A arrecadação do governo federal alcançou R$ 239,4 bilhões em setembro de 2026, o maior valor registrado para o mês desde o início da série histórica da Receita Federal, em 1995. O resultado representa crescimento real de 5,6% em relação a setembro do ano passado, já descontada a inflação, e reforça a importância das receitas tributárias para o cumprimento das metas fiscais do governo.
O desempenho foi influenciado pelo crescimento da atividade econômica, por mudanças na tributação implementadas nos últimos anos e pela alta do preço do petróleo, que ampliou receitas relacionadas à exploração e à exportação do produto. Entre janeiro e setembro, a arrecadação federal também atingiu um recorde, enquanto o governo busca equilibrar as contas públicas em meio às despesas previstas para 2026.
Leia mais:
Não fez biometria? Título regular permite votar com documento oficial com foto
Arrecadação federal cresce 5,6% em setembro

Segundo os dados divulgados pela Receita Federal em 22 de outubro, o governo arrecadou R$ 239,4 bilhões em impostos, contribuições e outras receitas federais no mês de setembro. Em valores corrigidos pela inflação, o montante supera os R$ 226,6 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
O avanço real de 5,6% indica que o aumento das receitas não se explica apenas pela elevação dos preços na economia. Mesmo após o desconto da inflação, o governo conseguiu recolher mais recursos do que um ano antes.
O resultado estabelece um novo recorde para setembro na série histórica iniciada em 1995. A arrecadação, porém, não depende de um único fator: o desempenho da economia, as regras tributárias e as receitas provenientes de setores específicos contribuem para o resultado mensal.
O que explica o recorde de arrecadação?
O crescimento das receitas federais está relacionado a diferentes fatores. Entre eles estão a atividade econômica, as alterações na legislação tributária promovidas pelo governo e a valorização do petróleo no mercado internacional.
Crescimento da economia brasileira
Quando a economia cresce, empresas tendem a vender mais, a renda pode aumentar e as operações comerciais geram uma base maior para a cobrança de tributos. Esse movimento pode elevar a arrecadação sobre o consumo, a renda, os lucros e a atividade produtiva.
O efeito, entretanto, varia de acordo com o desempenho de cada setor e com o tipo de imposto. Um aumento da arrecadação não significa, isoladamente, que todos os brasileiros tiveram aumento de renda ou que todas as empresas ampliaram seus lucros.
Mudanças nos impostos e na legislação tributária
Outra parcela do resultado está associada às medidas adotadas pelo governo federal desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Algumas alterações ampliaram a tributação de determinadas operações e reduziram benefícios fiscais.
Entre as medidas estão:
- Fundos exclusivos e empresas offshore: mudanças nas regras de tributação de investimentos de alta renda e de ativos mantidos no exterior.
- Subvenções estaduais: alterações no tratamento tributário de incentivos concedidos pelos estados às empresas.
- Combustíveis: retomada de cobranças federais que haviam sido reduzidas ou suspensas, com mudanças iniciadas em 2023.
- Folha de pagamentos: reoneração gradual de setores anteriormente beneficiados por uma tributação reduzida sobre a contratação de trabalhadores.
- Setor de eventos: encerramento de benefícios tributários vinculados ao Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), conforme as regras aplicáveis.
- Imposto sobre Operações Financeiras (IOF): mudanças nas alíquotas de determinadas operações de crédito e câmbio.
- Juros sobre capital próprio: aumento da tributação sobre essa forma de remuneração dos acionistas.
Essas medidas têm efeitos diferentes sobre empresas, investidores e consumidores. Dependendo do tributo e da possibilidade de repasse de custos, uma parcela da cobrança pode chegar ao preço de produtos e serviços, enquanto outras alterações afetam diretamente os rendimentos ou os custos das empresas.
O crescimento da arrecadação, portanto, reflete tanto o comportamento da economia quanto decisões de política fiscal e tributária. Para medir a contribuição de cada fator, é necessário analisar separadamente os dados de cada imposto e as receitas extraordinárias.
Alta do petróleo aumenta receitas do governo
O preço internacional do petróleo também contribuiu para o avanço da arrecadação. A valorização da commodity, em meio às tensões entre Estados Unidos e Irã, elevou as receitas associadas à exploração petrolífera, incluindo royalties e participações governamentais.
Os royalties são compensações financeiras pagas pela exploração de recursos naturais. Já as participações governamentais abrangem outras receitas previstas no regime de exploração e produção de petróleo e gás.
Além desses valores, o governo estabeleceu uma cobrança adicional sobre exportações de petróleo. O impacto dessa medida depende do volume exportado, dos preços praticados e das regras aplicáveis à tributação.
Como essas receitas estão sujeitas às oscilações do mercado internacional, sua contribuição para os cofres públicos pode variar ao longo dos meses. Por isso, a arrecadação obtida em setembro não deve ser interpretada automaticamente como um nível permanente de receitas.
Arrecadação federal chega a R$ 2,38 trilhões no acumulado do ano
O desempenho de setembro acompanha o crescimento observado no acumulado de 2026. Entre janeiro e setembro, a arrecadação federal somou R$ 2,35 trilhões em valores nominais, sem descontar a inflação.
Após a correção pela variação dos preços, o total alcançou R$ 2,38 trilhões, segundo os dados apresentados pela Receita Federal. O valor representa crescimento real de 7% em relação ao mesmo período de 2025, quando a arrecadação corrigida foi de R$ 2,23 trilhões.
O montante também representa um recorde para os nove primeiros meses do ano. O resultado indica que o governo vem recolhendo mais recursos em termos reais, mas não significa, por si só, que as contas públicas estejam equilibradas.
A arrecadação é apenas um dos lados do orçamento. Para avaliar a situação fiscal, é necessário comparar as receitas com as despesas obrigatórias, os investimentos, os gastos com políticas públicas e os custos relacionados à dívida pública.
Como o aumento da arrecadação afeta as contas públicas?
Uma arrecadação maior pode ajudar o governo a financiar serviços públicos e cumprir as metas fiscais. Também pode reduzir a necessidade de buscar outras fontes de financiamento para cobrir despesas, desde que o crescimento das receitas seja suficiente em relação à evolução dos gastos.
Entretanto, a entrada adicional de recursos não garante superávit. Se as despesas crescerem em ritmo superior ao das receitas, o resultado fiscal poderá continuar negativo.
O recorde de setembro precisa ser analisado, portanto, em conjunto com a trajetória dos gastos públicos e com a qualidade das receitas. Receitas recorrentes, provenientes da atividade econômica e de tributos regulares, oferecem uma perspectiva diferente daquela proporcionada por cobranças extraordinárias ou por fatores temporários, como oscilações nos preços do petróleo.
Outro aspecto é a distribuição do impacto tributário. O aumento da arrecadação pode decorrer de mudanças que afetam diretamente empresas, investidores e consumidores, mas a intensidade desse efeito varia conforme a medida adotada e as condições de mercado.
Qual é a meta fiscal do governo para 2026?
O governo federal estabeleceu como objetivo para 2026 um superávit primário equivalente a 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), estimado em aproximadamente R$ 34,3 bilhões. O resultado primário corresponde à diferença entre receitas e despesas do governo, sem considerar os juros da dívida pública.
A meta faz parte do regime fiscal instituído pela legislação aprovada em 2023, conhecido como arcabouço fiscal. O modelo estabelece limites para a evolução das despesas e prevê uma margem de tolerância para o cumprimento do objetivo anual.
Como funciona a margem de tolerância?
A meta central de superávit primário para 2026 tem uma faixa de tolerância de 0,25 ponto percentual do PIB para cima ou para baixo. Considerando os valores apresentados para o ano, o limite inferior corresponde a um resultado próximo de zero, enquanto o limite superior equivale a um superávit de aproximadamente R$ 68,6 bilhões.
Isso significa que o governo pode cumprir formalmente a meta mesmo sem alcançar o superávit central de R$ 34,3 bilhões, desde que o resultado fique dentro da faixa permitida e sejam respeitadas as regras fiscais aplicáveis.
Há, ainda, despesas que podem ser excluídas do cálculo oficial, conforme as autorizações legais. Entre elas estão valores destinados ao pagamento de precatórios, que são dívidas do poder público reconhecidas por decisão judicial.
De acordo com os números apresentados, o governo considera a possibilidade de retirar R$ 57,8 bilhões em despesas do cálculo da meta. Essa exclusão altera o resultado utilizado para verificar o cumprimento formal do objetivo fiscal, mas não elimina a saída efetiva de dinheiro dos cofres públicos.
Por que o governo pode registrar déficit mesmo cumprindo a meta?
A diferença entre o resultado fiscal oficial e o fluxo efetivo de receitas e despesas é essencial para compreender as contas públicas.
Quando determinadas despesas são excluídas do cálculo autorizado pela legislação, o governo pode atingir a meta fiscal considerada para fins de cumprimento das regras e, simultaneamente, registrar um resultado negativo quando essas despesas são incluídas na conta mais ampla.
Nas projeções mencionadas para 2026, o resultado seria um déficit de R$ 23,3 bilhões, mesmo com a possibilidade de cumprimento formal da meta. Trata-se de uma estimativa, e não de um resultado anual definitivo.
O saldo efetivo só poderá ser confirmado após a consolidação das receitas e despesas do exercício. Até lá, mudanças na atividade econômica, na arrecadação e na execução orçamentária poderão alterar o resultado final.
O que esperar da arrecadação até o fim de 2026?

Os dados de setembro e do acumulado do ano indicam um desempenho favorável das receitas federais. O desafio para o governo será transformar esse crescimento em condições mais sustentáveis para o financiamento das políticas públicas e para o cumprimento das regras fiscais.
Nos próximos meses, a evolução da economia, a arrecadação dos principais tributos, as receitas do petróleo e a execução das despesas serão fatores decisivos. Também será necessário acompanhar quais receitas têm caráter recorrente e quais dependem de condições excepcionais.
Para avaliar se o recorde representa uma melhora duradoura das contas públicas, o leitor deve observar não apenas os valores arrecadados, mas também o resultado primário, a evolução dos gastos e a trajetória da dívida pública.
Conclusão
A arrecadação federal de R$ 239,4 bilhões em setembro de 2026 estabeleceu um recorde para o mês e reforçou o crescimento das receitas públicas ao longo do ano. O avanço real de 5,6% em relação a setembro de 2025 foi associado ao desempenho da economia, às mudanças tributárias e à valorização do petróleo.
Apesar do resultado positivo, o aumento da arrecadação não garante equilíbrio fiscal. O cumprimento da meta de 2026 dependerá da relação entre receitas e despesas, das regras para o cálculo oficial e da evolução dos gastos excluídos desse cálculo.
Para acompanhar a situação das contas públicas, é recomendável observar os próximos relatórios fiscais e comparar o resultado primário oficial com as despesas efetivamente realizadas. Essa análise permite entender se o crescimento das receitas está contribuindo para uma melhora consistente das finanças do governo.
