inflação acumulada no primeiro quadrimestre de 2025 chegou a 2,42%, ante 1,67% no mesmo período de 2024. Economistas consideram esse desempenho preocupante, sobretudo para as projeções de inflação e política monetária.
A expectativa da XP é que, embora o resultado de abril tenha tido surpresas pontuais, a tendência de inflação pressionada deve continuar nos próximos meses, sobretudo pela alta de alimentos e incertezas no cenário internacional.
Efeito dos alimentos frescos e cenário externo
Os preços dos alimentos frescos, como frutas, legumes e verduras, têm apresentado forte aceleração no atacado, indicando que a pressão sobre o varejo pode se manter ao longo do segundo semestre de 2025. A guerra comercial global e questões climáticas são apontadas como fatores adicionais que podem impulsionar ainda mais os preços desses produtos.
No caso das carnes, a pressão sobre proteínas de origem bovina observada em 2024 cedeu lugar à alta em produtos como aves, ovos, café e laticínios, que mantêm a inflação do grupo alimentos elevada.
Análise dos economistas sobre o IPCA-15 de abril

Leonardo Costa (ASA Investments)
O economista destacou que o dado qualitativo do IPCA-15 veio levemente pior que o esperado, com um avanço mais forte nos bens industrializados, possivelmente influenciado pela defasagem da desvalorização cambial no final de 2024.
Ele também destacou que o núcleo de serviços permanece elevado, ainda que tenha havido leve desaceleração na média móvel trimestral.
Gustavo Rostelato (Armor Capital)
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Segundo Rostelato, a divulgação do IPCA-15 não alterou significativamente as perspectivas para a inflação de 2025, mas reforçou a necessidade de cautela por parte do Banco Central.
Carla Argenta (CM Capital)
A economista destacou que a inflação de alimentos continua elevada devido à sazonalidade negativa e aos ciclos internos de oferta dos produtos, independentemente da demanda agregada.
Ela também citou o forte impacto do reajuste anual de medicamentos no grupo Saúde e Cuidados Pessoais.
André Valério (Inter)
Valério apontou que, embora a inflação de serviços tenha recuado de 0,66% para 0,18%, excluindo o efeito das passagens aéreas, a taxa ficaria em 0,48%, revelando uma estabilidade preocupante no patamar elevado de preços.
Ele também observou que o índice de difusão — que mede o percentual de produtos com alta de preços — subiu de 61% em março para 68% em abril.
Igor Cadilhac (PicPay)
Cadilhac projeta que a Selic alcance 15% ainda em 2025, com duas elevações adicionais: uma de 50 pontos-base e outra de 25 pontos-base.
Sua projeção para a inflação em 2025 é de 5,6%, com um balanço de riscos ainda inclinado para alta.
Banco Central deve manter política monetária restritiva
Diante da composição do IPCA-15 de abril, analistas consideram improvável que o Banco Central altere o tom da sua política monetária nas próximas reuniões. A expectativa geral é que o Comitê de Política Monetária (Copom) eleve novamente a Selic em maio, com alta entre 25 e 50 pontos-base.
Embora sinais de desaceleração da atividade e expectativa de reversão nos preços de alimentos estejam no radar, o núcleo da inflação elevado e a resiliência dos serviços recomendam prudência.
Considerações finais
O IPCA-15 de abril confirmou que, apesar da desaceleração em relação a março, a inflação segue pressionada no Brasil, especialmente pelo comportamento dos alimentos e dos bens industriais. O tomate se destacou como o principal vilão do mês, reforçando o alerta para a evolução dos preços de itens essenciais.
Com um cenário ainda desafiador, o Banco Central deverá agir com cautela para garantir o controle da inflação, mantendo uma política monetária restritiva ao menos até que sinais mais claros de descompressão nos preços apareçam nos próximos meses.
