O Banco Master, instituição financeira brasileira com atuação crescente no setor de câmbio e investimentos, anunciou em junho de 2025 sua entrada no Cross-Border Interbank Payment System (Cips), o sistema interbancário de pagamentos internacionais desenvolvido pela China.
Banco Master passa a usar sistema de pagamentos internacionais da China
Banco Master torna-se o único da América Latina a integrar o sistema Cips da China, promovendo transações internacionais com o uso do iuane.
O movimento coloca o banco como o único da América Latina a integrar oficialmente essa plataforma, que representa uma alternativa à infraestrutura tradicional dominada pelo dólar e pela rede Swift.
O anúncio ocorreu durante a China International Financial Exhibition 2025, em Xangai, e marca uma nova etapa na internacionalização da moeda chinesa, o iuane (CNY), e na consolidação de um sistema financeiro global menos concentrado.
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O que é o sistema Cips?

Uma alternativa à Swift
Criado em 2015 pelo Banco Popular da China, o Cips tem como missão facilitar as liquidações financeiras internacionais em moeda chinesa — o renminbi, cujo iuane é a unidade mais comum.
O sistema foi idealizado para reduzir a dependência do dólar americano nas transações globais, oferecendo uma infraestrutura segura, rápida e eficiente para pagamentos entre instituições financeiras de diferentes países.
Diferente da Swift, que atua como uma rede de mensagens para ordens de pagamento (sem executar os pagamentos diretamente), o Cips é um sistema de compensação real, capaz de realizar liquidações diretamente em iuane, sem necessidade de bancos intermediários ou conversões em dólar.
Crescimento e adesão global
Desde seu lançamento, o sistema já reuniu mais de mil instituições financeiras em quase cem países. Com o avanço do comércio internacional envolvendo a China e com as crescentes tensões geopolíticas que afetam o sistema financeiro global tradicional, o uso do Cips tem crescido exponencialmente nos últimos anos.
A importância da adesão do Banco Master
Marco para a América Latina
Com a entrada no Cips, o Banco Master se posiciona como o único banco latino-americano a operar diretamente nessa infraestrutura financeira chinesa, o que pode gerar impactos relevantes nas relações comerciais entre Brasil e China.
Segundo Felipe Wallace Simonsen, head de câmbio da instituição, a medida contribui para aproximar o real e o renminbi, fomentando uma nova fase de integração econômica e financeira entre os dois países. A adesão ao Cips facilita as transações diretas, reduz custos de conversão e dá mais agilidade às operações cambiais bilaterais.
Contexto internacional favorece desdolarização
O papel dos Brics
A decisão do Banco Master deve ser entendida dentro de uma tendência mais ampla entre os países emergentes, especialmente os que compõem o grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Esses países têm buscado maior autonomia monetária em suas relações comerciais e financeiras, evitando a exposição a flutuações do dólar ou a sanções aplicadas pelos EUA.
A utilização de moedas locais, como o iuane, rublo ou rúpia, em transações bilaterais, bem como o desenvolvimento de moedas digitais de bancos centrais, faz parte de uma estratégia geoeconômica para reconfigurar o sistema financeiro internacional, tornando-o mais multipolar.
Brasil e China lideram fluxo comercial
O comércio entre Brasil e China superou US$ 188 bilhões em 2024, sendo a China o maior parceiro comercial brasileiro. Entre os principais produtos exportados para o gigante asiático estão soja, minério de ferro e petróleo.
O uso do Cips permite pagamentos diretos em iuane, facilitando a operação para exportadores brasileiros, que não precisam mais passar pelo dólar como moeda intermediária. Isso gera ganhos operacionais e cambiais, além de aumentar a previsibilidade das receitas.
Benefícios econômicos da adesão ao Cips
Redução de custos e riscos cambiais
Ao permitir a conversão direta entre real e iuane, o sistema Cips elimina a necessidade de dupla conversão cambial (real → dólar → iuane), o que representa economia de tempo e dinheiro para empresas brasileiras e investidores chineses.
Segundo Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master, essa integração financeira ajuda a reduzir os custos com operações de hedge cambial, além de diminuir a exposição a choques no mercado de dólar.
Fortalecimento do investimento direto
Com a adesão ao sistema, o Brasil também se torna mais atraente para o investimento direto chinês, sobretudo em setores como infraestrutura, energia, agronegócio e tecnologia. Com o uso do iuane facilitado, os investidores ganham confiança e segurança jurídica para ampliar sua atuação no país.
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Cenário cambial reforça a necessidade de alternativas
Dados do primeiro semestre de 2025
Entre janeiro e junho de 2025, o Brasil registrou um fluxo cambial negativo de quase US$ 10 bilhões, com destaque para uma entrada líquida de US$ 22,8 bilhões no canal comercial e uma saída de US$ 32,7 bilhões no canal financeiro. Esses números refletem o desafio estrutural do país em manter estabilidade cambial, o que reforça a importância de soluções como o Cips.
Menor dependência de sanções e instabilidades externas
Ao operar fora do escopo da Swift e do dólar, o sistema Cips oferece maior resiliência a eventuais sanções internacionais ou instabilidades geopolíticas. Isso se torna especialmente relevante em um cenário global caracterizado por tensões entre potências e guerras comerciais.
Implicações estratégicas e simbólicas

Protagonismo do setor bancário brasileiro
A entrada do Banco Master no Cips coloca o Brasil em posição estratégica dentro do novo ecossistema financeiro internacional. Trata-se de um passo simbólico importante, pois demonstra que instituições financeiras do Sul Global estão atentas às transformações em curso e dispostas a liderar o processo de adaptação.
Multipolaridade no sistema financeiro
Segundo Paulo Gala, “em um mundo cada vez mais multipolar, a entrada do Banco Master no Cips sinaliza não apenas uma decisão estratégica, mas também um passo concreto na direção de um sistema financeiro global mais equilibrado, descentralizado e representativo da nova geografia econômica mundial”.
Considerações finais
A adesão do Banco Master ao sistema Cips da China marca um divisor de águas nas relações financeiras internacionais da América Latina. Ao ingressar nessa rede, o banco brasileiro assume o pioneirismo regional em uma estrutura que pode redefinir o futuro do comércio global.
Mais do que uma inovação técnica, essa medida sinaliza uma mudança de mentalidade no sistema bancário e financeiro brasileiro, que passa a olhar com mais atenção para alternativas ao dólar e à Swift, com vistas à construção de um modelo financeiro mais soberano, eficiente e inclusivo para os países emergentes.
Com o avanço das relações comerciais entre Brasil e China e o fortalecimento do bloco Brics, é provável que outras instituições latino-americanas sigam o mesmo caminho. O Banco Master, ao sair na frente, assume o papel de protagonista na nova ordem financeira global.
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