O debate sobre a adoção do Bitcoin por governos soberanos ganhou um novo capítulo com as declarações de Arthur Hayes, cofundador e ex-CEO da BitMEX, uma das mais conhecidas plataformas de derivativos de criptomoedas do mundo.
Arthur Hayes afirma que governo dos EUA não investirá em Bitcoin: dívida e estigma dificultam avanço
Arthur Hayes, ex-CEO da BitMEX, afirma que o governo dos EUA dificilmente investirá ativamente em Bitcoin devido à dívida pública e ao estigma sobre a comunidade cripto.
Em entrevista recente ao empresário Kyle Chasse, Hayes deixou claro seu ceticismo quanto à possibilidade de os Estados Unidos aumentarem sua exposição ao Bitcoin além dos cerca de 198.000 BTC que já estão sob controle do governo, oriundos de confisco em operações criminais.
Para Hayes, a situação fiscal dos EUA e o estigma ainda presente sobre a comunidade cripto tornam politicamente inviável qualquer movimento institucional proativo de acumulação da criptomoeda.
Leia mais:
Bitcoin a US$ 1 milhão até 2029? Bitwise projeta disparada impulsionada por ETFs e governos
Bitcoin nas mãos do governo dos EUA: realidade ou ficção?
De acordo com dados públicos, o governo americano já possui cerca de 198 mil Bitcoins, fruto de operações de apreensão de ativos digitais envolvendo crimes como lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e esquemas de fraude.
Embora a posse desses ativos represente uma entrada significativa no balanço estatal, Hayes observa que essa é uma posição passiva, oriunda de ações judiciais, e não fruto de uma estratégia de acumulação.
“A única maneira de os EUA terem uma reserva estratégica de Bitcoin é manterem os BTC que tiraram das pessoas. Eles não vão comprar mais, não têm condições”, disse Hayes.
Dívida trilionária é um entrave
Um dos principais argumentos de Hayes gira em torno da situação fiscal crítica dos Estados Unidos. Com uma dívida pública ultrapassando os US$ 34 trilhões, qualquer emissão adicional de moeda para adquirir Bitcoin poderia ser mal recebida tanto no cenário político interno quanto entre os credores internacionais.
“Como uma autoridade eleita explicaria ao contribuinte que está imprimindo mais dinheiro para comprar Bitcoin?”, questiona o analista.
Estigma da comunidade cripto dificulta adoção estatal
Segundo Hayes, outro obstáculo importante é o estigma que ainda cerca a cultura cripto. Embora o Bitcoin tenha conquistado espaço no mundo financeiro tradicional, muitos formuladores de políticas públicas ainda o associam a práticas ilegais, especulação desenfreada e a uma cultura de ostentação digital.
“A imagem pública de um monte de maximalistas de Bitcoin indo para festas com lasers nos olhos não é o tipo de narrativa que os políticos querem vincular às políticas públicas”, afirmou o ex-CEO da BitMEX.
Mineração de Bitcoin: uma solução alternativa?

Hayes menciona que uma alternativa mais viável politicamente seria a mineração estatal de Bitcoin, semelhante ao que ocorre em algumas regiões da China, onde excedentes de eletricidade são usados para minerar criptomoedas em larga escala.
Para ele, essa estratégia permitiria aos EUA acumular BTC de forma produtiva, sem recorrer à impressão monetária direta.
“Os chineses têm energia sobrando. Por que os EUA não usariam energia renovável subutilizada para minerar Bitcoin?”, sugeriu.
Reações da comunidade cripto
Apesar do ceticismo de Hayes, muitos na comunidade cripto acreditam que uma eventual decisão dos EUA de comprar Bitcoin no mercado aberto poderia desencadear uma corrida global por reservas estratégicas da criptomoeda, forçando outros países a fazer o mesmo.
Essa hipótese, embora improvável segundo Hayes, ganha força entre analistas que veem o BTC como uma reserva digital superior ao ouro, especialmente em um cenário de crescente desdolarização global.
Domínio do Bitcoin se aproxima de patamares históricos
Outro ponto levantado por Hayes diz respeito ao atual nível de domínio do Bitcoin, que se aproxima dos 70% de capitalização de mercado entre todas as criptomoedas. No início de maio de 2025, o domínio do BTC estava em 64,89%, segundo dados do CoinMarketCap — o maior desde janeiro de 2021.
Para o analista, esse movimento indica o retorno dos mercados de alta e pode ser um sinal de que os investidores institucionais estão priorizando a segurança e a liquidez do Bitcoin em relação às altcoins.
“O Bitcoin está reassumindo seu papel dominante. Isso sugere que estamos no início de um novo ciclo de valorização.”
Altcoins: cenário mais complexo
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Segundo Hayes, embora o novo ciclo de alta pareça estar em curso, o desempenho das altcoins será mais seletivo e dependerá da escolha dos projetos certos.
“As altcoins vão subir, mas não todas. O mercado está mais exigente, e os fluxos estão mais atentos aos fundamentos.”
Sinais tradicionais da altseason estão obsoletos
Outros analistas, como Ki Young Ju, da CryptoQuant, destacam que os sinais clássicos de altseason — como queda no domínio do BTC ou volume em pares alternativos — já não se aplicam ao mercado atual.
Em vez disso, o volume negociado em stablecoins e moedas fiduciárias se tornou o novo termômetro do interesse institucional e da liquidez real do mercado.
“Hoje o que movimenta o mercado são os fluxos em dólares e stablecoins, não mais os ciclos tradicionais de dominância.”
Perspectivas futuras e implicações para o mercado
Mesmo com o crescente interesse de empresas privadas, como Tesla e MicroStrategy, e o avanço dos ETFs de Bitcoin nos EUA, o cenário de adoção institucional por parte de governos soberanos ainda é limitado.
A postura passiva dos EUA em relação ao Bitcoin, mantendo apenas os ativos apreendidos, reforça a tese de que a criptomoeda ainda não é vista como prioridade estratégica por Washington, ao menos por enquanto.
No entanto, se países como China, Rússia ou mesmo nações emergentes começarem a acumular Bitcoin de forma sistemática, o panorama pode mudar rapidamente. Nesse contexto, os EUA poderiam ser forçados a agir por medo de perder relevância na arena monetária global.
Considerações finais

As declarações de Arthur Hayes lançam luz sobre os desafios políticos, econômicos e culturais que envolvem a adoção institucional do Bitcoin por grandes potências como os Estados Unidos. Em um momento de instabilidade fiscal e pressão política, o governo americano parece longe de considerar o BTC como parte ativa de sua política monetária ou de reservas estratégicas.
Ainda assim, o avanço da mineração, a consolidação do domínio do Bitcoin no mercado e o possível despertar de uma corrida por reservas digitais sugerem que essa realidade pode mudar — mais cedo do que muitos esperam.
