A Argentina atravessa uma fase econômica marcada por uma contradição importante: enquanto o governo Javier Milei conseguiu avançar no controle da inflação e na reorganização das contas públicas, milhões de famílias continuam enfrentando dificuldades para equilibrar renda, consumo e dívidas.
O problema ganhou força com a expansão do crédito e o aumento da inadimplência. Dados do Banco Central da República Argentina (BCRA) mostram que 20,3 milhões de pessoas tinham algum tipo de financiamento em dezembro de 2025, equivalente a 54,7% da população. O saldo médio por devedor chegou a 4,1 milhões de pesos em valores constantes, maior nível desde 2020.
O cenário ajuda a explicar por que a melhora dos indicadores macroeconômicos não necessariamente significa uma recuperação imediata do orçamento das famílias.
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O que mudou na economia argentina com Milei

Javier Milei assumiu a Presidência no fim de 2023 defendendo uma política econômica baseada em forte contenção dos gastos públicos, redução de subsídios, equilíbrio fiscal e menor expansão monetária.
O programa produziu resultados expressivos em alguns indicadores. A inflação, que estava em patamares extremamente elevados no início do governo, passou por uma desaceleração significativa. Em agosto de 2026, analistas consultados pelo BCRA projetavam inflação mensal de 1,7%.
As contas públicas também passaram por uma transformação. O ajuste fiscal reduziu a necessidade de financiamento do governo e contribuiu para a mudança do resultado fiscal argentino.
Para 2026, o levantamento de expectativas do próprio Banco Central argentino apontava para um superávit primário de 15,4 trilhões de pesos no setor público nacional não financeiro.
A proposta orçamentária de 2027 apresentada pelo governo também prevê continuidade da expansão econômica, com crescimento projetado de 4% e inflação anual de 18% no próximo ano. São projeções oficiais, e não resultados já realizados.
Inflação menor não significa orçamento recuperado
O principal ponto de tensão está na diferença entre a velocidade de desaceleração dos preços e a recuperação da renda.
Quando a inflação cai, os preços passam a subir mais lentamente, mas isso não significa que eles retornem aos níveis anteriores. Uma família que sofreu anos de aumentos elevados continua pagando uma base de preços muito superior à de antes da crise.
Por isso, a estabilização monetária pode coexistir com dificuldades financeiras. O consumidor pode enfrentar uma inflação mensal menor e, ao mesmo tempo, carregar dívidas acumuladas durante o período anterior.
O mercado de crédito argentino ajuda a dimensionar esse fenômeno. Segundo o BCRA, 20,3 milhões de pessoas possuíam financiamento no fim de 2025, enquanto os empréstimos pessoais cresceram 22,1% em quantidade de devedores durante aquele ano.
Crédito cresce e aumenta a pressão sobre os consumidores
O avanço do crédito não ocorre apenas pelos bancos tradicionais. Os chamados Proveedores No Financieros de Crédito, que incluem diferentes empresas e plataformas de financiamento, ganharam espaço.
Em fevereiro de 2026, cerca de 12,1 milhões de pessoas tinham financiamento junto a esses fornecedores. O saldo total chegou a 13,9 trilhões de pesos, com crescimento real de 2% entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026. No segmento fintech, o avanço real da carteira foi de 47% em 12 meses.
Ao mesmo tempo, a qualidade desse crédito passou a exigir atenção. A taxa de irregularidade da carteira dos fornecedores não financeiros alcançou 26,9% em fevereiro de 2026, alta de 9,7 pontos percentuais em seis meses. Nos empréstimos pessoais, o índice chegou a 34,1%.
Isso não significa que todo crédito seja problemático. O financiamento pode ajudar famílias a administrar despesas e empresas a manter operações. O risco aparece quando a parcela da dívida cresce mais rapidamente que a renda disponível.
O mercado de trabalho também sente o ajuste
A reorganização econômica argentina afetou de maneira desigual os diferentes setores.
Enquanto segmentos ligados à energia, mineração e exportações passaram a receber maior atenção dos investidores, atividades dependentes do consumo interno enfrentaram um ambiente mais difícil.
A redução de subsídios e de despesas públicas também alterou a estrutura de preços e de demanda. Para famílias de renda mais baixa, despesas essenciais têm peso proporcionalmente maior no orçamento, tornando qualquer aumento de tarifas ou alimentos particularmente relevante.
A própria evolução do crédito mostra que parte da população passou a depender mais de financiamento para administrar o orçamento. No sistema financeiro argentino, a inadimplência das famílias chegou a 12,8% em junho de 2026, segundo o BCRA.
Empresas também enfrentam uma mudança de cenário
A abertura econômica e a redução de determinadas proteções ao mercado doméstico aumentaram a competição para empresas argentinas.
Indústrias voltadas ao consumidor interno podem enfrentar dificuldades quando precisam competir com produtos importados em um momento no qual a demanda doméstica ainda não se recuperou completamente.
O governo argentino apresenta essa transformação como parte da correção de desequilíbrios acumulados durante anos. Críticos das medidas, por outro lado, destacam os impactos sobre emprego, consumo e atividade industrial.
As duas interpretações ajudam a explicar a principal discussão econômica do país: até que ponto a estabilização macroeconômica consegue se transformar em melhora duradoura da renda e do emprego.
Por que a situação argentina interessa ao Brasil

A experiência argentina também chama atenção no Brasil porque envolve problemas conhecidos pelos consumidores brasileiros: inflação, juros, endividamento, perda de poder de compra e expansão do crédito.
Há, porém, diferenças importantes entre as duas economias. Os indicadores argentinos não podem ser simplesmente transportados para a realidade brasileira.
O caso argentino mostra, principalmente, que a queda da inflação e a melhora das contas públicas são indicadores importantes, mas não encerram a avaliação sobre a situação econômica de uma população. Emprego, salários reais, custo de serviços essenciais, acesso ao crédito e inadimplência também precisam ser acompanhados.
O BCRA, por exemplo, mantém uma Central de Devedores que reúne informações sobre financiamentos, atrasos e histórico de crédito. O registro inclui bancos e outros fornecedores financeiros e é atualizado periodicamente.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
