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O fim das taxas: descubra como o Pix tirou R$ 2 bilhões dos grandes bancos

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 5 min de leitura
Bancos

A disputa cada vez mais agressiva com as fintechs e o avanço acelerado do Pix estão redesenhando o modelo de negócios dos grandes bancos brasileiros. Em 2025, três das quatro maiores instituições financeiras de capital aberto do país perderam quase R$ 2 bilhões em receitas com tarifas de conta-corrente, segundo dados compilados a partir dos balanços do quarto trimestre.

O movimento não é pontual. Ele reflete uma transformação estrutural no sistema financeiro nacional, que já conta com 93% da população bancarizada, segundo dados do Banco Central, e enfrenta um cenário de hipercompetição digital. A conta corrente, antes uma fonte relevante de receitas, agora se tornou porta de entrada gratuita para produtos mais rentáveis, como crédito, investimentos e seguros.

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Queda nas tarifas de conta-corrente em 2025

No acumulado de 2025, Itaú Unibanco, Bradesco e Banco do Brasil arrecadaram R$ 15,155 bilhões com tarifas ligadas a contas bancárias, uma queda de 11% em relação ao ano anterior. Apenas o Santander Brasil registrou leve alta nessa linha.

A participação da conta corrente na receita total de serviços caiu de 15% para 13% em apenas um ano. O dado contrasta com o crescimento de quase 5% nas receitas totais com prestação de serviços, que atingiram R$ 15,7 bilhões, impulsionadas por cartões, seguros e administração de recursos.

Na prática, os bancos estão trocando receita transacional por relacionamento de longo prazo.

O papel das fintechs na compressão das receitas

A expansão das fintechs foi determinante para essa mudança. Sem rede extensa de agências e com estruturas mais enxutas, essas empresas passaram a oferecer contas digitais sem tarifas, transferências gratuitas e aplicativos intuitivos.

O maior símbolo dessa estratégia é o Nubank, que ao final de 2025 alcançou 112 milhões de clientes no Brasil, tornando-se a maior instituição financeira do país em número de usuários, atrás apenas da Caixa Econômica Federal, segundo dados do Banco Central.

Esse crescimento pressionou os bancos tradicionais a reverem práticas baseadas na cobrança por transação, como tarifa de manutenção, saques excedentes e transferências.

De modelo transacional para modelo relacional

O setor migra de uma lógica transacional para uma abordagem relacional. Em vez de cobrar por cada serviço, os bancos oferecem conta gratuita e buscam monetização por meio de:

  • Crédito pessoal e consignado
  • Financiamentos imobiliários e de veículos
  • Cartões de crédito com maior volume de uso
  • Investimentos e previdência privada
  • Seguros

O conceito-chave passou a ser “principalidade”: fazer com que o cliente concentre sua vida financeira em uma única instituição.

Pix acelera a mudança estrutural

Criado pelo Banco Central do Brasil em 2020, o Pix revolucionou o sistema de pagamentos. Gratuito para pessoas físicas na maioria das operações, o sistema substituiu transferências tarifadas como TED e DOC.

Para os bancos, isso significou perda direta de receita com transferências. Por outro lado, trouxe ganhos indiretos:

  • Redução de custos com infraestrutura de pagamentos
  • Maior frequência de uso do aplicativo
  • Aumento do engajamento do cliente
  • Ampliação da inclusão financeira

Hoje, o Pix é o meio de pagamento mais utilizado no Brasil, superando cartões e boletos em volume de transações, segundo dados oficiais do Banco Central.

A compensação pela via do crédito

Com menor receita de tarifas, os bancos ampliam o foco em produtos de maior margem. O crédito, especialmente para baixa e média renda, tornou-se estratégico.

Um exemplo prático é a ampliação da oferta de crédito consignado e crédito pessoal via aplicativo, com análise automatizada e liberação em minutos. A lógica é simples: a conta gratuita atrai; o crédito fideliza e gera rentabilidade.

Digitalização e fechamento de agências

A transformação também passa pela estrutura física. Nos últimos anos, grandes bancos fecharam milhares de agências e reduziram quadros de funcionários.

Aplicativos mais completos passaram a concentrar serviços antes restritos ao atendimento presencial, como:

  • Renegociação de dívidas
  • Contratação de seguros
  • Investimentos em renda fixa e variável
  • Simulações de financiamento

A redução do custo de servir permite diminuir tarifas sem comprometer a lucratividade.

Ambiente competitivo e regulação

A Febraban tem defendido atualização na regulação de tarifas bancárias. Segundo a entidade, as regras atuais foram concebidas antes do Pix e do Open Finance, o que geraria distorções competitivas.

Um dos exemplos citados é a obrigatoriedade de oferecer até quatro saques gratuitos mensais no pacote essencial de conta corrente, regra que não se aplica da mesma forma às contas de pagamento das fintechs.

O debate envolve equilíbrio concorrencial e modernização regulatória, sem necessariamente implicar aumento de tarifas.

O que muda para o consumidor brasileiro

Para o cliente, o cenário tem efeitos concretos:

  1. Maior oferta de contas gratuitas
  2. Mais concorrência entre instituições
  3. Melhores aplicativos e experiência digital
  4. Ampliação do acesso ao crédito
  5. Necessidade maior de educação financeira

Com a maioria da população já bancarizada e média superior a seis contas por pessoa, segundo estudos do setor, o desafio deixou de ser abrir conta e passou a ser escolher onde concentrar operações.

Conclusão

A queda de quase R$ 2 bilhões em receitas com tarifas de conta-corrente em 2025 não representa fragilidade do sistema bancário, mas sim uma reconfiguração estratégica.

Os bancos brasileiros seguem lucrativos, porém com uma matriz de receitas cada vez menos dependente de tarifas e mais orientada a crédito, investimentos e serviços de maior valor agregado.

O Pix e as fintechs não apenas comprimiram margens, mas aceleraram a modernização de um setor historicamente concentrado. O resultado é um sistema mais digital, competitivo e centrado no relacionamento com o cliente.

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