O Banco do Brasil (BBAS3) tem estado entre os papéis mais comentados da Bolsa de Valores em 2025. Diferente de anos anteriores, quando a instituição era destaque pela solidez e forte presença no mercado financeiro, agora o banco lida com uma série de fatores que pressionaram seus resultados. A combinação de alta da inadimplência no agronegócio, novas regras do Banco Central e a necessidade de maiores provisões para perdas culminou em uma queda expressiva do lucro.
Enquanto o banco tenta ajustar sua estratégia, investidores e analistas avaliam se a recente ajuda do governo será suficiente para reverter o quadro e devolver confiança ao mercado.
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A inadimplência no agronegócio e o impacto nos números
Do motor da economia ao foco de preocupação
O agronegócio sempre foi considerado um dos pilares do Banco do Brasil. No entanto, o setor registrou uma piora significativa em seus indicadores de crédito. A inadimplência acima de 90 dias, que girava em torno de 1%, disparou para níveis entre 3% e 4%.
Essa deterioração ocorreu em paralelo à aplicação da Resolução CMN 4.966, do Banco Central, que obrigou os bancos a provisionarem perdas esperadas, em vez de apenas as perdas efetivas.
Queda abrupta do lucro
O efeito foi devastador para o balanço. O lucro do Banco do Brasil caiu pela metade, passando de R$ 9 bilhões para cerca de R$ 4 bilhões. O ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido), que já foi de 22%, despencou para 8%.
Com isso, a instituição reduziu a distribuição de dividendos, passando a remunerar os acionistas com 30% dos lucros, gerando um dividend yield de apenas 4%, bem abaixo dos 10% de anos anteriores.
A reação do mercado e da política
Narrativa do governo
No Palácio do Planalto, a leitura foi distinta. O aumento da inadimplência foi parcialmente atribuído à expectativa criada no setor rural de que haveria renegociação de dívidas em condições mais favoráveis.
De fato, o Congresso aprovou uma linha de crédito subsidiado para o agro, o que pode ter incentivado alguns produtores a adiar pagamentos na esperança de melhores condições futuras.
Confiança em Tarciana Medeiros
Apesar dos resultados ruins, a CEO Tarciana Medeiros segue com apoio político. Fontes ligadas ao governo reforçam que ela ainda tem prestígio dentro do Planalto, o que garante estabilidade na condução da instituição em um momento delicado.
A ajuda do governo e a Medida Provisória
R$ 12 bilhões para renegociação
Com o setor em crise, o governo anunciou uma Medida Provisória (MP) para renegociação de dívidas rurais, disponibilizando R$ 12 bilhões em linhas de crédito.
O objetivo é apoiar até 100 mil produtores, especialmente pequenos e médios agricultores. Os programas incluem condições diferenciadas de financiamento:
- Pronaf (Agricultura Familiar): até R$ 250 mil com juros de 6% ao ano.
- Pronamp (Médios produtores): até R$ 1,5 milhão com juros de 8% ao ano.
- Demais produtores: até R$ 3 milhões com juros de 10% ao ano, com prazo de até nove anos, incluindo um ano de carência.
Segundo a CEO do Banco do Brasil, cerca de 48 mil clientes estão inadimplentes, e a MP pode ajudar a reverter parte desse cenário.
Expectativa de recuperação
Para Tarciana Medeiros, a renegociação pode acelerar a retomada dos resultados, mas ainda há incerteza sobre o ritmo de adesão. O mercado vê a MP como positiva, mas analistas alertam que o impacto pode ser apenas temporário.
O papel do Banco Central na flexibilização
Além do governo, o Banco Central revisou a Resolução 4.966/2021, permitindo reclassificação de empréstimos de longo prazo desde que os clientes comprovem capacidade de pagamento.
Essa alteração pode beneficiar uma carteira de até R$ 12,5 bilhões em atrasos, trazendo alívio potencial de R$ 2 bilhões por ano na margem financeira bruta do Banco do Brasil.
O que dizem os analistas
Medida pode ser paliativa
Para especialistas, a MP é um fôlego importante, mas não resolve problemas estruturais. O agronegócio é altamente sensível ao clima e aos preços internacionais, o que torna as soluções temporárias arriscadas.
O analista Bruno Komura, da Potenzia Investimentos, avalia que parte da carteira prorrogada pode apenas adiar inadimplências futuras.
Recomendações de bancos de investimento
- XP Investimentos: reduziu o preço-alvo das ações do BB, citando riscos macroeconômicos e altas taxas de juros.
- Banco Safra: manteve recomendação neutra, destacando fundamentos fracos e endividamento elevado do agronegócio.
Ainda assim, o baixo preço relativo das ações tem atraído investidores que buscam oportunidades de longo prazo.
Ações do Banco do Brasil e a percepção do investidor
Recuperação parcial em 2025
Apesar das más notícias, as ações BBAS3, que chegaram a acumular queda de 23% no ano, agora registram baixa de apenas 8%. Desde a mínima, já houve uma recuperação de 18%.
O papel se tornou o mais negociado por pessoas físicas na B3, ultrapassando até mesmo a Vale (VALE3).
Preços e perspectivas
O analista Flavio Conde, da Levante, defende a compra do papel, mas alerta que não há espaço para grandes saltos no preço. Segundo ele, dificilmente as ações voltarão ao pico de R$ 29,76 no curto prazo, mas devem se manter afastadas do fundo de R$ 18.
Valuation atrativo
Comparado aos pares privados, o Banco do Brasil está descontado. Enquanto Bradesco negocia a 110% do valor patrimonial e Itaú perto de 200%, o BB está em apenas 70%. Isso reforça a visão de que há oportunidade, embora o risco seja elevado.
Riscos adicionais e incertezas políticas
Além da inadimplência e da desaceleração econômica, há riscos políticos que podem afetar o desempenho das ações. A possibilidade de repercussões da chamada Lei Magnitsky, aplicada contra autoridades brasileiras, foi citada como um fator externo que pode trazer volatilidade inesperada.
Conclusão: oportunidade ou armadilha?
O Banco do Brasil enfrenta um dos momentos mais desafiadores de sua história recente. A queda de 50% no lucro, o aumento da inadimplência no agronegócio e a necessidade de maiores provisões pressionaram resultados e acionistas.
No entanto, o apoio do governo, a renegociação de dívidas e a flexibilização regulatória podem garantir algum alívio nos próximos trimestres.
Para investidores, o papel representa tanto um risco elevado quanto uma oportunidade de valorização, dependendo da capacidade do banco em atravessar essa crise sem deteriorar ainda mais seus fundamentos.
