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Ex-presidente do BC compara Bitcoin ao papel-moeda: ‘sobrevive pela informalidade’

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, compara o Bitcoin ao dinheiro em espécie e destaca seu papel na economia subterrânea. Entenda sua visão.

Tainara FerreiraPor Tainara Ferreira7 min de leitura
Bitcoin

Em uma entrevista recente ao jornal O Globo, o economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central do Brasil (BCB), reacendeu o debate sobre o papel das criptomoedas na economia mundial ao afirmar que o Bitcoin (BTC) funciona hoje como o dinheiro em espécie.

Com uma longa carreira marcada por sua atuação na estabilização econômica do Brasil nos anos 1990, Franco não poupou críticas nem fez concessões ao analisar a evolução do dinheiro e o papel do Estado como emissor de moeda.

Franco fez parte do time que liderou o Plano Real, programa que combateu a hiperinflação no Brasil, e presidiu o BC entre 1997 e 1999 durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Sua visão crítica sobre a relação entre moeda, confiança e regulação ressoa ainda mais em tempos de crescente adoção dos criptoativos no Brasil e no mundo.

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A “anonimidade digital” do Bitcoin

Durante a entrevista, Gustavo Franco foi direto ao afirmar que o Bitcoin tem um papel muito próximo ao do dinheiro físico, especialmente no que se refere ao anonimato e ao uso fora do sistema financeiro tradicional.

“Bitcoin é uma anonimidade digital com o dinheiro”, declarou o ex-presidente do BC.

Franco ressalta que, assim como o papel-moeda, o Bitcoin não exige intermediários financeiros para ser utilizado e preserva o anonimato do usuário — características que o tornam atrativo para a chamada economia subterrânea, que movimenta trilhões fora do alcance dos bancos centrais e das autoridades fiscais.

A economia subterrânea e a sobrevivência do dinheiro em espécie

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Imagem: Rafapress/Shutterstock.com

Dinheiro físico ainda sobrevive — mas por quê?

O ex-presidente do Banco Central faz uma provocação ao dizer que o dinheiro em espécie só continua existindo por conta da economia subterrânea.

“A economia subterrânea é gigante no mundo todo, e esse tipo de moeda serve para essa economia que é incompatível com o sistema financeiro regular. Por isso tanta demanda. É igual ao dinheiro em espécie”, afirma.

Segundo ele, grande parte das transações que utilizam papel-moeda são não rastreáveis e estão diretamente ligadas a atividades que fogem da regulação oficial, como o comércio informal, evasão fiscal e atividades ilegais.

Bitcoin como alternativa moderna ao dinheiro físico

Com base nessa análise, Franco argumenta que o Bitcoin — e por extensão outras criptomoedas com características semelhantes — tem ocupado o mesmo espaço do papel-moeda na era digital, ao oferecer uma forma de valor descentralizada, anônima e fora dos radares institucionais.

A confiança como base do valor da moeda

A história do papel-moeda no Brasil

Gustavo Franco, autor de livros sobre a história econômica brasileira, lembrou em sua entrevista que, antes da crise de 1929, o papel-moeda trazia a frase “O Tesouro promete pagar ao portador deste valor”, ou seja, havia um lastro explícito e uma promessa de conversibilidade.

Com o tempo, esse compromisso foi sendo abandonado, principalmente durante e após períodos de instabilidade econômica. No governo José Sarney, por exemplo, as notas passaram a conter o dizer “Deus seja louvado”, o que Franco ironiza como um apelo ao divino para sustentar o valor da moeda.

“Mudamos a promessa do Tesouro por uma súplica a Deus. A moeda sobrevive por confiança — mas essa confiança tem limites”, argumenta.

Bitcoin e o colapso da confiança institucional

O paralelo com o Bitcoin é inevitável. Em vez de confiar em governos e bancos centrais, os usuários da principal criptomoeda do mundo confiam em um código aberto, validado por uma rede descentralizada de participantes — os mineradores e validadores.

Essa confiança na criptografia matemática e na escassez programada (apenas 21 milhões de unidades de BTC existirão) é o que sustenta seu valor. Ou, como muitos defensores dizem, o Bitcoin seria uma moeda para tempos de colapso institucional.

Stablecoins e o futuro do dinheiro digital

A promessa das stablecoins

Apesar das ressalvas ao Bitcoin, Gustavo Franco reconhece que outras inovações no setor de criptoativos, como as stablecoins, podem representar uma boa oportunidade de modernização dos meios de pagamento.

As stablecoins são criptomoedas atreladas a moedas fiduciárias, como o dólar ou o real, e possuem menos volatilidade. Isso as torna mais viáveis para pagamentos do dia a dia e para uso em plataformas de comércio eletrônico.

Mas só com regulação

Franco, porém, faz uma advertência clara: sem regulação robusta, essas inovações correm o risco de seguir o mesmo destino de projetos malfadados no mundo cripto.

“Dependerá da regulação do mercado, senão será como as outras criptos. Não dá para empresas fundo de quintal operarem meios de pagamento”, afirmou.

A declaração se alinha ao debate atual sobre a regulamentação das stablecoins no Brasil e no exterior, especialmente com o avanço de projetos como o Real Digital e iniciativas da União Europeia com o euro digital.

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Contexto e legado de Gustavo Franco

Do Plano Real ao mercado digital

Com formação acadêmica sólida e atuação destacada no setor público, Gustavo Franco participou diretamente do desenho e da implementação do Plano Real, lançado em 1994 para estabilizar a moeda brasileira e combater décadas de hiperinflação.

Durante sua gestão como presidente do Banco Central entre 1997 e 1999, Franco conduziu a transição do regime de câmbio fixo para o câmbio flutuante, que vigora até hoje. Também defendeu políticas de austeridade e controle fiscal, o que o tornou uma figura influente nos meios liberais.

Sua visão crítica sobre o sistema monetário — e agora sobre o papel das criptomoedas — carrega o peso de quem testemunhou, por dentro, o colapso de regimes monetários mal planejados.

Bitcoin no Brasil hoje: a realidade atual

26 milhões de brasileiros investem em criptomoedas

O Brasil está entre os países com maior número absoluto de investidores em criptomoedas. De acordo com dados da Chainalysis e Receita Federal, mais de 26 milhões de brasileiros já compraram ou mantêm ativos digitais em suas carteiras — o que corresponde a quase 12% da população.

O movimento reflete desconfiança com o real, busca por proteção contra a inflação, e o desejo de diversificação patrimonial, especialmente entre jovens e investidores mais conectados.

Debates regulatórios ganham força

Com a Lei 14.478/22, que trata sobre os prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs), e os debates em torno da implementação do Real Digital, o Brasil se posiciona como um dos países mais avançados na América Latina em termos de regulação cripto.

Esse cenário torna as falas de Gustavo Franco ainda mais relevantes: à medida que o mercado institucionaliza o Bitcoin, seu potencial como “dinheiro em espécie digital” continua despertando atenção — e dividindo opiniões.

Conclusão: Uma visão crítica, mas necessária

Bitcoin
Imagem: Seu Crédito Digital/Freepik

As declarações de Gustavo Franco sobre o Bitcoin revelam uma perspectiva rara no debate cripto: a de um economista que entende profundamente a história do dinheiro, os mecanismos do Estado e os perigos da desorganização monetária.

Comparar o Bitcoin ao dinheiro em espécie é, antes de tudo, uma provocação: um lembrete de que nem tudo o que reluz no mercado cripto representa avanço — e que muitas das qualidades que tornam o Bitcoin atraente também podem ser utilizadas em sistemas econômicos paralelos, longe da supervisão institucional.

Ao mesmo tempo, ao reconhecer o potencial das stablecoins e a importância de uma regulação eficiente, Franco mostra que a revolução monetária digital não deve ser ignorada — mas sim conduzida com rigor técnico, responsabilidade e visão de futuro.

Tainara Ferreira

Autor

Tainara Ferreira

Tainara Ferreira atua como redatora no portal Seu Crédito Digital, contribuindo com pautas que facilitam o entendimento de políticas públicas, programas sociais, economia do dia a dia e direitos dos cidadãos. Com olhar atento aos temas que impactam diretamente a vida da população brasileira, tem como missão traduzir informações complexas em conteúdos claros, úteis e acessíveis.

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