Na contramão da recente liquidação dos fundos negociados em bolsa (ETFs) de Bitcoin, empresas que mantêm BTC em suas tesourarias intensificaram suas compras. Em um único dia, foram adicionados 630 BTC às reservas corporativas, enquanto os ETFs à vista nos Estados Unidos enfrentaram saídas líquidas superiores a US$ 300 milhões.
Essa divergência entre os dois principais segmentos institucionais do mercado de criptoativos — ETFs e tesourarias corporativas — levanta um ponto de reflexão entre analistas: estamos nos aproximando de um novo fundo de preço para o Bitcoin?
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De acordo com informações divulgadas pela Capriole Investments, um fundo quantitativo focado em ativos digitais, empresas listadas em bolsa e outras corporações adicionaram cerca de 630 BTC às suas tesourarias apenas na segunda-feira (5 de agosto). O movimento equivale a cerca de US$ 72 milhões, com base nas cotações médias da data.
Esse foi o maior volume de aquisição corporativa de BTC registrado em agosto até o momento — e representa uma mudança significativa no comportamento institucional, considerando que, no mesmo período, ETFs listados nos EUA venderam o equivalente a US$ 323,5 milhões em Bitcoin.
Capriole: recordes em julho mostram tendência de acumulação
A Capriole também revelou que, ao longo de julho de 2025, o interesse corporativo no Bitcoin foi consistente, tendo como ponto alto o dia 21 de julho, quando as compras de tesourarias superaram 26.700 BTC (cerca de US$ 3 bilhões).
Segundo Charles Edwards, fundador da Capriole, isso pode indicar uma estratégia sofisticada de acumulação silenciosa.
“Historicamente, grandes compras por tesourarias tendem a acontecer perto de fundos locais de preço. Quando vemos essas entradas elevadas, normalmente há um reposicionamento estratégico no horizonte”, afirmou Edwards.
ETFs de Bitcoin enfrentam sequência de saídas

Apesar do movimento das tesourarias, os ETFs de Bitcoin à vista nos EUA enfrentam o terceiro dia consecutivo de saídas líquidas. O destaque negativo foi o iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, que sofreu uma saída de US$ 292,2 milhões, sua maior desde maio de 2025.
Além do IBIT, outros fundos também registraram perdas:
- Fidelity Wise Origin Bitcoin (FBTC): -US$ 40 milhões;
- Grayscale Bitcoin Trust (GBTC): -US$ 10 milhões;
- Bitwise Bitcoin ETF (BITB): única exceção, com entrada de US$ 18,7 milhões.
O movimento ocorre após o Bitcoin cair cerca de 8,5% no fim de semana, atingindo US$ 112.300 no domingo, antes de se recuperar para US$ 115.000.
Divergência de comportamento institucional intriga analistas
O cenário cria uma rara dissociação entre dois tipos de players institucionais: os que investem por meio de ETFs regulados e os que optam por adquirir diretamente o ativo para suas reservas.
Charles Edwards: grandes vendas indicam fundos de preço
Charles Edwards foi além ao destacar que, nas poucas ocasiões em que tesourarias corporativas venderam mais de 1.500 BTC em um único dia, o mercado do Bitcoin encontrou um fundo local logo em seguida.
Um exemplo citado por Edwards ocorreu em 31 de março de 2025, quando empresas se desfizeram de 1.700 BTC (equivalente a US$ 194 milhões). O BTC caiu para US$ 74.500 uma semana depois, e iniciou uma forte recuperação logo em seguida.
“Esse padrão se repete. Sempre que há uma grande venda das tesourarias, isso costuma sinalizar uma reversão de tendência”, comentou Edwards na plataforma X (antigo Twitter).
Analistas discordam sobre o significado das saídas dos ETFs
Enquanto parte do mercado interpreta as saídas dos ETFs como sinais de fraqueza, outros especialistas adotam uma visão mais otimista. Entre eles está Eric Balchunas, analista sênior de ETFs da Bloomberg, que minimizou a importância das retiradas recentes.
“Há muito pessimismo no ar, mas não se surpreendam se os traders comprarem na baixa. Isso funciona há décadas”, escreveu Balchunas, também no X, ao compartilhar gráficos de desempenho histórico do Bitcoin após grandes quedas.
Segundo ele, o momento pode representar uma “armadilha para os ursos”, já que o preço do Bitcoin frequentemente se recupera com força após liquidações abruptas.
Volatilidade do Bitcoin diminui após ETFs
Outro ponto levantado por Balchunas é que a presença dos ETFs à vista no mercado ajudou a reduzir a volatilidade do Bitcoin.
Segundo ele, a volatilidade móvel de 90 dias do IBIT está abaixo de 40, em comparação aos níveis acima de 60 registrados na época do lançamento, em janeiro de 2024.
ETFs como instrumento de estabilidade
A redução da volatilidade pode, segundo Balchunas, atrair “peixes maiores”, como fundos de pensão, seguradoras e bancos centrais.
“Com menos movimentos bruscos, o Bitcoin ganha uma chance real de ser adotado como moeda de reserva e ativo estratégico global”, afirmou o analista.
Fundamentos seguem positivos para o Bitcoin
Além da movimentação das tesourarias, outros fundamentos também sustentam uma visão otimista para o BTC:
Hashrate e dificuldade de mineração em alta
A dificuldade de mineração do Bitcoin atingiu recordes históricos em agosto, superando 127 trilhões. Isso indica que a rede segue segura, robusta e com ampla participação de mineradores, mesmo após o halving.
Entrada institucional ainda supera saídas no acumulado
Mesmo com saídas recentes, os ETFs de Bitcoin nos EUA ainda acumulam fluxo positivo de mais de US$ 17 bilhões desde janeiro de 2024. O próprio IBIT da BlackRock registrou US$ 5,2 bilhões em entradas apenas em julho, reforçando o apetite institucional no médio prazo.
Indicadores on-chain sugerem acumulação
Dados da Glassnode e da CryptoQuant apontam que endereços com mais de 1.000 BTC aumentaram sua exposição em julho e agosto, sinalizando que baleias estão acumulando silenciosamente.
Conclusão: fundo ou fraqueza de mercado?

A divergência entre ETFs e tesourarias corporativas cria um ponto de inflexão importante no mercado de Bitcoin. Enquanto os ETFs recuam diante da volatilidade, empresas demonstram confiança ao acumular BTC.
A história recente mostra que tais momentos de desalinhamento podem antecipar reversões de tendência, especialmente quando acompanhados de indicadores técnicos, on-chain e institucionais favoráveis.
O mercado pode ainda passar por turbulências no curto prazo, mas os fundamentos estruturais do Bitcoin continuam sólidos. E, se os dados da Capriole estiverem corretos, a próxima alta pode já estar sendo construída, silenciosamente, pelos participantes mais bem informados do setor.
