A combinação de desaceleração econômica, inflação persistente e incertezas sobre a política fiscal colocou o Banco Central diante de um dos cenários mais delicados dos últimos meses. A avaliação é do economista Tony Volpon, ex-diretor da instituição, que considera difícil retomar os cortes na taxa básica de juros enquanto as expectativas de inflação continuarem se deteriorando.
A análise ocorre após o Comitê de Política Monetária (Copom) decidir, na quarta-feira (4), manter a taxa Selic em 13,75% ao ano. A decisão interrompeu uma sequência de cinco reduções consecutivas e sinalizou uma postura mais cautelosa diante das mudanças no ambiente econômico brasileiro.
Para Volpon, a autoridade monetária perdeu espaço para estimular a atividade econômica por meio da redução dos juros justamente quando os indicadores começam a apontar um enfraquecimento do crescimento.
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O principal problema está no conflito entre dois objetivos da política monetária: controlar a inflação e evitar uma desaceleração excessiva da economia.
Quando a atividade econômica perde força, a redução dos juros costuma ser uma alternativa para estimular o consumo, facilitar o acesso ao crédito e incentivar investimentos das empresas. Entretanto, quando a inflação apresenta sinais de aceleração, o Banco Central precisa agir com cautela para evitar que os preços continuem subindo.
Na avaliação de Volpon, essa combinação limita as alternativas disponíveis para o Copom.
Em entrevista ao UOL, o economista resumiu a situação ao afirmar que não consegue responder à queda da atividade econômica porque a inflação e as expectativas de preços estão aumentando.
O problema é que manter os juros elevados também tem consequências. Famílias encontram dificuldades para financiar imóveis, veículos e outros bens, enquanto empresas enfrentam custos maiores para contratar empréstimos e expandir suas operações.
Selic permanece em 13,75% após cinco cortes consecutivos
A decisão anunciada em 4 de novembro marcou uma mudança na condução recente da política monetária.
Antes da reunião, o Banco Central havia promovido cinco reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual. Com isso, a Selic chegou a 13,75% ao ano, interrompendo temporariamente o movimento de flexibilização.
A manutenção da taxa foi unânime entre os integrantes do Copom.
No comunicado, o colegiado apontou uma combinação de fatores que exige maior cautela, incluindo o agravamento das tensões no Oriente Médio, a pressão sobre os preços internacionais do petróleo e uma política monetária mais restritiva em economias avançadas.
No ambiente doméstico, o Banco Central identificou uma desaceleração mais acentuada da atividade econômica. Ao mesmo tempo, observou aceleração da inflação e das medidas que acompanham o comportamento dos preços.
As projeções do próprio comitê também foram revisadas para cima. No cenário de referência, a estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou a ser de 5,6% em 2026, 4,7% em 2027 e 3,5% no segundo trimestre de 2028.
Os números reforçam a preocupação da autoridade monetária com a dificuldade de trazer a inflação de volta à meta.
Ajuste fiscal pode abrir espaço para novos cortes de juros
Para Tony Volpon, uma eventual retomada da redução da Selic depende principalmente das decisões do governo federal sobre as contas públicas.
O economista avalia que a escolha de um novo ministro da Fazenda, isoladamente, não será suficiente para recuperar a confiança dos investidores. Será necessário que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstre apoio efetivo a medidas de controle dos gastos públicos.
A preocupação está relacionada à percepção de risco fiscal. Quando investidores questionam a capacidade do governo de equilibrar suas receitas e despesas, podem exigir retornos maiores para financiar a dívida pública, pressionando os juros de mercado e o câmbio.
Uma moeda brasileira mais desvalorizada também pode encarecer produtos importados, combustíveis e insumos utilizados pela indústria. Esse movimento tende a aumentar os custos de produção e pode chegar ao consumidor final.
Na interpretação de Volpon, um compromisso mais consistente com o equilíbrio fiscal poderia melhorar a confiança do mercado, reduzir essas pressões e criar condições para que o Banco Central volte a considerar cortes na taxa básica.
O economista defende que a decisão precisa partir do próprio presidente, já que a implementação de um ajuste depende de respaldo político para medidas que podem enfrentar resistência.
Eleição aumenta incertezas sobre a economia brasileira
Outro elemento considerado relevante por Volpon é a reação dos mercados financeiros ao resultado da eleição presidencial.
A deterioração das expectativas após o processo eleitoral aumentou as preocupações sobre os rumos da política econômica e a condução das contas públicas.
Na avaliação do ex-diretor, a combinação entre o resultado eleitoral e a reação dos investidores teve peso decisivo na interrupção do ciclo de cortes da Selic.
Embora o cenário internacional também tenha contribuído para aumentar as incertezas, Volpon considera que o componente doméstico foi determinante para a decisão do Banco Central.
A preocupação não se limita às medidas fiscais. O economista também acompanha as próximas indicações do presidente para a diretoria da autoridade monetária.
Os nomes escolhidos precisam passar pela aprovação do Senado Federal. Para Volpon, indicações percebidas pelo mercado como excessivamente distantes do compromisso convencional com o controle da inflação poderiam provocar uma nova deterioração das expectativas.
Isso dificultaria ainda mais o trabalho do Copom e poderia até abrir espaço para uma elevação dos juros.
Banco Central pode voltar a aumentar a Selic?
Embora a manutenção da taxa tenha interrompido o ciclo de cortes, o próximo movimento do Banco Central ainda não está definido.
Volpon avalia que o comunicado divulgado pelo Copom não apresenta uma indicação clara de retomada das reduções na reunião seguinte. A autoridade monetária preferiu manter em aberto suas decisões, condicionando os próximos passos à evolução dos indicadores econômicos.
O economista também considera que uma nova piora das expectativas de inflação poderia justificar uma elevação da Selic, mesmo diante de uma atividade econômica mais fraca.
Esse é um dos aspectos mais delicados do cenário atual: enquanto uma melhora moderada das expectativas talvez não seja suficiente para autorizar novos cortes, uma deterioração mais intensa pode levar o Banco Central a endurecer ainda mais a política monetária.
A avaliação também envolve a credibilidade da instituição. A manutenção dos juros, mesmo com sinais de desaceleração econômica, demonstra que o Copom pretende preservar o compromisso com a estabilidade dos preços.
Volpon considera que a postura adotada pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afasta preocupações imediatas sobre uma eventual submissão da política monetária a pressões políticas por juros menores.
Cenário lembra dificuldades enfrentadas em 2015
O ex-diretor também comparou o momento atual ao período de 2015, quando integrava a diretoria do Banco Central.
Naquela época, a economia brasileira enfrentava inflação elevada, expectativas de preços distantes da meta e forte deterioração da atividade econômica.
A comparação ajuda a compreender por que o atual impasse preocupa os formuladores de política econômica. Quando inflação e desaceleração acontecem simultaneamente, a autoridade monetária precisa lidar com consequências negativas independentemente da decisão tomada.
Reduzir os juros prematuramente pode alimentar a inflação. Mantê-los elevados por muito tempo, por outro lado, pode ampliar as dificuldades enfrentadas por empresas e consumidores.
A diferença é que o cenário atual também apresenta incertezas relacionadas à condução fiscal e às expectativas sobre os próximos anos.
O que a manutenção dos juros significa para consumidores e empresas?
A permanência da Selic em 13,75% tende a manter elevado o custo do crédito no Brasil.
Para os consumidores, isso pode representar financiamentos mais caros, parcelas maiores e maior dificuldade para contratar empréstimos. Quem pretende comprar um imóvel ou um veículo financiado também pode encontrar condições menos favoráveis.
No caso das empresas, os juros elevados aumentam o custo de capital e podem levar ao adiamento de investimentos, contratações e projetos de expansão.
Por outro lado, aplicações financeiras de renda fixa atreladas à taxa básica continuam oferecendo retornos elevados, embora a rentabilidade efetiva dependa de impostos, taxas e condições de cada investimento.
O cenário exige atenção especialmente de quem possui dívidas com juros elevados, já que o custo do crédito pode comprometer uma parcela maior do orçamento familiar.
O que esperar das próximas decisões do Banco Central?

A tendência é que o Copom acompanhe de perto a inflação, as expectativas do mercado, o comportamento do câmbio e os sinais de desaceleração da atividade econômica.
A condução das contas públicas também deverá permanecer entre os principais fatores observados pelos investidores e pela autoridade monetária.
Uma melhora consistente na percepção de risco fiscal poderia contribuir para reduzir as pressões sobre o câmbio e a inflação. Em contrapartida, novas incertezas sobre os gastos públicos ou sobre a autonomia da política monetária poderiam prolongar o período de juros elevados.
A avaliação de Tony Volpon aponta que o Banco Central entrou em uma fase na qual terá pouco espaço para decisões que estimulem a economia sem aumentar os riscos inflacionários.
Para o consumidor, isso significa que a expectativa de crédito mais barato pode demorar a se concretizar. Para o governo, o desafio será demonstrar que consegue conciliar crescimento econômico, responsabilidade fiscal e estabilidade de preços.
Conclusão
O impasse enfrentado pelo Banco Central evidencia os desafios da economia brasileira diante da combinação entre inflação persistente, desaceleração da atividade e incertezas fiscais. A avaliação de Tony Volpon mostra que a retomada dos cortes da Selic depende não apenas da evolução dos indicadores econômicos, mas também da capacidade do governo de recuperar a confiança dos investidores.
Enquanto as expectativas de inflação permanecerem pressionadas, o Copom deverá manter uma postura cautelosa, mesmo diante dos efeitos negativos dos juros elevados sobre o consumo e os investimentos. Os próximos movimentos da política monetária dependerão, portanto, de sinais mais consistentes de controle dos preços e equilíbrio das contas públicas.
