A Americanas (AMER3) divulgou um prejuízo líquido de R$ 98 milhões no segundo trimestre, significativa melhora frente à perda de R$ 1,85 bilhão observada um ano antes. Na mesma base de comparação, o Ebitda ajustado alcançou R$ 329 milhões, salto expressivo que reflete ganhos operacionais, disciplina de despesas e uma estratégia comercial mais concentrada nas lojas físicas. A receita líquida somou R$ 3,843 bilhões, avanço de 24,7% em 12 meses, apoiado em crescimento de vendas em mesmas lojas (SSS) e na revisão de sortimento e preços.
Em síntese: menos “ruído” financeiro, mais tração operacional e um desenho de canais em que o digital serve ao físico, e não o contrário.
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O que mudou em relação a 2024
Efeito contábil ficou para trás
A diretoria financeira destacou que o prejuízo elevado do 2º tri do ano passado refletia efeitos contábeis ligados à fase de renovação da dívida, quando ainda se reconheciam juros sobre um passivo superior a R$ 30 bilhões. Em 2025, com a reestruturação avançada, o resultado financeiro se aproxima da alavancagem real da companhia, permitindo que a operação apareça com mais nitidez no demonstrativo de resultados.
Sazonalidade favoreceu vendas
Outro ponto que ajudou o trimestre foi a Páscoa ter caído no segundo trimestre deste ano, reforçando o giro de categorias sazonais e o fluxo nas lojas, tradicionalmente importante para o varejo de conveniência.
Principais números do 2º tri
Resultado líquido
- Prejuízo líquido: R$ 98 milhões
- Variação anual: forte redução frente ao prejuízo de R$ 1,85 bilhão no 2T do ano anterior
Geração operacional (Ebitda)
- Ebitda ajustado: R$ 329 milhões
- Evolução anual: crescimento de 1.216% ante o 2T anterior
- Ebitda não ajustado: R$ 304 milhões (ante resultado negativo em R$ 53 milhões um ano antes)
Receita e crescimento de vendas
- Receita líquida: R$ 3,843 bilhões
- Variação anual: +24,7%
- Vetores: aceleração de SSS, otimização de mix e precificação mais assertiva
Eficiência de despesas
- SG&A no semestre: abaixo de 30% da receita líquida
- Leitura: menor patamar desde o início da crise, sugerindo que a base de custos foi recalibrada para o novo tamanho do negócio
Estratégia de canais: digital como extensão do físico

“Esqueça o marketplace”: o que isso quer dizer
A gestão foi direta: o marketplace tradicional deixou de ser prioridade. Ao reduzir a participação de vendedores externos (sellers), a companhia retoma controle de sortimento e margem, cortando complexidade de catálogo, risco de ruptura e custos operacionais associados a uma plataforma ampla demais para o momento da empresa.
Como o online passa a jogar a favor da margem
- Ship from store: o pedido feito no site ou app é separado no estoque da loja mais próxima, encurtando a última milha, reduzindo custo logístico por pedido e acelerando a entrega.
- Pick up in store: o cliente compra online e retira na loja, driblando filas e aumentando o fluxo físico — um impulsionador de venda incremental.
Essa abordagem omnichannel enxuta transforma as lojas em mini hubs logísticos, melhora a experiência do cliente e reforça o papel do digital como funil de conversão e fidelização.
GMV: físico acelera, digital encolhe (por opção)
O retrato do trimestre
- GMV total: R$ 5,2 bilhões (+15,6% a/a)
- GMV físico: R$ 4,353 bilhões (+35,7% a/a)
- GMV digital: R$ 213 milhões (–68,7% a/a)
A queda do GMV digital é coerente com a mudança de estratégia. Ao despriorizar o marketplace, o volume transacionado online encolhe, mas a rentabilidade potencial por pedido tende a melhorar, porque o mix passa a refletir o estoque próprio e o controle de preços das lojas.
Margem e rentabilidade: por que o Ebitda disparou
Três alavancas principais
- Loja produtiva: revisão de processos, redução de perdas, equipe ajustada e curadoria de sortimento maior por praça.
- Mix e precificação: foco em categorias com melhor margem e giro, com preços calibrados para sustentar rentabilidade sem abrir mão de volume.
- Menos distorção financeira: com a fase mais aguda da reestruturação contábil superada, o que se vê no Ebitda tem mais “jeito de operação” e menos efeito não recorrente.
O papel do SG&A abaixo de 30%
Segurar despesas de vendas, gerais e administrativas abaixo de 30% da receita cria folga estrutural para margens, especialmente quando o SSS está positivo. Essa disciplina torna mais provável que a expansão de vendas vire caixa em vez de ser consumida por custos.
Governança financeira e alavancagem
A Americanas saiu de 2023 — ano marcado por fraude contábil e recuperação judicial — com uma agenda clara de redução do endividamento, renegociação de passivos e simplificação do negócio. Em 2024, ainda houve trimestres com efeitos contábeis relevantes, inclusive com lucro em função da novação de dívidas. Em 2025, a fotografia é outra: menos excepcionalidade, mais normalidade. O lucro líquido ainda não veio neste trimestre, mas a trajetória de caixa operacional e a queda do prejuízo indicam que o caminho de volta à lucratividade passa por execução consistente, não por eventos extraordinários.
Operação de lojas: de “ponto de venda” a “hub de atendimento”
Por que a capilaridade importa
A capilaridade histórica da Americanas — pontos de venda espalhados em centros urbanos e bairros de alto tráfego — é um ativo logístico. Ao integrar estoques e sistemas, cada loja vira um nó de distribuição com capacidade de atender pedidos locais em poucas horas e oferecer retirada imediata. O resultado é experiência melhor e custo menor por entrega.
KPIs a acompanhar
- % de pedidos atendidos via ship from store
- Tempo médio entre compra e retirada/entrega
- Taxa de ruptura e acurácia de estoque
- Vendas por metro quadrado e por colaborador
- NPS (satisfação do cliente) e recorrência de compra
Comercial: sortimento e política de preços
Curadoria por região
A empresa ajustou o mix de produtos a hábitos regionais e à sazonalidade local, mitigando estoques “parados” e elevando o giro. Em categorias de maior margem, o abastecimento e a exposição foram priorizados, enquanto itens de baixa rentabilidade perderam espaço.
Preços e margem
Com o fim do marketplace amplo, diminui a pressão por “corridas ao menor preço” típicas de praças com competição por visibilidade. A política de preços migra para uma lógica de margem sustentável + conveniência (entrega rápida/retirada).
Comunicação com o investidor: sinalizações e próximos passos
O que a gestão está dizendo
- A prioridade é crescer com rentabilidade, não apenas “fazer volume”.
- O digital será mantido como alavanca do físico, com tecnologia para prever demanda e endereçar estoque local.
- O corte de despesas e a padronização de processos continuam, mirando escala com eficiência.
O que o mercado observará no 2º semestre
- Resiliência do SSS em datas-chave (Dia das Crianças e Natal).
- Geração de caixa operacional recorrente e evolução do capital de giro.
- Estabilidade de margem bruta frente à concorrência e ao ambiente macro.
- Manutenção do SG&A em patamar controlado.
- Evolução do NPS e indicadores de entrega/retirada.
Riscos e sensibilidades

Competição e cenário macro
O varejo segue competitivo e sensível à renda. Uma piora de confiança do consumidor, crédito mais caro ou pressão inflacionária podem reduzir tráfego e exigir promoções, afetando margem.
Execução da estratégia
A transição para um omnichannel mais enxuto exige acurácia de estoque, sistemas integrados e disciplina operacional. Falhas nesse ajuste podem gerar rupturas ou atrasos de entrega, com impacto direto em satisfação e venda recorrente.
Passivos remanescentes
Mesmo com a reestruturação, contingências e obrigações legais podem criar volatilidade no resultado, sobretudo no resultado financeiro e em eventuais provisões.
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