Banco do Brasil (BBAS3): como o pessimismo do mercado afeta os dividendos?
O otimismo em torno do Banco do Brasil (BBAS3) se transformou em cautela em 2025. Após anos de generosos pagamentos de dividendos, o banco estatal vê seu desempenho questionado por analistas e investidores, diante de resultados decepcionantes e projeções negativas para o segundo trimestre.
Desde a divulgação do balanço do primeiro trimestre, as ações da instituição já acumulam queda de 23,81% e recuam 5,15% no ano. O cenário adverso fez o mercado rever suas expectativas quanto aos dividendos do Banco do Brasil, uma das principais fontes de atração para investidores de perfil mais conservador.
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O que causou a desvalorização das ações?

Resultados decepcionantes no 1T25
Em maio, o BB reportou lucro líquido ajustado de R$ 7,374 bilhões, 20,7% menor que no mesmo período de 2024. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) também caiu para 16,7%, redução de 4,98 pontos percentuais na comparação anual.
O desempenho foi fortemente impactado pela Resolução nº 4.966 do Conselho Monetário Nacional, que passou a exigir a antecipação das provisões para perdas com crédito. A inadimplência do setor rural disparou de 1,19% para 3,04%, comprometendo parte significativa da carteira de crédito.
Impacto nas recomendações do mercado
A deterioração nos indicadores levou diversos bancos e corretoras a retirar BBAS3 das carteiras recomendadas focadas em dividendos. Isso provocou uma onda de vendas e consequente desvalorização das ações, que chegaram a R$ 20,67 — queda de 11% apenas em 2025.
Estimativas para os dividendos de 2025
Projeções pessimistas dominam os relatórios
Com a proximidade do próximo balanço, que será divulgado em 13 de agosto, analistas ajustaram para baixo suas previsões sobre o dividend yield (DY) do banco em 2025.
O Safra projeta um DY de 6,2%, contra os 12,3% pagos no ano passado. A expectativa é que o lucro líquido do BB sofra uma queda de 51,1% no segundo trimestre.
O Itaú BBA segue a mesma linha, estimando uma necessidade de R$ 24 bilhões em provisões adicionais, devido à inadimplência nas carteiras de agronegócio, varejo e corporativa. Como consequência, o banco reduziu o payout de dividendos de 40-45% para 30%, o que também deve resultar em um DY próximo de 6%.
Genial e Monte Bravo divergem em valores
As corretoras Genial Investimentos e Monte Bravo também reviram suas expectativas:
- A Genial projeta distribuição de R$ 2,3 bilhões em dividendos.
- Já a Monte Bravo estima um valor de R$ 1,5 bilhão, após cortar a projeção em 30%.
Ambas estimativas levam em conta o cenário de baixa lucratividade e maior conservadorismo da gestão.
Parte dos proventos já foi paga
Apesar da incerteza, o BB manteve seu cronograma de pagamentos. Em 12 de junho, distribuiu R$ 516,3 milhões em Juros sobre Capital Próprio (JCP), o que equivale a R$ 0,09044686629 por ação. Esse valor corresponde a uma parcela dos proventos referentes ao segundo trimestre, pagos de forma antecipada.
O valor total a ser anunciado no dia 13 de agosto continua sendo um mistério. O pagamento integral dos dividendos está programado para 11 de setembro.
O que explica a deterioração no desempenho do BB?
A nova regra do Conselho Monetário Nacional
A principal mudança que afetou os números do BB foi a Resolução nº 4.966 do CMN, que impôs novas exigências contábeis às instituições financeiras. Agora, os bancos precisam registrar provisões mais cedo para cobrir perdas esperadas, mesmo antes de ocorrerem efetivamente os calotes.
Essa antecipação de provisões reduziu o lucro líquido reportado no primeiro trimestre, prejudicando os indicadores de desempenho e alarmando o mercado.
A inadimplência no agronegócio e em PMEs
Outro fator relevante é o aumento da inadimplência na carteira de crédito. O agronegócio, antes considerado um setor sólido, viu os atrasos saltarem para 3,04%, e as pequenas e médias empresas (PMEs) também passaram a representar risco elevado.
Segundo o relatório da equipe do Safra, os maiores impactos no segundo trimestre virão justamente da carteira de crédito corporativo. A expectativa é de mais um período fraco, sem recuperação significativa até o fim do ano.
Preocupações com o varejo e crédito pessoal
Além do agro e do crédito corporativo, as famílias também estão pressionadas, especialmente nas faixas de renda mais baixas. Com o crescimento do endividamento e o consumo ainda contido, o Banco do Brasil precisa equilibrar a concessão de crédito com o controle do risco, o que limita o crescimento e a rentabilidade.
O que dizem os analistas
Safra: dividendos em forte queda
“Projetamos mais um trimestre fraco para o BB. Acreditamos que a queda no segundo trimestre possa vir da carteira de crédito corporativo, especialmente de pequenas e médias empresas.” — Daniel Vaz, Maria Luisa Guedes e Rafael Nobre, analistas do Safra.
Itaú BBA: cenário preocupante até o fim do ano
“Espera-se que os próximos trimestres sejam piores que o primeiro, devido ao cronograma natural de atraso no crédito, e não antecipamos melhorias significativas neste ano.” — Pedro Leduc, Mateus Raffaelli e William Barranjar, equipe de research do Itaú BBA.
Terra Investimentos: dividend yield de 8%
“Reduzimos nossa projeção de DY para o BB em um ponto percentual, estimando agora 8% para 2025. Seguimos atentos ao impacto da inadimplência rural.” — relatório da corretora.
O que o investidor deve observar?

Acompanhar o balanço de agosto
O próximo grande evento será a divulgação do balanço do 2º trimestre, marcada para 13 de agosto. Esse relatório trará respostas concretas sobre o tamanho do impacto da inadimplência nos resultados.
Análise do payout e do lucro líquido
É essencial observar o percentual do lucro líquido destinado aos dividendos (payout). Com a queda prevista nos lucros e o aumento das provisões, esse número tende a cair — e, com ele, os valores pagos aos acionistas.
Reações do mercado
O comportamento das ações até setembro também servirá de termômetro para o futuro dos dividendos do BB. A continuidade da pressão vendedora pode indicar desconfiança prolongada dos investidores institucionais.
Considerações finais
O Banco do Brasil vive um momento delicado. O impacto das novas regras contábeis, somado ao avanço da inadimplência, está forçando o banco a adotar uma postura mais conservadora. A consequência imediata é a queda no lucro e, por consequência, a redução dos dividendos pagos aos acionistas.
Para o investidor, o momento exige cautela e atenção redobrada. Embora o BBAS3 continue sendo uma ação relevante do ponto de vista institucional, o perfil de risco mudou, e os dividendos outrora generosos agora carregam uma incerteza que não pode ser ignorada.