Banco Mercantil ‘encontra’ R$ 2 tri esquecidos pela concorrência ao focar no público 50+
O Banco Mercantil, uma das instituições financeiras mais tradicionais do Brasil, fez uma virada estratégica digna de uma startup. Com 80 anos de história, o banco mineiro passou por uma completa “pivotagem”, termo popular no universo das empresas de tecnologia para descrever mudanças radicais de rumo no modelo de negócio.
Antes voltado ao atacado e à pessoa jurídica, o Mercantil se reinventou e passou a operar fortemente no varejo, com foco em um público que cresce de forma consistente: a geração 50+, também chamada de geração prateada. Essa faixa etária, cada vez mais relevante no cenário econômico brasileiro, já movimenta mais de R$ 2 trilhões por ano, segundo dados de 2025.
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Do atacado ao varejo: uma mudança de DNA
Uma aposta em um público negligenciado
A mudança de estratégia do Banco Mercantil não foi um movimento impulsivo. O CEO Gustavo Araújo explica que o banco identificou uma oportunidade onde a concorrência via pouco potencial: o atendimento personalizado ao público maduro.
“O 50+ é um público que a concorrência, pelo menos do nosso ponto de vista, ainda tem uma certa negligência. Não vejo um concorrente que tenta dominar esse espaço como o Banco Mercantil”, afirmou Araújo em entrevista ao NeoFeed.
De um banco regional com foco em Minas Gerais e operações empresariais, o Mercantil se transformou em um banco de alcance nacional, voltado ao varejo e especializado em atender aposentados, pensionistas e servidores públicos.
O contexto demográfico favorece
O Brasil vive o fim do bônus demográfico — período em que há mais pessoas em idade produtiva do que idosas — e uma rápida inversão da pirâmide etária. Com o aumento da longevidade e o envelhecimento da população, o público acima dos 50 anos não apenas cresce, como mantém alto poder de consumo e estabilidade financeira.
Para o Mercantil, isso significa um mercado em expansão, com baixa inadimplência e alta fidelização.
Resultados que comprovam a virada
Lucro e rentabilidade recordes
O segundo trimestre de 2025 marcou o 11º lucro consecutivo do Banco Mercantil. O resultado líquido foi de R$ 243 milhões, um aumento de 34% em relação ao mesmo período de 2024.
O desempenho reflete a combinação de crescimento acelerado de receitas e despesas sob controle, o que impulsionou o ROAE (Retorno sobre o Patrimônio Médio) a 46%, dez pontos percentuais acima do registrado no ano anterior.
Expansão da carteira de crédito
A carteira de crédito do banco atingiu R$ 19,3 bilhões no segundo trimestre, um crescimento de 24% em 12 meses, ritmo de expansão até três vezes maior que a média do setor.
Desse total, 65% estão concentrados em crédito consignado e operações com beneficiários do INSS, que cresceram 35% no período. Esse modelo é considerado mais seguro, com baixo risco de inadimplência e alta previsibilidade de fluxo de caixa.
“O banco escolheu ter um portfólio mais defensivo, de maior qualidade. A gente perde menos do que a média de mercado. Isso é fundamental”, disse Araújo.
Escalabilidade e eficiência
Um dos principais trunfos da nova estratégia do Mercantil é a alavancagem operacional: as receitas crescem de forma consistente, enquanto as despesas se mantêm praticamente estáveis. Essa eficiência operacional reforça a capacidade de expansão sem comprometer a rentabilidade.
Geração prateada: o novo motor da economia
O potencial do público 50+
Os brasileiros acima dos 50 anos já representam mais de 56 milhões de pessoas, conforme o IBGE. Trata-se de um grupo com maior renda média, patrimônio acumulado e consumo estável.
De acordo com estudos de mercado, essa faixa etária responde por 38% do consumo total do país e movimenta mais de R$ 2 trilhões na economia, abrangendo desde crédito e seguros até turismo e tecnologia.
No entanto, o setor financeiro historicamente direcionou seus esforços para o público jovem, deixando lacunas no atendimento às necessidades específicas desse grupo. O Mercantil identificou nesse cenário um nicho subexplorado e de alta rentabilidade.
Soluções personalizadas e atendimento humanizado
O foco no público 50+ não se limita ao crédito consignado. O banco desenvolveu soluções integradas para diferentes perfis dentro da faixa etária, incluindo:
- Contas digitais simplificadas
- Cartões sem anuidade e com cashback
- Empréstimos com taxas reduzidas
- Seguro de vida e previdência personalizada
- Atendimento híbrido (digital + humano)
O modelo de relacionamento é centrado na confiança, com agências adaptadas e equipes treinadas para lidar com o público sênior, muitas vezes menos familiarizado com o digital, mas cada vez mais conectado.
A escalada do Banco Mercantil na B3
Desempenho das ações e valorização de mercado
Com o ticker BMEB4, o Banco Mercantil acumula alta de 42,3% em 2025, refletindo a confiança do mercado na nova estratégia. O valor de mercado da instituição chegou a R$ 4,9 bilhões, e os analistas destacam a consistência dos resultados e o baixo índice de inadimplência como pilares do sucesso.
A expansão também elevou o banco ao radar de grandes fundos de investimento e analistas que veem potencial de valorização contínua.
“O Mercantil é hoje uma das instituições mais rentáveis do Brasil. O foco em um público fiel e de baixo risco garante previsibilidade e retorno sustentável”, avaliou o economista Felipe Maciel, da consultoria Cifra Capital.
Base de clientes quadruplicada
Em três anos, o número de clientes saltou de menos de 2 milhões para 9,1 milhões, consolidando a transição do banco regional para uma instituição nacional de varejo digital.
O avanço foi impulsionado pela digitalização dos serviços e pela presença omnichannel, que combina aplicativos modernos, atendimento remoto e suporte presencial.
Estratégia defensiva e sustentabilidade financeira
Qualidade da carteira e risco controlado
O sucesso da operação está ancorado em critérios rigorosos de concessão de crédito. O Mercantil prioriza operações com desconto em folha e benefícios do INSS, reduzindo drasticamente a inadimplência.
A qualidade da carteira de crédito é considerada superior à média do mercado, o que permite ao banco operar com margens elevadas sem comprometer a segurança.
Foco no longo prazo
O CEO Gustavo Araújo reforça que a estratégia do Mercantil é sustentável e de longo prazo, voltada à consolidação de um modelo de negócios diferenciado:
“São diversas vantagens competitivas que, somadas, tornam difícil replicar nossa estratégia. O público 50+ confia em quem o respeita, e nosso relacionamento com o cliente é o que nos destaca.”
Um caso de inovação na tradição bancária

A pivotagem que virou exemplo no setor financeiro
O movimento do Banco Mercantil é um case raro de inovação em uma instituição financeira tradicional. Poucos bancos com mais de oito décadas de história conseguiram se adaptar tão rapidamente às transformações do mercado e do comportamento do consumidor.
A “pivotagem” do Mercantil mostra que adaptar-se não é apenas uma questão de tecnologia, mas de propósito e foco estratégico.
Impacto no setor
Com o sucesso do Mercantil, outras instituições já estudam estratégias similares. Bancos médios e cooperativas buscam segmentar o público maduro, oferecendo produtos de valor agregado, crédito responsável e atendimento humanizado.
A tendência aponta para uma nova era do varejo financeiro, onde o cliente sênior deixa de ser visto como conservador e passa a ser considerado um dos mais lucrativos e leais.
Imagem: Anderson Reis/shutterstock.com